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2 de julho de 1948. Rasgaram a Alemanha como se fosse uma folha de papel

2 de julho de 1948. Rasgaram a Alemanha como se fosse uma folha de papel

Afonso De Melo 03/07/2019 23:21

Os soviéticos tomaram uma posição de força e retiraram-se das reuniões dos Aliados para a resolução do problema de Berlim. Cortaram as ligações com o ocidente e isolaram a sua parte de influência. A guerra voltava a ser cenário possível.

A notícia espalhou-se por todo o planeta como fogo num campo de palha seca. Boris Kalinin, comandante-chefe do governo militar da União Soviética, confirmara publicamente algo de que todos vinham suspeitando nos corredores intrincados da diplomacia: “Os representantes soviéticos, a partir de hoje, deixam de tomar parte em quaisquer reuniões da Kommandantur Aliada na cidade de Berlim”.

A união dos invasores de Berlim no fim do nazismo estalara com a facilidade de um pucarinho de Estremoz. Os restantes membros presentes na reunião, como O. G. Osborne, do estado-maior britânico, o francês Arnoux e o norte-americano Boulard, não escondiam a sua frustração. Para todos eles era óbvio que esta opção por parte do Governo da União Soviética iria terminar com a divisão do país ocupado a partir de 1945.

Perante este facto, a ponte aérea foi lançada pelos aliados ocidentais. Com o encerramento da passagem para o lado de Berlim controlado pelos soviéticos, muitos bens essenciais iriam faltar à população local. Nessa mesma noite, oito enormes Dakota levantaram voo e pousaram na zona oriental da capital alemão, carregados com mais de duas toneladas de géneros alimentícios por cada aparelho.

Havia o receio geral e legítimo de que os soviéticos encarassem de forma agressiva esta violação do seu espaço aéreo, mas tal não aconteceu. Nos dias que se seguiram, a ponte aérea atingiu números extraordinários. Um avião levantava praticamente a cada cinco minutos durante 24 horas consecutivas.

Sequelas A imprensa britânica deslocou-se em força e em número para Berlim. O enviado especial do Daily Telegraph sobressaltou os seus leitores com uma visão tão dramática como realista da situação: “A evacuação de Berlim por parte dos ocidentais significará um revés e um desastre insustentável. Em vez de afastar o perigo e uma nova guerra, aumentaria o risco de um conflito com os russos. Diplomaticamente, é necessário forçar a União Soviética a entrar num campo de razoabilidade e voltar ao sistema de divisão quadripartida”.

Por seu lado, o Guardian era bem mais incréu: ”A carta envida pelo marechal Sokolovski ao seu homólogo americano Bevin Robertson, vinda à luz do dia, pode ser muito polida mas é também, a nosso ver, muito cínica. Provavelmente não significará nada. Devemos e desejamos acreditar que os russos querem tomar uma atitude amigável, mas só acreditaremos na sua boa vontade quando partir o primeiro comboio ou a primeira barcaça voltar a vogar nas águas do Elba”.

A palavra guerra estava outra vez em cima da mesa. Nas cimeiras entre os Aliados levanta-se a possibilidade clara de declarar aberto o conflito mal os russos levantem restrições ao habitual movimento de pessoas e bens entre as duas áreas de influência. Mas pela forma como, uns anos mais tarde, se deitaram à construção do famoso e maquiavélico muro que traçou na cidade uma cicatriz indelével, o mundo percebeu que nada os faria voltar atrás. Só, muito provavelmente, a queda do regime.

José Estaline via na parte de Berlim controlada por americanos, ingleses e franceses um perigo constante e ameaçador para o seu Estado fechado e governado com mão de ferro. Para ele, a democracia era uma doença infecciosa que não tardaria a entrar-lhe pela casa como se fosse por simples osmose. A sua posição de força partia desse receio. Além disso, considerava a cidade um coio descontrolado de espiões que era absolutamente necessário esmagar no próprio ninho. A CIA e o MI6, serviços internacionais dos Estados Unidos e do Reino Unido, respetivamente, que pululavam por toda a Berlim, acabariam expulsos e aconselhados a regressar aos seus países de origem.

A grande barreira soviética fazia do Bloco de Leste e do Pacto de Varsóvia organizações cada vez mais poderosas que preocupavam os velhos lobos da política ocidental. Um deles resmungou: “Sejam pacifistas. Irão perceber que o crocodilo vos irá comer à mão sempre que vos pedir carne. Se um dia não tiverem carne para lhe dar, come-vos a vocês”. Palavras de Winston Churchill que o tempo atirou para o olvido.

 

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