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Roda dos expostos. Abandonar um filho sem que ninguém saiba

Roda dos expostos. Abandonar um filho sem que ninguém saiba

Joana Marques Alves 01/07/2019 20:19

Muitas crianças eram abandonadas nestas instituições – quem os recebia, desconhecia por completo a identidade dos pais. Alguns países estão a recuperar este sistema.

Manuela é filha de Maria José. Maria José é filha de Joaquina. Joaquina é filha de Maria. E aqui acaba a linhagem de uma família – é o mais longe que é possível recuar. Isto porque Maria foi uma das milhares de crianças portuguesas que viveram nas Casas da Roda espalhadas por Portugal, um sistema criado para acabar com um dos piores problemas do séc. xviii, mas que acabou por gerar outros tantos.

“O amor sacrílego dos conventos, a paixão miserável das ruas sujas, a vergonha sangrenta dos adultérios, toda a via dolorosa das desonradas – era ali que ia ter, àquela casa quadrada do Hospital de Todos os Santos, entre um painel da Virgem e um velho escano de castanho, uma corda de sineta e uma roda humilde de portaria”. Assim descrevia o médico Júlio Dantas, em O Amor em Portugal no século XVIII, as circunstâncias que acabavam por ditar que as crianças fossem deixadas nas chamadas Rodas dos Enjeitados ou Rodas dos Expostos.

Até ao final do séc. xv, as mulheres que passavam por este tipo de situações enfrentavam dois cenários: ficar com o recém-nascido e assumir o papel de mãe solteira – papel esse que era muito malvisto na altura – ou abandoná-lo no meio da rua, rezando para que uma boa alma o acolhesse. Havia ainda uma terceira hipótese, a mais extrema: matar o recém-nascido. Assim não teriam de lidar com o escárnio e maldizer dos vizinhos por a criança não ter progenitor e ser fruto de uma relação proibida, ou com a vida de miséria que iria enfrentar nas ruas.

Nessa altura, a proteção das crianças abandonadas era confiada aos concelhos, que tinham fundos próprios para lidar com estas situações. Mas o número de infanticídios aumentava de dia para dia e as comarcas começaram a ter dificuldades em lidar com a quantidade de casos que iam surgindo. A urgência em resolver o problema coincide com o aparecimento das irmandades da Misericórdia. Surge então um modelo de cooperação entre as câmaras e as Misericórdias, segundo o qual “as primeiras garantiam os necessários meios financeiros, sendo a parte logística da criação dos expostos assegurada pelas Santas Casas”, refere o estudo Os Expostos da Roda, publicado pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML).

A SCML foi pioneira na criação deste espaço. De acordo com a documentação existente, sabe-se que, em 1759, existia uma Casa da Roda no Beco da Betesga, em Lisboa. Era nesta zona que se localizava o Hospital de Todos os Santos. Seguindo as características conhecidas hoje em dia da Roda dos Expostos, seria um mecanismo com uma porta giratória embutida numa parede. Este dispositivo estava construído para que quem deixasse o bebé não fosse visto – o adulto colocava o recém-nascido naquela plataforma, rodava-a e o bebé ficava dentro do edifício. Nesse momento, o bebé ficava a cargo de uma rodeira, a mulher do outro lado da porta, que prestava os primeiros cuidados de higiene e alimentação à criança.

Posteriormente, os bebés eram entregues a amas externas, a maioria residente em zonas rurais, que eram pagas para darem continuidade aos cuidados prestados: “Esta não era a única atividade destas mulheres – a maior parte eram camponesas, mas esta era uma ocupação muito importante porque injetava dinheiro líquido nas zonas rurais. Acabava por ser uma forma de relacionar o campo com a cidade”, explicou ao i Isabel dos Guimarães Sá, historiadora e professora na Universidade do Minho.

Algumas destas crianças acabavam por crescer com as amas-de-leite, outras regressavam à Roda. “Havia também algumas que eram dadas a donos de fábricas. Na altura existia um juiz próprio que podia ditar a entrega destas crianças através de hasta pública”, acrescenta a investigadora.

