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Billy Collins. “Ver o poema progredir dá a sensação de que está a farejar o seu próprio túmulo”

Billy Collins. “Ver o poema progredir dá a sensação de que está a farejar o seu próprio túmulo”

Diogo Vaz Pinto 02/07/2019 14:29

A surpresa e o humor são as armas deste poeta que publica pouco e vende muito, talvez porque em vez de falar para a eternidade, fala para quem sente e sabe que vai morrer.

Um sedutor muitíssimo discreto, o antigo poeta laureado dos EUA enche salas por todo o país para o ouvirem dizer os seus poemas, num tom monótono, tenso, que arrasta calma e firmemente até ao deslumbramento. Esteve em Portugal pela primeira vez, país que entrara no título do seu último livro, mas apenas pelas suas três sílabas, e de forma a decepcionar uma rima. 

Tão raro é o caso do poeta que alcança um extraordinário sucesso comercial sem atrair, com isso, o desdém dos inveterados leitores de poesia que, de Billy Collins, se pode falar como de um unicórnio no espaço da poesia contemporânea. E se hoje, toda a fancaria sentimental que chega ao supermercado literário adrega à secção de poesia, a sua pequena ilha expandiu-se, tornou-se um corredor, essa ala dos estropiados da forma, lamurientos uivos e velhas queixas, modos de chantagem emocional que dividem entre si as últimas senhas do prestígio literário. Mas Collins não prega para essa paróquia nem finge estar interessado em que a poesia atraia uma grande congregação.

Poeta laureado dos EUA entre 2001 e 2003, Collins levou tempo para encontrar o seu tão hábil registo, que lembra uma expedição através do arquipélago do humor, bem mais vasto e inexplorado do que se julga. Começou a publicar depois dos 40, e com outros 40 em cima não assediou a musa ao ponto de se tornar um autor prolífico, preferindo dar tempo ao acaso para se recompor, de apanhar as roupas do chão e voltar a empinocar-se. Quando avança sobre ele de novo, Collins garante a surpresa, e por isso só o faz se estiver seguro de que a sua demonstração de força o obrigará a render-se. Não pretende vergá-lo, nem embaraçá-lo ou cortar-lhe a cabeça. É um poeta que se faz valer de um arsenal pouquíssimo ameaçador, mas que, de algum modo, sabe fazer uma ligação directa entre um bocejo e um espirituoso motim. Parece tudo uma brincadeira, mas o encanto persiste. Publicou 11 livros de poesia – o último em 2006, com o título “The Rain in Portugal” –, e uma série de antologias, tendo a mais recente – “Aimless Love: New and Selected Poems” (2013) – marcado a sua estreia entre nós, numa edição da Averno, publicada em 2014 e com tradução de Ricardo Marques: “Amor Universal”.

Voltando a pegar na ampla antologia que nos chegou, fica a sensação de que as versões em português são imitações sofríveis do original, e, infelizmente, em vez de uma edição bilingue tradicional, os versos originais ficaram atascados como notas de pé de página. Na sua primeira visita a Portugal, tendo sido convidado para participar na edição deste ano do Lisbon Revisited – uma iniciativa da Casa Fernando Pessoa – Collins surgiu-nos com um ar estremunhado, mas não de quem acabou de se levantar da cama, antes como se a luz de Lisboa houvesse dado origem a um processo de clorofila entre musgos acumulados nas zonas menos acessíveis do espírito. Estava a contar-nos o dia esplendente que o recebeu e aí começámos a entrevista.

Teria preferido saber como bate a chuva por cá, para dar outro sentido ao título do seu último livro [“The Rain in Portugal”].
Não, não. Bom, talvez no último dia, para me despedir. Ontem quando cheguei estávamos como mortos-vivos, por causa do jet-lag, mas dormimos 12 horas. Hoje, ao acordar senti-me içado por uma alegria quase exuberante. Com a temperatura ideal e a brisa no ponto, passei o dia às voltas. E uma coisa que me pus a pensar foi se me teriam convidado por terem levado o título do livro à letra. Na verdade, Portugal ali é uma espécie de desvio à rima. A ideia era que a chuva, rimando, me levasse para Espanha [Rain+Spain]… Portanto, o que está a faltar ao título é “Spain”. É uma espécie de aviso à navegação, para que o leitor saiba de antemão que não irá encontrar regularidade em termos da rima no livro. Tem pouco que ver, na verdade, com o vosso país. Não tem mesmo nada a ver com Portugal, que nunca tinha visitado.

