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Gilles Lipovetsky. “A sedução passou do domínio do erótico para a economia e a política”

Gilles Lipovetsky. “A sedução passou do domínio do erótico para a economia e a política”

Mafalda Gomes Diogo Vaz Pinto 26/06/2019 14:35

No seu novo livro, Agradar e Tocar, Lipovetsky diz que a hipermodernidade, em vez de impor e coagir, recorre à sedução como função de uma mobilização infinita.

Na obra de Gilles Lipovetsky, bem como nas suas intervenções públicas, muitas vezes o filósofo parece atraiçoado pelo sociólogo. A apreensão ávida dos sinais e signos que cifram a contemporaneidade fizeram dele um intelectual frenético, e, nesse dinamismo constante em que vai propondo leituras de uma amplitude esmagadora, se algumas vezes parece tornar legível uma superfície de mar coberta de restos de naufrágio, uma ligeira variação no ângulo de observação permite, por vezes, perceber que essa superfície não passava de “uma tíbia piscina em que flutuam algumas garrafas de plástico” (a imagem é de Alfonso Berardinelli). Mas se este pensador francês tem cedido a uma certa facilidade na produção de juízos, o seu discurso é tão irregular quanto sinuoso, e redunda amiúde na mera opinião. Muitos dos conceitos que formula não parecem senão agudizar noções anteriores, lembrando a tendência para o rebranding no que toca aos agentes económicos ou, no plano cultural, para substituir certas expressões demasiada conotadas por outras mais assépticas ou apenas virgens. Por outro lado, Lipovetsky tem sabido colocar-se cedo na contramão quando o terreno ainda é muito instável, e tem dado luta a um pessimismo patológico no que toca à crítica do capitalismo e da sociedade do consumo, tendo ido ao ponto de afirmar numa recente entrevista ao jornal Público que o capitalismo “é que é a grande força revolucionária”, pela sua capacidade de resistir e se reinventar, renovando “constantemente o nosso quadro de vida”. Hoje, este pensador heterodoxo não se tem destacado tanto pela subtileza das suas interpretações mas antes pelo combate que opõe ao horizonte das nossas expectativas, atirando sobre ele o peso de uma convicção tacteante, testando-o para tentar que este se renda a uma compreensão teórica. O seu novo livro, Agradar e Tocar (Edições 70), saiu em 2017, em França, e prossegue a análise da economia consumista com o foco colocado nos mecanismos de sedução, estes que levaram a que estejamos cada vez mais submersos num terreno que, ao invés de subjugar, coagir ou reprimir, consegue atrair-nos, provocar tentação e desejo, num desarme em que a vítima chega a sentir prazer.

Quando vê a sedução tomar tanto peso nos comportamentos individuais, sente que isso resulta de uma interiorização da economia da atenção? Acha que os valores pessoais são secundários face à necessidade de chamar a atenção?

Sim, a sociedade da sedução tem por objetivo captar a atenção e, até mais que isso, captar a compra pelos consumidores. Mas o que a caracteriza é um certo número de mecanismos específicos. Antes de mais a mudança perpétua: é preciso lançar novos programas, novos produtos, e isto em contínuo, porque a novidade, como diz Freud, é um ingrediente terrível de prazer. Frequentemente o que nos excita é a novidade.

Já somos as vítimas de um quotidiano marcado por impulsos?

Quando lemos Don Juan, ele diz que o que o que interessa não é a mulher, mas a constante conquista, buscar sempre uma mulher diferente. E todos nos tornámos Don Juan, não pelo sexo (ainda que um pouco), mas pela insaciabilidade, a necessidade de fazer novas aquisições. É a novidade que hoje em dia funciona como sedução. Novidade e diversidade. Hoje em dia o que seduz é ter produtos personalizados, “à la carte” e não produtos massificados, standardizados. E o que também caracteriza o trabalho de design e estetização, porque a beleza, o charme, tudo isso vende. Hoje queremos tudo como decoração, ambiente; chamamos designers, arquitetos, cenógrafos às lojas para vender o turismo. Há um fenómeno de estetização absoluta da vida.

Onde é que isso lhe parece mais inescapável?

Hoje o centro comercial está em toda a parte. No aeroporto, desde logo, com lojas de luxo, com bares. Antes um aeroporto tinha uma função técnica, era para viajar; hoje essa dinâmica impõe-se por toda a parte, e há uma lógica de sedução que preside a tudo, com a economia criativa visando despertar sentimentos, emoções. É assim com a indústria da música, com a indústria do cinema, e até com a informação, no fenómeno conhecido como infotainment. Mesmo no design, hoje, procura-se um design sensível, afetivo. Tudo isso criou uma máquina enorme que faz do capitalismo um sistema de tentações permanentes.

Há algo de imoral nisto?

Antes pensávamos que era o diabo que nos tentava, ou as mulheres... Hoje o capitalismo é o grande sedutor. Don Juan é um pequeno sedutor de província em comparação com o capitalismo, que seduz o mundo inteiro a todo o momento, através da televisão, das revistas, da publicidade, das lojas, das montras. Tudo capta a atenção e também o desejo. Na economia da atenção está sempre presente a ideia do desejo - a atenção não é suficiente, é preciso vender. Podemos estar atentos e não comprar, por isso eu prefiro falar na economia do desejo. 

Estas noções não são novas. Qual lhe parece que seja a tese central do seu livro?