Se a criança tivesse mais de sete anos e fosse do sexo masculino, “a ama, ou amo, tinha como missão orientar para o ensino de um ofício, bem como integrar o menor no mundo do trabalho. Tratando-se de menores do sexo feminino, as amas eram incumbidas de lhes ministrarem ensinamentos acerca de tarefas domésticas não recebendo, em caso algum, qualquer remuneração para o cumprimento destas atividades”, refere o documento publicado pela SCML.

Isabel dos Guimarães Sá dá alguns exemplos do que poderia acontecer às crianças: “Fazer cordas era um ofício fácil e, por isso, muitos cordoeiros iam buscar crianças para trabalhar. Outras eram colocadas a aprender ofícios mais sofisticados, como a carpintaria”.

O pior estava reservado para quem não conseguia integrar nenhum destes ofícios: “O juiz dos órfãos arrematava-os a quem mais desse por eles; e se havia algum enjeitado enfermiço ou débil que não tivesse lanço, animal de trabalho que ninguém quisesse, boca inútil que ficasse pesando no Cofre do Povo, a Roda enjeitava-o pela segunda vez, e lá ia, pobre Lázaro infantil, comer à cadeia do Tronco na gamela dos presos, ou lamber com os cães, na portaria de S. Bento da Saúde, o resto da sopa dos mendigos”, escreveu Júlio Dantas.

Eram raros os casos em que as crianças deixadas na Roda dos Enjeitados regressavam às suas famílias. Mas, pelo sim pelo não, as mães costumavam deixar pequenos sinais que ajudariam a identificar os seus filhos. A SCML chegou a expor as dezenas de milhares de objetos que eram deixados nos cestos dos bebés quando estes eram deixados à porta do estabelecimento. Desde papéis com pequenos textos, passando por medalhas e fitas de tecido, até cartas de jogar, há de tudo um pouco no acervo da Santa Casa. Acima de tudo, estes artefactos serviam para, em casos excecionais, um parente poder identificar a criança através da “apresentação de uma parte do objeto entregue com a criança, ou ainda reclamá-la através da exibição de um documento idêntico. A entrega processava-se depois de conferida a identidade dos progenitores e do exposto e, caso não fosse apresentado um atestado de pobreza, a Misericórdia recebia um reembolso relativo à criação do exposto”, explica a SCML.

Dados do jornal Mercúrio de Lisboa, publicados em janeiro de 1744, referem que, no ano antes, deram entrada no Hospital Real de Todos os Santos pela roda 1038 crianças. Destas, 778 acabaram por morrer. No Porto, dados publicados pela câmara constitucional, citados no texto de Júlio Dantas, mostram que, dos mais de 31 mil enjeitados que entraram na Casa da Roda, 20 975 perderam a vida. Ao i, Isabel dos Guimarães Sá diz que não é exagero falarmos em “várias centenas de milhares” de crianças deixadas nas Rodas entre o séc. xvii e a segunda metade do séc. xix. Estas instituições foram encerradas em 1870, “mas não desapareceram todas ao mesmo tempo. Até aos anos 30 do séc. xx foram sendo substituídas por outros sistemas” em que o anonimato dos pais já não era permitido, explica a historiadora.

Em 2012 foi noticiado que a cidade alemã de Erbach, no Hesse, tinha aberto uma nova Roda dos Expostos. Na mesma altura, o jornal Guardian noticiava que as Nações Unidas estavam “preocupadas” com o aumento de Rodas na Europa, existindo relatos de instituições não só na Alemanha, mas também na Áustria, Suíça, Polónia, República Checa e Letónia. “Desde 2000, mais de 400 crianças foram abandonadas em Casas da Roda”, escreveu o jornal britânico. Entretanto, em 2016, a Suíça anunciou a abertura de novas instituições deste género. Para Isabel dos Guimarães Sá, voltar a recorrer às Rodas não faz qualquer sentido: “Na altura não existiam preservativos, não havia a pílula. Fundar Rodas ou defendê-las é desresponsabilizar a paternidade. Tudo evoluiu no sentido da responsabilização”.

 

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