Disse já noutras entrevistas que a escrita da poesia tem muito a ver com longos períodos de espera. Nesse aspecto, sente-se conduzido por coincidências?
Acho curioso que me fale em coincidências, desde logo porque não estou entre os membros dessa seita. Flagrar coincidências apenas mostra que, na verdade, estamos a prestar pouca atenção às coisas. Se reparamos numa certa intersecção que nos desperta – como termos o mesmo nome, ou sermos conterrâneos –, a questão é porque é que precisamos disso para nos sentirmos beliscados. A todo o momento, estão a passar-se uma infinidade de coisas, e a lei da probabilidade diz-nos que, inevitavelmente, iremos deparar com intersecções. Chamamos-lhes coincidências… Mas parece-me que a admiração que nos causam só serve para sinalizar o quão pouco habituados estamos a pasmar diante das coisas que se põem diante de nós no dia-a-dia. Não sei se esta resposta lhe parece satisfatória…

Sim, abre a conversa e tira-a do caminho dos lugares-comuns. Disse já também que se considerava uma espécie de porteiro da poesia, no sentido em que convida leitores que não voltaram a pegar-lhe desde os tempos de escola. Sendo um poeta bastante popular, gostaria de saber se vê esta época como especialmente desafiadora para o poeta?
O tipo de poesia de que eu gosto e que escrevo está do lado da contemplação e não, seguramente, do lado da acção. É mais uma sensibilidade um tanto passiva, que prefere meditar. Mas com isto não estou a querer convencer ninguém a juntar-se a mim. Sinto-me bem mais confortável a falar sobre a natureza contemplativa da minha poesia do que a formular juízos sociais sobre a importância de se alcançar a paz interior ou sobre a agitação hoje no campo político ou algo do género. Tenho alguma dificuldade em sacar de um tambor e pôr-me a dar o ritmo de marcha para seja o que for. E isto inclui também a poesia.

Mas não recusa falar do seu trabalho.
Se chego a ensinar alguma coisa é sem querer, e através do exemplo que possa dar. Se alguém sai de um poema meu a achar que está ali uma maneira interessante de pensar ou não pensar sobre isto ou aquilo, óptimo. Mas a motivação do poema não é convencer ninguém de nada. Se calhar está a querer que eu fale sobre isto de se escrever poesia quando tão poucos a lêem…

Sim.
Bom, sempre haverá uns quantos leitores. Na verdade, o que me surpreende mais é que ainda haja uns quantos leitores de poesia quando a competição hoje pela atenção das pessoas é tão forte. Creio que a própria lentidão da poesia chega a ser o que atrai leitores num tempo em que a aceleração reina em todos os campos.

Mas de alguma forma, se públicos tão diferentes parecem reagir à sua poesia, isso diz-nos que conseguiu descobrir aquela nota de simplicidade que não deixa de desferir um golpe na sensibilidade do leitor. 
Bem, não era esse o plano [risos]. Não foi uma meta que me coloquei. É verdade – e é difícil dizer isto e ao mesmo tempo soar modesto – que muitos dos meus leitores foram recuperados, e isto depois do ângulo abstruso sobre o qual foram forçados a ler poesia na escola. Diria que, em parte, esta reacção vem dos ingredientes que compõem os poemas, ou o tom deles. O facto é que a maioria das pessoas não voltaram a ler poesia depois dos tempos de escola. Talvez os meus poemas sejam bons para fazer baixar a guarda, ajudando a que se vença uma certa ansiedade que a poesia como género provoca. Essa ansiedade ou receio que os estudantes sentem não é pela forma como ela se põe a cantar ou como soa, nem pelos atributos que buscam tornar-se prazerosos; receiam-na por sentirem que não sabem a resposta certa para um problema. Foi o modo de ensinar a poesia que a traiu, a ênfase excessiva na ideia de que o poema espera que o leitor o explique, extraia o seu significado.

E a sua poesia…?
É bom ter um livro que vende muitos exemplares. É bom alcançar uma audiência vasta. Mas acho que não ajuda muito, e até dá azar, pôr-se a pensar como é que se conseguiu fazê-lo.

Há algo de amigável no tom dos seus poemas. É como se pudéssemos ler um sem que quem nos ouve seja posto de sobreaviso, sem que isso se torne constrangedor… Muita da poesia que se escreve, lida numa circunstância banal causa uma vertigem indigesta, ou por ser demasiado eloquente ou desajustada, algo teatral ou descabida. Já a sua poesia chega de mansinho, enleia, sem que as pessoas se dêem conta de que estão a ouvir um poema. E quando fica claro que acabaram de ouvir um poema, é já tarde demais. Já foram agarradas.
[Risos] É uma excelente forma de pôr as coisas. Como diz, em muita poesia, assim que lemos os primeiros versos, e sobretudo se não estamos habituados a lê-la, fica-se com a sensação de que já algo de decisivo se passou antes de ali chegarmos. Parece que precisamos que alguém nos informe sobre o que ficou para trás porque, de outro modo, não vamos perceber o que se está a desenrolar. Às vezes parece até que nos faltam certas experiências e noções para conseguirmos ficar a par do poema. Mas nos meus poemas ainda nada se passou. Não têm um passado, não presumo que o leitor já tenha lido isto ou aquilo.

