19/10/19
 
 
Joana Mortágua 04/07/2019
Joana Mortágua
Cronista

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Amália aconteceu-nos

Se Amália nos deu os poetas, a música como nunca a tínhamos ouvido e tanto do que somos, tenho a convicção de que lhe devemos futuro e que a continuação do seu legado não deve ser deixada ao acaso.

“Dei o teu nome à minha terra

Dei o teu nome à minha arte

A tua vida à primavera

A tua voz à eternidade” 

O prof. Joel Pina terá dito recentemente que gostou de ter nascido no séc. xx por ter sido o século em que Amália viveu. Joel Pina (que ainda toca em Alfama) foi o homem que introduziu a viola baixo no Fado como o conhecemos hoje e que acompanhou Amália durante anos. Foi cúmplice da sua carreira e continua a ser uma das testemunhas mais comoventes do seu génio.

Amália Rodrigues faria esta semana 99 anos. Apesar de ter sido registada a 23 de julho, as reservas quanto ao dia exato do seu nascimento ficaram resolvidas quando escolheu o primeiro dia do mês como data do seu aniversário. Queria celebrar no tempo das cerejas, talvez por não se esquecer que ela própria seria da terra das cerejas se não tivesse nascido em Lisboa por acaso.

É dela a primeira voz que, em criança, me fez gostar de Fado. Estava eu ainda muito longe de conhecer os discos como aquele de 1962 que revolucionou a música portuguesa pela obstinada inteligência com que ela quebrava todas as regras do que se cantava e como se cantava. De entre centenas de poetas e compositores, Amália cantou-se muito a si própria e a Alain Oulman, um encontro que elevou o fado aos olhos dos grandes poetas e intelectuais da época. Os registos dos ensaios de Amália com Oulman ao piano dão-nos a extraordinária sensação de estar a ouvir a música a escolher os seus criadores.

No entanto, a vontade que deu à luz este artigo nunca foi a de escrever sobre Amália como faria um entendido ou uma especialista. Tenho demasiado respeito por ela e pelo Fado, rendo tudo do pouco que sei a quem por amor e estudo os conhece a fundo. O lugar a partir do qual quero falar é outro, é o da pertença à última geração que partilhou o século com Amália Rodrigues.

“Amália Rodrigues é uma coisa que nos aconteceu a todos, e não sei quando e se voltará a acontecer”. As palavras são do fadista Rodrigo, numa das sessões (muito bem) organizadas pelo jornalista Nuno Pacheco no Museu do Fado. Aquilo que ele queria dizer, se posso atrever-me a interpretar, é que não se conhecem e, portanto, não se podem reproduzir os fatores que fazem a diferença entre um músico brilhante e um génio. Houve uns dados aleatoriamente lançados no universo e nós tivemos sorte: Amália aconteceu-nos.

Se Amália nos deu os poetas, a música como nunca a tínhamos ouvido e tanto do que somos, tenho a convicção de que lhe devemos futuro e que a continuação do seu legado não deve ser deixada ao acaso. Se, no mundo do Fado, essa presença é tão orgânica como o sangue que corre “nas veias de uma guitarra”, cada vez mais será necessário reapresentar Amália às novas gerações.

Além da grande diva, além das polémicas históricas (mas jamais fugindo delas), além do esplendor dos salões, da elegância dos vestidos e muito além de todos os lugares-comuns que entretanto se criarão mas que ainda não conhecemos sobre a sua vida e a sua carreira... Além do seu talento de poeta e daquela extraordinária voz, mas também por eles, o que Amália fez com a música portuguesa e com o Fado não existia antes dela e, provavelmente, ainda não acabou. Está vivo.

Preservar esse património é responsabilidade nossa. É preciso celebrar Amália com tanta inteligência como a que ela tinha, e o centenário do seu nascimento, em 2020, é uma oportunidade única para o fazer. Com verdade e sem unanimismos, cabe-nos garantir que as gerações futuras não desconhecem porque é que todos nós temos Amália na voz.

[1] “Voz Amália de Nós”, António Variações

[2] Ambos têm feito um trabalho meritório na preservação da memória, estudo e divulgação do fado.

Deputada do Bloco de Esquerda

 

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