15/9/19
 
 
Carlos Carreiras 03/07/2019
Carlos Carreiras

opiniao@newsplex.pt

Tabonga maningue, Cleisson (ou como com tão pouco se pode fazer muito)

A história de sucesso do Cleisson deve lembrar-nos que um pequeno esforço nosso é uma grande ajuda para Moçambique.

Não sei se pela sua natureza de contrapoder, se por ceticismo crónico, os média têm uma estranha predileção pela penumbra dos nossos dias. Como se a maldade fosse a constante da nossa vida social. Como se já não houvesse lugar para a bondade entre nós.

Quantos noticiários são corridos, de fio a pavio, com títulos que de tanto escândalo prometerem deixaram há muito de escandalizar.

Quantos artigos de opinião são escritos em tom de insulto e conflito.

Quantas tribunas televisivas são ocupadas por profissionais do boato e profetas da desgraça.

Chateia-me que não haja uma agenda para boas notícias.

Dirão alguns: a realidade é aquilo que é. Eu responderei: somos bastante melhores do que isto.

Todos os dias, à nossa volta, há histórias extraordinárias. Histórias de superação, de amor, de solidariedade, de sobrevivência. Historias que têm de ser partilhadas para que a ignorância da esperança não tome conta de nós.

Por isso, partilho com os meus leitores neste espaço a maravilhosa história do Cleisson – que não é nova para quem me segue nas redes sociais.

O Cleisson é um menino moçambicano. Chegou a Portugal há dez meses. Entrou no meu gabinete pela mão da Carmo Jardim, a cara da ONG SIM – Solidariedade Internacional a Moçambique.

Lembro-me bem desse dia porque o Cleisson mal andava. Todos os passos, pequeninos e arrastados, eram acompanhados de dor. E, mesmo em sofrimento, o Cleisson não perdia o olhar meigo e o sorriso fácil. Paralisado pela doença de Perthes, para a qual teve um diagnóstico fora de tempo na sua ilha do Bazaruto, Cleisson viajou para Portugal com a esperança de se tratar.

Operado no Hospital da Cruz Vermelha por uma equipa médica excecional – dizem os entendidos que das melhores do mundo, e eu acredito –, Cleisson submeteu-se a um tratamento definitivo da sua condição.

E dez meses depois… bom, dez meses depois, o Cleisson anda, corre, joga futebol e básquete. Faz surf e natação. Recuperou o direito de viver como todos os meninos da sua idade devem viver: com liberdade e alegria.

Se acabasse aqui, a história teria tido um final feliz. Só que não acabou.

Como se encarnasse a força do povo moçambicano naquele corpo franzino, e livre das amarras de Perthes, o Cleisson aproveitou os seus dez meses em Portugal para fazer a mais espantosa das viagens: a viagem pelo conhecimento.

Foi para a escola, fez amigos, aprendeu. E, no fim, acabou o sexto ano com notas que deixam qualquer amigo orgulhoso.

Passaram dez meses do tamanho de uma vida. À distância, o Cleisson viu a família crescer com uma irmã que até há dias não conhecia. E também foi à distância que assistiu à destruição do seu país.

Por esta altura em que escrevo, a viagem de Cleisson em Portugal terminou e já terá chegado às margens do Índico.

O Cleisson estava no sítio certo à hora certa.

Teve a preciosa ajuda da Carmo Jardim e da SIM – Solidariedade Internacional a Moçambique.

Teve os melhores médicos na Cruz Vermelha.

Teve os melhores professores e colegas nos Salesianos de Manique.

E também teve uma pequena ajuda institucional da Câmara de Cascais para que pudesse levantar voo e conquistar os seus sonhos. Todos contribuíram de forma solidária e mostraram que com muito pouco ou nada se consegue fazer muito.

Sonhos que, em Moçambique, tantos outros meninos como o Cleisson ainda não podem realizar.

A história de sucesso do Cleisson deve lembrar-nos que um pequeno esforço nosso é uma grande ajuda para Moçambique. Deve inspirar-nos à ação, porque nenhum desafio é grande demais perante a generosidade e a boa vontade dos nossos corações.

Cascais, à sua pequena escala e dimensão, dedicou uma fatia do seu orçamento à ajuda de emergência prestada no terreno por cinco organizações não governamentais: a UNICEF, a AMI, a HELPO, a SIM e a Fundação Leite Couto. Todas elas com experiência diversificada em Moçambique e com quem Cascais tem laços de confiança, fruto do trabalho desenvolvido no passado e no presente.

É que Moçambique saiu das notícias. Mas, infelizmente, os problemas não saíram de Moçambique. O país ainda vive em estado pós-catástrofe. Há cidades sem água, outras sem luz, outras sem tudo. Há crianças a passar fome e adultos em risco de vida porque não têm acesso a medicação básica.

Tudo isto num país que fala a nossa língua, que partilha a nossa história e que tem connosco laços de sangue e de afeto.

Temos mesmo a obrigação de fazer mais.

Os tempos são de fazer muito mais, muito melhor, e só precisamos mesmo de um pouco do muito que nos sobra.

Cleisson Pedro Maluane despediu-se com uma carta na qual confessa levar Portugal no coração.

Ora essa, rapaz. A saudade é toda nossa.

Como se diz lá na tua casa, no Bazaruto, tabonga maningue.

 

Escreve à quarta-feira

 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×