É propositado?
Muitos dos meus poemas começam com algo tão simples como: “estou aqui sentado, a uma quinta-feira, e o gato está ali num romance com a carpete…” É um pouco difícil reagir a uma frase como esta dizendo que é treta, tomar uma informação simples como esta e achar que é conversa de alguém que está a tentar dar-nos a volta. No momento em que nos dizem uma coisa destas, já estamos a ver o quadro compor-se, e é tarde para não ficar minimamente intrigado, questionando-se sobre o que virá a seguir. 

O leitor não sente que possa vir dali uma grande dor de cabeça…
É. Não há necessidade de abrir o chapéu-de-chuva para esse modo de precipitação lírica que logo nos deixa ensopados. Desde logo porque nem nos parece que estejamos diante de um poema. Não é o tipo de coisa que estamos habituados a ouvir de um poema, como um piropo que se torna ameaçador em certas zonas da cidade, quando está escuro. É simplesmente alguém que puxa conversa e não te vem pedir nada, não tem exigências de espécie nenhuma. Uma das coisas que torna a poesia tão impopular é, como disse, o ser algo que nos acossa, que está tão longe da experiência que retiramos do nosso quotidiano. Bastam os primeiros versos e quase gelamos. Uma coisa que se planta no nosso caminho e vem  com algo de massacrante, em vez de se esgueirar e conseguir impor-se naturalmente. Acho que muita poesia cai na categoria dessas coisas presunçosas, e julgo que muita falha (ou não me interessa como leitor) porque parte do princípio de que eu sei isto ou aquilo. Como uma piada demasiado privada, ou como se o poema começasse já com uma grande vantagem e me fosse impossível alcançá-lo. E em muitos casos começa logo por presumir que eu tenho já algum interesse naquele que me está a falar, na sua pessoa, na sua forma de pensar, na sua vida emocional, no ângulo a partir do qual encara a vida. Ora, não estou nada interessado naquela pessoa. E não penso que nenhum verdadeiro leitor de poesia está na predisposição de conhecer a vida interior de alguém através desse tipo de confissões que se fazem passar por poesia. 

Há uma dificuldade ainda na fronteira entre confessionalismo e poesia?
Quando dou seminários começo sempre pela indiferença do leitor. O leitor não se interessa pela vida de um estranho. Na verdade, nem pode viver com esse peso. Por isso, o interesse tem de ser uma conquista. Assim, o começo de um poema, por mais inocente que pareça, esses primeiros versos em que damos por um tipo diante de um janela, com uma tarde chuvosa a causar estragos lá fora, isso já é, em si, uma técnica de sedução. É como um objecto brilhante e que serve para dirigir por um momento a atenção do leitor. Também é como entrar numa divisão deixando a porta aberta...

Mas é uma questão de facilitar, tornar a poesia mais acessível?
Já estou um bocado farto da palavra “acessível”, que oiço muito a propósito dos meus poemas. Mas a verdade é que esta expressão pressupõe, correctamente, que há por aí muita poesia inacessível. Ora, aqui, o que indica é que no início do poema há uma porta aberta, ou nem há uma porta. O título não é já de si um quebra-cabeças, é apenas um daqueles tapetes à entrada, a dar as boas-vindas. E o primeiro movimento do poema não faz mais que estender um convite e atrair o leitor. Há uma simplicidade, algo de amigável. Mas espero que, mais à frente, as coisas se tornem mais interessantes. Não quero pôr-me ali sorumbaticamente a dizer que estou parado a olhar para uma árvore e que, momentos depois, continuo a olhar para a mesma árvore. 

Entende isto como uma estratégia poética ou como uma táctica ajustada a este tempo?
O que acho é que se começas de forma simples isso obriga-te a ir além disso, não podes ficar na mesma. Uso-o como uma rampa de lançamento para algo bem mais intrigante, para uma abertura do foco da lente. O leitor entra, a porta fecha-se, e agora tem-lo lá dentro e podes então abrir o estojo e mostrar-lhe todo o tipo de metáforas afiadas e hipérboles, pontos de fuga surrealistas, efeitos para estender o imaginário, todas essas esferas podem então cruzar-se, e até podes levar as coisas ao ponto de deixar o leitor desorientado. A desorientação, se for doseada, torna-se um prazer literário... Vemos isto na poesia do Fernando Pessoa, na de Yannis Ritsos, mas também na de Emily Dickinson.

