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Caravaggio perdido foi comprado antes de ir a leilão

Caravaggio perdido foi comprado antes de ir a leilão

AFP Diogo Vaz Pinto 30/06/2019 10:33

Um Caravaggio perdido foi encontrado há cinco anos num sótão em França e iria a leilão por valor recorde, mas um colecionador antecipou-se e fez uma oferta irrecusável.

Nos últimos tempos, fala-se mais dele quando é preciso redigir à pressa uma lista dos génios com o espírito lascado, esses exemplos de grandessíssimos filhos da mãe, crápulas que nos obrigam, mesmo em épocas de histeria moralista, a suspender o juízo e rendermo-nos aos frutos da sua arte. Nos últimos anos da sua vida, acusado do homicídio do procurador Ranuccio Tomassoni num duelo, Caravaggio viu-se obrigado a fugir de Roma, vivendo entre Nápoles, Malta e a Sicília. Tinha um temperamento impossível, dado a fúrias épicas, e se amava a pintura, aquilo que nunca o abandonava era a sua espada. Agora, mais de 400 anos depois da sua morte, o mestre italiano continua a sacar inesperados trunfos já gozando no conforto de uma quase sagrada posteridade. Há cinco anos, foi descoberta no sótão de uma casa em Toulouse uma obra-prima perdida de Caravaggio, que desde então se viu envolvida numa disputa entre os especialistas que procuravam determinar se Judite e Holofernes se trata, de facto, de uma pintura autêntica ou de uma cópia. Havia-se perdido o rasto a esta pintura em 1617, sendo referida em cartas trocadas entre colecionadores, que falam de um Caravaggio retratando a cena bíblica da viúva judia Judite a decapitar o general assírio Holofernes depois de o ter seduzido. Acontece que, depois de algum debate, o consenso em volta da improvável descoberta começou a crescer, e a pintura que, entretanto ficou conhecida como o Caravaggio de Toulouse devia ter ido a leilão, com Eric Turquin, o especialista que a autenticou a estimar que o seu valor pudesse rondar os 150 milhões de euros. E isto, não apenas por ser uma obra capital da produção de Caravaggio, mas porque está em melhor estado de conservação do que a maior parte das suas pinturas. Acontece que, dois dias antes de ser leiloada em Toulouse, a pintura foi comprada por um colecionador não identificado. E o comprador não só fez questão de ficar no anonimato como, o acordo de confidencialidade que assinou com a leiloeira – a casa Marc Labarbe – impede também a divulgação do preço da transacção. Assim, um novo mistério paira sobre esta obra, sendo que os 150 milhões para o qual se apontara na altura em que o leilão foi agendado seria um recorde para um Caravaggio – até aqui, a pintura arrematada por um valor mais alto foi o Rapaz Descascando Fruta, obra datada entre 1592 e 1593, vendida num leilão na Sotheby’s, em Nova Iorque, por 145 mil dólares (129 mil euros) em 1998.

«Recebemos uma oferta que era impossível não comunicar aos proprietários da pintura. O facto de ela ter partido de um coleccionador ligado a um grande museu convenceu os vendedores a aceitá-la», disse Turquin à AFP. A venda só foi possível porque o Estado francês não ficou convencido sobre a autenticidade da atribuição de Judite e Holofernes a Caravaggio, e depois de ter classificado esta versão de Judite e Holofernes, logo em 2014, como «tesouro nacional» – o que impedia a saída da obra do país e lhe dava a preferência numa eventual venda –, deixou que caducasse a validade desta classificação no final do ano passado sem avançar para a compra. Assim, a família proprietária pediu um certificado a autorizar a exportação da obra.

Esta versão de Judite e Holofernes segue-se a uma outra pintada entre 1598 e 1599, e que está exposta no Palácio Barberini, em Roma. E se a polémica sobre a autenticidade desta segunda versão persiste isso deve-se sobretudo ao facto do Estado francês não se ter decidido pela aquisição. Alguns especialistas em Itália põem a hipótese de se tratar de uma cópia do artista flamengo Louis Finson (1580-1617), um dos mais ilustres discípulos de Caravaggio, alguém que trabalhou e absorveu a lição do chiaroscuro com o mestre. Mas Turquin não só os acusa de «falarem sobre uma obra que não viram», como lembra que, depois do processo de limpeza a que a descoberta foi submetida em janeiro passado, ao longo de três semanas, numa análise de raio-X foi possível perceber que «a pintura mudou muito enquanto ia sendo pintada, com muitos retoques». Para ele, isto faz cair por terra aquela tese, pois «quem copia não faz alterações daquelas, limita-se a copiar». E as circunstâncias em que a obra foi pintada, segundo Turquin, ainda a tornam mais valiosa, pois acontece pouco depois de ter escapado de Roma, anos antes de morrer na penúria e meio-louco, em 1610, aos 38 anos, numa pequena aldeia costeira – Porto Ercole. Diz Turquin que nesses dias, Caravaggio passara a pintar num outro ritmo e num estilo que refletia uma visão mais negra da vida. «De forma mais espontânea e surpreendente. Mudou o seu estilo, pintando de forma mais contida, utilizando um fundo negro sobre qual acrescentava pinceladas acentuadas».

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