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Copa América. Nas mãos de Deus... ou nos pés errados

Copa América. Nas mãos de Deus... ou nos pés errados

Bruno Venâncio 01/07/2019 12:47

Três dos quatro jogos dos quartos-de-final terminaram sem golos (legais, pelo menos), com a Colômbia de Carlos Queiroz e o recordista Uruguai a dizer adeus.

A edição de 2019 da Copa América ainda não acabou – faltam as meias-finais e depois o jogo de todas as decisões (além do quiçá inútil de atribuição do terceiro e quarto lugares) –, mas já entrou na história do futebol de seleções. Não há registo de uns quartos-de-final com três dos quatro jogos a terminar sem golos nem tão pouco de apenas uma equipa, das oito em competição, conseguir picar o ponto.

Mas foi isso mesmo que aconteceu nesta eliminatória da maior competição de seleções da América do Sul – a única, refira-se, onde não havia lugar a prolongamento se os 90 minutos regulamentares terminarem empatados: o passo seguinte era o desempate por grandes penalidades. Nas meias-finais e na final, pelo contrário, o regulamento já prevê 30 minutos extra.

E o primeiro jogo deu logo o mote: numa reedição de um filme já visto em 2011 e 2015, Brasil e Paraguai não saíram do nulo e tiveram de encontrar o vencedor da eliminatória com recurso a grandes penalidades. Nesta versão, porém, o fim foi diferente: foram os canarinhos a festejar, vencendo o desempate por 4-3 e mantendo em aberto as aspirações do escrete em vencer a “sua” Copa América.

 

Nem um golo sofrido

Pior sorte teve a Colômbia, orientada por Carlos Queiroz. Isto, se a linha de pensamento adotada for aquela que considera os desempates por grandes penalidades como uma lotaria – precisamente o pensamento do antigo selecionador de Portugal: “Nos penáltis está mais na mão de Deus do que nos pés dos jogadores”. Outros vêem mais como uma questão de competência (ou falta dela), seja para quem bate, seja para quem tenta defender.

De uma maneira ou de outra, fica um sabor bastante amargo para o conjunto orientado pelo técnico português, que venceu os três jogos na fase de grupos (único a consegui-lo nesta edição) e saiu da prova sem sofrer um único golo em jogo corrido. Igual, só a Argentina... em 1924, numa altura em que o formato da prova era substancialmente diferentes: apenas uma fase de grupos com quatro participantes.

Depois de bater Argentina (2-0), Paraguai e Catar (duplo 1-0), a Colômbia deparou-se com o Chile, bicampeão em título e uma equipa que nos últimos anos se transformou num autêntico bicho-papão no que toca a desempates por penáltis. Foi dessa forma, de resto, que venceu as únicas duas Copas América da sua história, em 2015 e 2016, ambas frente à Argentina e após um 0-0 no final do tempo regulamentar – ou, já agora, que eliminou Portugal nas meias-finais da Taça das Confederações, em 2017. Desta feita, os chilenos foram implacáveis: converteram os cinco pontapés; do outro lado, o lateral-esquerdo Tesillo falhou o quinto penálti e viu fugir de forma irremediável o apuramento para as meias-finais.

 

Só argentina não tremeu

Curiosamente, a equipa que mais críticas recebeu durante a competição foi a única a vencer de forma “tranquila” nos quartos-de-final. A Argentina, que teve muitas dificuldades para se classificar num grupo com Colômbia, Paraguai e Catar – o que motivou, mais uma vez, críticas cerradas a Lionel Messi, que continua a não se conseguir exibir na seleção ao mesmo nível do que faz no Barcelona –, venceu a Venezuela por 2-0 e marcou assim encontro com o anfitrião Brasil.

Os canarinhos, é preciso referi-lo, também não têm tido a Copa América de sonho que porventura perspetivavam antes do início da competição. Tudo começou com a novela em torno de Neymar, primeiro sob acusação de violação por uma modelo brasileira e depois com a rotura de ligamentos sofrida num encontro de preparação que o afastou da prova. O Brasil ouviu assobios em três dos quatro jogos já disputados (frente à Bolívia, onde até venceu por 3-0, e depois nos nulos com Venezuela e Paraguai) e o selecionador Tite foi muito contestado pela aparente ausência de plano B – algo que já se tinha visto no último Mundial.

O escrete continua a ser, ainda assim, o maior favorito à vitória final de uma competição que não vence desde 2007: ocupa a primeira posição em todas as casas de apostas desde que o sorteio ficou definido. Curiosamente, as duas seleções que surgiam logo depois já caíram: a Colômbia de Queiroz, que ocupava um surpreendente terceiro lugar, e o Uruguai, recordista de títulos na competição (15, contra 14 da Argentina e oito do Brasil), e que foi também afastado no desempate por grandes penalidades frente ao Peru.

Nessa partida, saliente-se, não se pode dizer que não se tenham marcado golos. Houve três, todos uruguaios... e todos anulados com recurso ao VAR – dois dos quais, refira-se, por foras-de-jogo milimétricos e impossíveis de descortinar pelo olho humano. Com o 0-0 final surgiu o sempre emocionante desempate da marca de grandes penalidades, e mais uma vez apenas um jogador falhou – mas desta feita logo a abrir a série: Luis Suárez, que permitiu a defesa do guardião Gallese. Assim que Flores bateu com sucesso o último pontapé, o avançado do Barcelona caiu no relvado em lágrimas, sendo incapaz de disfarçar o desespero por ser o “culpado” da eliminação uruguaia.

Os peruanos marcaram assim encontro com o Chile, numa partida que se disputará na madrugada de quinta-feira, exatas 24 horas depois da primeira meia-final, a opor os eternos rivais Brasil e Argentina. Antes de se iniciarem os quartos-de-final, os argentinos tinham caído para o quinto lugar no favoritismo para vencer a prova, atrás dos já citados Brasil, Uruguai e Colômbia e também do Chile; para as meias-finais, Brasil e Chile reúnem claro favoritismo, com a Argentina a estar ainda menos cotada para vencer a partida frente ao escrete do que o Peru no embate com os chilenos. No futebol, porém, já se sabe que o favoritismo tem de ser confirmado dentro do campo – é essa, de resto, a essência de todos os desportos: venham então de lá as meias-finais!

 

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