É algo de premeditado?
Às tantas sais do autocarro e nada te parece familiar, dás por ti a perguntar onde raio te meteste. Não se trata de levar o leitor a um sítio, mas de o abandonar nalgum lado. Mas não podes desorientar o leitor a não ser que primeiro ele se sinta orientado. Para que lhe falte, de súbito, um degrau, todos os degraus, antes ele tinha de ter encontrado um ritmo ao descer ou subir as escadas. Se pensas que estavas entregue a uma familiar cena doméstica, com um gato no regaço e a chuva do outro lado da janela, não bocejes já, alguma merda há-de acontecer [risos]... E isso irá exigir um pouco mais das tuas faculdades, talvez a tua perspicácia ainda seja obrigada a esticar as pernas, e a correr um pouco mais depressa.

Começou a publicar tarde...
Sim, bastante tarde. O primeiro livro que publiquei foi já depois dos 40. 

Acha que isso tem alguma coisa a ver com esta calma confiança que sentimos nos seus poemas? Nunca ficamos com a sensação de que o poeta pretende arrebatar-nos desde logo, impor a sua dilacerante persuasão...
A sua pergunta é um pouco mais interessante do que isto, mas a explicação para eu ter começado a publicar tarde prende-se com o ter andado à deriva durante anos, a escrever maus poemas... Escrevia poesia que se excedia na imitação, soçobrava diante das influências.

E tinha consciência de que era isso o que estava a fazer?
Só sabia que queria escrever poesia e estava à procura de maneiras de o fazer. Punha-me a ler os poetas da geração beat ou da escola de Nova Iorque e tentava imitá-los, mas não era esperto o suficiente para o dissimular... Limitava-me a escrever umas pobres imitações, nalguns casos pareciam caricaturas. Foi por volta dos 35 ou 36 que descobri esta forma de escrever, esse tom de que estava a falar, e de que ainda me sirvo. Um tom casual mas, como notou, confiante.

O que é que se aclarou para si?
Tive a noção de que não precisava de assoberbar o leitor, podia falar de algo como estar diante de uma janela num dia chuvoso, e isso podia ser o suficiente para pôr as coisas em movimento. É um bom ponto de partida. A confiança pode ter vindo do facto de eu ter feito o doutoramento em literatura inglesa. Imediatamente depois estava a dar aulas na universidade. Não estava a dar escrita criativa, ainda não era o poeta, era apenas o professor de literatura. A cada semestre ensinava Coleridge, Wordsworth, Emily Dickinson, Thomas Hardy, Shakespeare... Isso deu-me confiança e conhecimento. Tinha de ler poetas duros de roer, como Hart Crane e Wallace Stevens. Convivendo e algumas vezes conhecendo de cor o que escreveram estes poetas, dei-me conta de que não queria ir tão longe, não precisava chegar a esse nível (não que me fosse possível se me empenhasse)... De qualquer modo, não é muito difícil escrever poesia hermética, sobretudo se não estás tão interessado naquilo que dizem os teus poemas. Basta juntar palavras para causar sensação.

Lembra-se do que andava a escrever quando sentiu que tinha um grande peixe do outro lado do fio?
Podia ter sido uma combinação das tantas influências onde fui beber, mas acho que passou mais pela rejeição de muitas vozes, sobretudo vozes do período cimeiro do modernismo, como Eliot, Pound, todo esse extravagante clã. Cada vez mais me inclinava para poetas como Ron Padgett, Richard Brautigan, William Matthews e uma série de outros poetas de quem se poderia dizer que usam uma linguagem não muito diferente da própria fala. Eram capazes de trabalhar humoradamente, e com altas doses de ironia, os seus versos... sendo que as coisas nem sempre são o que parecem. Mas falavam de forma clara, sem disporem perante o leitor um zoo do vocabulário, com espécies exóticas dessas cujo significado temos de ir consultar. Era um vocabulário bastante despojado. E isso mostrou-me como uma poeta como Szymborska podia servir-se das palavras mais simples sem deixar de se lançar em saltos e acrobacias espantosas do ponto de vista do imaginário, trabalhando com variações subtis na escala cromática, surpreendendo com torções inesperadas.

Foram outros poetas que lhe mostraram o seu lugar?
Acho que isso me ensinou a valorizar um tom desassombrado, até caloroso, e que, no fundo, cria uma certa confiança no leitor. E combino isso com a intenção de, mais à frente, me revelar, afinal, alguém que não é assim tão confiável, um narrador errático, o motorista que se desvia do percurso e é capaz de deixar o leitor no banco de trás a sentir-se bastante nervoso à medida que a coisa avança. Há esse modo gentil e hospitaleiro no início que depois abre margem para alguma vigarice, para baralhar as expectativas quando nos abeiramos do fim do poema. Mas quando tinha 35 ou 36 anos senti que tinha descoberto qualquer coisa...

Isso mudou a forma como escrevia?
Não sei se conhece o poema do Seamus Heaney, “Digging”. Um poema bastante famoso em que ele dá com o pai a cavar, e depois com o avô a cortar turfa, até se dar conta de que a caneta entre o indicador e o polegar é a sua pá. Ele dizia que depois de ter escrito o poema, ao lê-lo, se deu conta que ninguém senão ele o poderia ter escrito, e que antes nenhum outro poema lhe provocara essa sensação. No meu caso, não houve um poema, nenhum momento de epifania, mas andava a escrever uma sequência de poemas que me pareciam ser verdadeiramente meus. Desde que descobri esse tom, não tenho mudado grande coisa, e se for ler os meus primeiros livros, a voz soa ao mesmo quando comparado com os poemas mais recentes.

Já deixou de ser professor, e hoje o que mais o ocupa são as leituras que faz, viajando por todo o país. O que aprendeu nesse contacto com os leitores ou quando dava aulas sobre os equívocos e os maus tratos a que a poesia é sujeita como matéria curricular?
Além daquele avanço que já falámos do poeta sobre o leitor, há uma tendência irritante da poesia para se autoengrandecer... Mas qual foi mesmo a pergunta?

Queria saber o que aprendeu nas aulas sobre as expectativas à volta da poesia?
Uma vez uma amiga e colega na universidade onde eu dava aulas apresentou-me numa leitura que eu fiz lá quando ainda só tinha um livro publicado. Ela disse que quando primeiro me conheceu eu era um professor que por acaso também escrevia poesia, e agora era um poeta que por acaso também dava aulas. Fiquei surpreendido com isto: ela resumiu-o na perfeição. Porque foi o movimento que se deu na minha vida. E quando, mais tarde, comecei a dar seminários sobre poesia, quando já era mais conhecido como poeta do que como professor, aquilo de que me dei conta é que há uma grande diferença entre a forma como se ensina poesia e como esta se escreve.

Teve o seu momento estilo “Dead Poet’s Society” [”O Clube dos Poetas Mortos”]?
Quando a disparidade se tornou absurda foi quando pela primeira vez deparei com um poema meu num daqueles manuais escolares de literatura, um dos mais populares nos EUA... e é claro que, depois do poema, havia uma série de tópicos de análise, perguntas para os estudantes. Ora, não só eu não me sentia capaz de dar a resposta, achei que, mesmo que soubesses responder, isso não indicaria que entendeste o poema. Tem havido uma série de respostas à pergunta o que significa o poema, e uma veio de John Ciardi, que escreveu um livro na década de 60, se a memória não me trai, com o título: “How does a poem mean?” [Como é que o poema se exprime?]... Não o quê mas como. Tentei trazer a prática de escrever o poema para as aulas de literatura.

E como é que o pôs em prática?
Apercebi-me de que o melhor ângulo para se abordar a poesia é, ao invés de tentar explicá-la, pôr-se no lugar de quem a escreve. Tentava que os estudantes se questionassem sobre como é que o poema se porta no esforço de encontrar um caminho para chegar ao fim. Como é que progride? Quando um estudante depara com um poema de Thomas Hardy, por exemplo, numa antologia, o mais certo é que encare aqueles versos como se houvessem surgido já gravados na pedra, como um artefacto solidificado. Mas tentei que imaginassem o processo de Hardy a escrevê-lo, ou Keats, ou quem quer que fosse. Assim, começávamos com os primeiros versos da “Ode a um rouxinol”, imaginávamos como era o processo de Keats após ter escrito os primeiros três versos, questionando-se sobre o que deverá seguir-se.

E a pergunta era?
O que é que escrevo a seguir? Se te colocares nessa posição, podes começar a entender o poema como uma série de passos numa lenta progressão e não como um assalto incrível. Uma série de manobras, de voltas e reviravoltas. Estava a tentar que vissem a coisa do mesmo modo como os embarcadiços usam as correntes e seguem de um ponto para outro, até chegarem ao destino. Estão dependentes dos elementos, usam-nos a seu favor. E pareceu-me que essa seria uma perspectiva mais incitante, tentar forçar uma abertura ao invés de nos determos diante de um poema e perguntar o que quer dizer... E aquele símbolo, o que significa? Isso são questões intimidantes à partida. Mais vale tentar perceber como a coisa se desdobra, como de um passo, muitas vezes tacteando, se firma o seguinte.

Então o que responde se lhe perguntam pelo significado do poema?
É sobre chegar ao fim. Kafka disse que o sentido da vida é que ela acaba. Assim, quando se diz que o poeta escreve sobre o amor, a justiça, a morte... Na verdade o que o poeta quer é chegar ao fim. Está à procura dele. Assim, ver o poema a progredir a sensação que dá é que está a farejar o seu próprio túmulo. E um bom final é quando nem eu quero dizer mais nada nem tu queres ouvir mais nada. Nesse ponto, chegámos a um acordo. Foi assim que tentei reformar o processo como dava aulas de poesia, de literatura, tentando que os estudantes se colocassem diante desse risco, esse desafio existencial de tentar compor algo.

Leonard Cohen podia passar anos a rever um poema. E foi ao ponto de dizer que nenhum poema está realmente terminado, mas que estes simplesmente são abandonados. Mas para si, quando escreve, não só busca um final, como normalmente não deixa que o processo da escrita se arraste por mais do que uns 40 minutos.
Se pode haver pontos de contacto entre quase todos os poetas, onde eu e o Leonard Cohen não temos absolutamente nada em comum – e isso leva-me a rejeitar qualquer aproximação–, é que eu não procuro transmitir nenhuma emoção pessoal, não estou minimamente interessado nessas grandes manifestações de paixão ou melancolia. Essa forma de romantismo de teor sexual não desempenha nem um papel secundário nas coisas que escrevo.

Mas a comparação deve-se mais por serem dois poetas populares muito para lá do interesse pela poesia, no caso dele por causa da música, e no seu pela capacidade de chegar a numerosas audiências lendo-lhes os seus poemas.
A razão por que, quando leio os meus poemas a uma audiência, se consigo que não soem monótonos, ainda que os escreva e os diga com uma voz algo monótona, e não entro na dramatização dos meus poemas, mas porque a sensação que fica é de que vem aí qualquer coisa, fica-se com a sensação de que o poema tem alguma fisgada, e, por isso, a atenção fica presa, queres saber o que se segue. Há um efeito de suspense que estes poemas partilham com a mais tradicional das ficções, essas que, logo na primeira cena, no primeiro parágrafo, cria uma tensão quanto ao que virá por aí. Um poema pode ser uma máquina de engendrar suspeitas, de gerar tensão e surpreender. Não são precisas muitas linhas para gerar esse efeito.

E quanto à revisão dos poemas?
Faço a revisão à medida que vou avançando. Vou limpando, como um cozinheiro que limpa a bancada depois de cada etapa, ao invés de deixar tudo para o fim. Escrevo um verso e depois o outro. Se espreitasse o interior da minha cabeça nesses momentos, verias que estou a tentar que a um verso firme suceda outro, alguém que tenta que cada frase tenha a sua força, e que volta atrás, por vezes, para corrigir algo que lhe parece menos seguro, mas sinto que estou a ler o poema à medida que o escrevo, e quando digo que escrevo de uma assentada, estou a ser sincero. É o que costuma acontecer. Diria que 90% das vezes é assim. William Matthews disse que a revisão não é limpar as coisas depois da festa mas que a revisão é a festa, que aí é que está o verdadeiro gozo. Ora, eu não vejo a escrita e a revisão como dois actos separados. Diria que a maioria dos meus poemas nascem de uma primeira noção mais conceptual e, depois, alguma memória entronca e abala-o, levando-o noutra direcção. Começo com o tipo que olha pela janela e se põe a falar da chuva, mas depois há algo que o arranca dali, e esse movimento que leva a que acaba a falar do Espaço sideral, ou seja o que for, esse sacão está lá sempre no esboço que me surge logo à primeira. Se isso não acontece, se fico a meio do poema e não sinto que consiga ir a lado nenhum depois disso, se o poema não colabora, e não consigo forçá-lo a ir mais longe, então deito-o fora. Não guardo para tentar mais tarde. O poema tem de colaborar minimamente, ou dar sinal de que tem algum destino em mente. Se não desenvolve um interesse por si mesmo, se ele não quer saber onde vai então também eu perco o interesse. E é isso o que escrevo de uma assentada: o princípio, o meio e o fim. A partir daí ando ali de volta, a trabalhar para não deixar nada pendurado, a dar-lhe a forma certa, trabalhar para que a cadência seja a melhor... É mais um trabalho de afinação do que ir lá alterar-lhe o sentido. Por exemplo, na revisão nunca dou por mim a mudar uma estrofe de lugar, nunca é uma reconstrução. O gozo maior que tiro é ver a coisa despontar e descobrir onde vai, ser-se surpreendido pelo próprio processo.

Procurando um elo entre si e um poeta como Leonard Cohen, o poeta que me vem à cabeça é Frank O’Hara, alguém que é capaz de escrever um poema a partir de observações bastante subtis, sublimar ninharias, mas é, ao mesmo tempo, um poeta que se revela, que lida com a paixão, o amor carnal, e nos surge às vezes em crises tempestuosas, ameaçando o colapso. Mas o Billy rejeita este lado na sua poesia, porquê?
Aceito, com a maior gratidão, qualquer comparação com Frank O’Hara, que foi um dos meus mestres e um dos responsáveis por desbravar e abrir o caminho... Antes dele não se sabia que era possível falar de coisas tão triviais e fazer um poema com isso. Aqueles poemas que não passam de descrições de um quotidiano aparentemente banal foi o que também eu fiz. Não é que eu seja exactamente como ele, mas a minha vida é essa. Não se passa nada de extraordinário. E ninguém se tinha dado conta de que era possível manter as coisas nesse ponto, encontrar um ritmo e uma sedução sem entrar em questões mais elevadas. Nos poemas, eu tenho uma persona, e há uma distância entre esta e quem eu sou. Não se trata de uma separação tão bizantina ou tão extrema a nível psicológico como ocorre entre Pessoa e os seus heterónimos, mas essa distância e essa divisão ocorre de forma útil, mais tradicional com esta persona a que recorre. Penso nessa persona como algo de separado. Sou filho único e na minha infância rodeei-me de amigos imaginários. Passei por tudo isso que são as experiências normais de miúdos solitários e julgo que isso teve uma influência na minha poesia. Esta persona é, de certo modo, o amigo imaginário que cresceu comigo. Mas esta persona não tem um passado, e aí está uma grande diferença. Não tem uma memória porque não tem nada de que se lembrar. Ele não existe no espaço ou no tempo, não existe senão na duração dos poemas. Não é um poeta arquivista, que acede a uma série de pastas com recordações e experiências. Não nos está a contar o que lhe aconteceu nem como foi crescer. Não há um sentido sequer das suas angústias, do que sofreu com isto ou aquilo. Não há nos meus poemas nada sobre um trauma qualquer. Esta figura é tão poética que se libertou que não está amarrado a certos núcleos de vivencias dolorosas, não ancora. Não te vai contar da experiência de ter sido abandonado pelo pai quando era miúdo, nem que a mãe era alcoólica... Não lida com a experiência como transtorno. Ele surge na página, livre de bagagem autobiográfica, e isso leva-nos de volta à razão por que as pessoas conseguem entrar nestes poemas sem dificuldade. Não lhes peço que se interessem por outra pessoa. Acho que esta é a minha resposta. É verdade que tenho um poema sobre alguém que é filho único, e às vezes lá surge algum poema que se faz valer de algumas das minhas experiências, mas não estou a enxertá-los da verdadeira substância moral e emocional das coisas que vivi. Prefiro que isso fique fora dos poemas. Não quero sobrecarregar o leitor com as minhas coisas. Por isso é que acho que há esse lado mais leve na minha poesia. A experiência que me interessa é aquele que se está a desenrolar ali mesmo. Essa tarde chuvosa não remete para a lembrança de uma outra em que alguém o interrompeu para lhe dizer que o irmão morreu num desastre ou coisa que o valha. É um poeta que cria as suas experiências diante do leitor.

Há coisa de um ano morreu Mary Oliver, poeta que muitas vezes era emparelhada consigo, não por serem muito próximos ou por haver uma grande afinidade estética...
Sim, éramos os poetas que mais vendiam na América. 

Na poesia dela conseguia perceber-se, ligando ao pouco que ela falou das experiências traumáticas na sua infância, que havia uma leveza, um encontro com a natureza na poesia dela que resultava como uma forma de exorcizar os aspectos mais dolorosos da sua vida, de se regenerar. Não tendo vivido experiências traumáticas na infância, acredita que a sua poesia é a transposição para a vida adulta dessa margem que lhe permitiu lidar com o tédio e a solidão quando era miúdo?
Acho que, se quisesse, podia pôr outra lente sobre as coisas. Podia falar nos poemas sobre os aspectos mais lixados na minha vida. A certa altura divorciei-me... Nunca falei sobre isso nos poemas. Até tenho um poema com o título “Divórcio”, mas trata-se mais de uma brincadeira inteligente do que de algo mais pessoal... Mas sim, tens razão. O facto de os meus pais terem vivido até aos 90, terem ficado juntos, terem-se sempre tratado bem, o facto de sermos uma família de classe média alta, de ter tido a sorte até com o sítio onde nasci e cresci, tudo isso acaba por ser decisivo na pessoa que acabamos por nos tornar. Acho que toda a sorte que tive congeminou essa luz que entra pelos meus poemas.

O que não quer dizer que escorrace as sombras...
Não sinto que esteja a reprimir emoções de qualquer espécie. É claro que vivi coisas dolorosas, como acontece a qualquer pessoa, mas não me interessa entrar por aí quando me sento a escrever. Sou um tipo bastante feliz. Como disse no início, esta manhã, ao andar por aí, senti uma felicidade que não sentia há meses. Dormi imenso, e dei por mim pela primeira vez em Portugal, com esta luz, esta temperatura.

A situação política actual do seu país é algo que lhe merece comentário, ou prefere não ir por aí?
Bom, é demais... O meu país está a viver um período de insanidade. Temos um pirralho narcisista na Casa Branca, que não lê, não tem conselheiros... à excepção da própria família. E isto quando tem de lidar com questões geopolíticas muito sensíveis. O nacionalismo que ele defende é o da pior espécie, pois trata-se de um nacionalismo sem patriotismo. Não é que ele tenha uma grande paixão pela América, ele tem é uma grande desconfiança em relação a todas as outras populações, e, particularmente, aquelas de tez mais escura. É uma situação terrível e que irá degradar-se ainda mais se ele conseguir a reeleição.

Um dos motivos da atracção de Trump junto de grande parte do eleitorado é a forma como retira todas as nuances da linguagem e, em consequência, do pensamento. Como é para si ver este personagem trucidar o discurso desta maneira?
O que ele faz é rebaixar e abandalhar o discurso. Trata-se de uma retórica estupidamente banal. A repetição é o seu método para estimular as multidões. A partir do momento em que ele percebe qual é a frase que faz ferver o sangue das multidões, ele repete-a até à exaustão, fingindo dar a voz ao povo, aos trabalhadores, quando ele se está nas tintas para os trabalhadores. De resto, Trump é a ideia que um pobre faz do que é um rico. Ele não é verdadeiramente abastado, porque a sua riqueza se expressa através da vulgaridade. Mas não me parece que ele tenha inventado alguma coisa. É apenas uma degradação da linguagem política que já se usava. Ele simplesmente usa-a de forma desavergonhada: as falsidades, os preconceitos, as ideias-feitas.

Não vê nele nada de novo, só o exagero dos aspectos mais grosseiros do passado?
Sim. Não há nada de fresco ali, apenas muito mais do mesmo. E isto porque o que se pretende não é surpreender a audiência com algo de inusitado, a linguagem não serve para alterar a percepção, pelo contrário, serve de conforto, para acomodar as noções que já se trazem através da repetição. Ele recorre ao slogan, a sua disciplina é o sloganismo. São aquelas frases de que a multidão se pode servir para entoar em forma de cântico o seu desespero e ódio. É o tambor que organiza o barulho da multidão. 

Sei que não se vê como um poeta com uma mensagem primeiramente política, mas não acha que face a este clima a poesia torna-se necessariamente uma forma de resgate da linguagem?
Bem, Diogo, se toda a gente lesse poesia, então eu estaria disposto a dar uma resposta a essa pergunta… A verdade é que nem estou assim tão empenhado em ver toda a gente a ler poesia. Não me inquieta que a maioria das pessoas não se interessem por poesia. Só tenho pena que se perca um prazer fenomenal, mas não posso fazer nada em relação a isso. Quando as pessoas vêm para cima dos poetas falar-lhes sobre a importância política daquilo que escrevem, isso leva-me sempre de volta à mesma noção: se houvesse milhões de pessoas a lerem poesia, talvez então os poetas tivessem algum tipo de influência, e faria sentido que se preocupassem com as consequências sociais daquilo que escrevem. Mas só um grupo bastante restrito de pessoas lêem poesia, e, portanto, tudo isso não é mais do que pregar ao coro. Não se sai de um pequeno círculo.

Mas não compete à poesia, e à arte em geral, construir não um destino mas esse horizonte que nos escapa mas também nos convoca?
Nos anos 90, Joseph Epstein escreveu um artigo sobre a poesia contemporânea norte-americana em que conclui: “Se tivesse de resumir, diria que a poesia contemporânea está a florescer num vácuo… Há muito mais poesia a ser escrita, muito mais concursos, distinções, publicações, bolsas de criação, incentivos, subsídios… mas ninguém mais está a ler poesia a não ser outros poetas”. E se há alguns poetas – a Mary Oliver é um caso, eu talvez seja outro –, que ajudam a expandir o círculo a uma audiência que não costuma ler poesia, essa expansão é minúscula, não tem qualquer impacto.

Sei que não se debate com este tipo de questões ao escrever os seus poemas, percebo que lhes dá folga, e os segue até certo ponto, como se tivessem vontade própria, mas preferiria, por hipótese, ser tido como um poeta que derruba obstáculos e abrange uma audiência mais vasta ou ser o cultor de um lindíssimo segredo?
Os dois [risos]. É bom que não fiquemos reduzidos a um círculo, mas não abro mão desse prazer fenomenal que só alguns alcançam. Não tenho problemas em ser essa droga leve que convida a um vício ulterior em drogas mais pesadas. Gosto de saber que as pessoas que não voltaram a pegar num livro de poemas, leiam os meus, se encantem e depois fiquem à mão para algumas sugestões: então, porque não experimentas estes poetas…? Por outro lado, assumo-me como um elitista nalguns aspectos. Acredito que quanto mais pequena é uma audiência mais intensa é. A minha poesia é suficientemente popular. Não gostaria que fosse nem mais nem menos do que é. Nestas alturas lembro-me do John Cage, quando lhe perguntaram: “Então e o problema do mal no mundo?” E ele: “Bem, parece-me que há mal suficiente para todos.”

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