Hoje a sedução passou do domínio do erótico, do sexo, para a economia, para a educação e para a política; em tudo há que suscitar a atenção e o desejo. Esta é uma das teses mais novas do livro. Depois de Platão e depois do judeocristinaismo, a sedução foi assimilada como estratagema e tornou-se condenável. Para Platão a sedução é o mal, é o vício, porque visa enganar. Quis mostrar no livro que isso não é mais do que uma pequena parte da lógica da sedução. Quis propor um outro modelo antropológico, demonstrando que, mais fundamentalmente, a sedução não é um instrumento do desejo mas que cria o desejo. Sem sedução não há desejo. Então reverti o modelo, porque é quando somos seduzidos por qualquer coisa que sentimos necessidade de agir.

Que novos dados lhe parece que essa observação traz?

Julgo que é uma tese que tem de ser desenvolvida. A sedução é uma coisa que faz parte do que está vivo, porque um ser vivo é movido por duas lógicas fundamentais desde a sua nascença: atração e reprodução. Mesmo uma criança pequena nasce e sente atração. Assim, a lei da atração acompanha a vida. É porque há atração que há desejo e não o contrário. Não é quando temos desejo que vamos criar simulacros para atingir resultados. Essencialmente a sedução está lá para despertar desejo. Depois podemos dizer que não é bom para o planeta criar tanto desejo, o que quiserem, mas antes de chegar à posição crítica, temos de ter uma posição teórica, a qual tentei corrigir.

Na evolução do fenómeno da pornografia e da exposição a ela, se na sua geração, por exemplo, o despertar sexual se fazia a partir dos estímulos que estavam à sua volta, hoje há quase uma sobrecarga de estímulos, canais especializados de pornografia... A internet quase induz ao fetiche, a áreas mais granulares, mais específicas, ao ponto de gerar uma dependência, um cenário idílico inatingível, e aquilo a que chamamos perversões sexuais... Às tantas o simulacro torna-se mais sedutor do que a realidade. Vê o risco destes mecanismos de prazer individualista destruírem as pulsões humanas que o viravam para a sociedade?

Podemos dizer que a imagem nos desvia da realidade e que isso é perigoso, mas eu não tenho a certeza disso. É verdade que hoje há muitas pessoas com lidam com problemas de cariz sexual e que isso pode estar relacionado com o consumo de pornografia, mas será a pornografia que devemos culpar? Penso que o problema se coloca num aspeto bem mais global, porque o sexo já não é um tabu e o desejo é mais efémero. Se a pornografia na web é muito especializada, é preciso ter em atenção que podemos gostar de consumir nas imagens algo de muito específico e não no real. Uma coisa nada tem que ver com a outra.

Não vê o perigo de o desejo se ligar mais a conteúdos virtuais do que a estímulos reais?

O que consumimos nas imagens não é necessariamente o que queremos ter na realidade. Há mulheres que têm fantasias de violação, mas não querem ser violadas. A fantasia é uma outra coisa, que se coloca no domínio do imaginário. Eu sou favorável à pornografia. De resto, numerosos estudos demonstraram já que os países onde há maior consumo de pornografia é onde mais se respeitam as mulheres.

Mas vê algum correlação nisso?

Considere os países que proibiram a pornografia... a Arábia Saudita. Só recentemente as mulheres conseguiram ter direito a conduzir. Se oficialmente se proíbe a pornografia, por outro lado, elas têm que se cobrir com um véu. É preciso inverter as coisas, perceber que a pornografia não passa necessariamente pelo desrespeito das mulheres. A pornografia pode ser um escape, podemos encontrar aí uma compensação pelo que não temos na vida. Mas não parece que a pornografia funcione dentro da lógica da sedução. É uma lógica de vício, de fascinação... mas isso não nos seduz. 

Acha que há algo na forma de censurar hoje certas liberdades e que nasce de um desejo de controlar os sintomas e que nos leva a perder de vista as causas?

Temos a tendência de pensar que as pessoas não distinguem entre a imagem e a realidade. Que os jovens querem encontrar na realidade o que vêem na imagem. Isso existe, mas penso que é minoritário. As pessoas compreendem a diferença. Nas situações reais, a maioria das pessoas adapta-se; não podemos tomar as pessoas por idiotas. Em grande medida esse é um vício típico dos intelectuais: pensar que a maioria das pessoas e dos consumidores não percebem as escolhas que fazem, não vêem a diferença. Eu sou menos céptico.

E que diferença observa entre a sua geração e as mais novas?

Nos anos sessenta havia uma obsessão do sexo, o sexo era a libertação. Por isso era um tema central. Hoje em dia essa libertação foi já conquistada, e, por isso, o sexo é menos relevante. É preciso olhar os números, se não, se não temos chão, abandonamo-nos à retórica. As práticas sexuais nunca foram tão diversas para a maioria das pessoas. Quando pensamos nas práticas sexuais dos puritanos na América do Norte, sabemos que as relações sexuais dos casais deveriam prolongar-se por três minutos. Não tenho a certeza de que as mulheres tenham a nostalgia desses tempos... Não havia pornografia mas era a miséria sexual mais absoluta, porque os homens não achavam ser necessário dar prazer às mulheres com receio de que isso as levasse a procurar outras experiências fora de casa. Já os homens, para realizarem as suas fantasias, iam às prostitutas. Esse mundo já não existe. Hoje, um grande número de mulheres considera que tem uma vida sexual satisfatória. Não se deve ter uma visão sensacionalista das coisas. É preciso tomar distância e comparar o comparável; ter uma visão global, não tomar certos factos pelo todo quando não passam de fenómenos pontuais.

Tendo em conta como, hoje, as redes sociais já ditam as regras da convivência social, se ali há um imediatismo na sedução, não receia que sedução já não comporte uma certa dose de repulsa, da tensão entre repulsa e atração?

Isso é inegável. Penso que as redes sociais participam numa lógica, que se iniciou nos anos 60 e 70, e que é contrária às dinâmicas de sedução tradicionais. Havia momentos próprios para se buscar um parceiro, havia rituais aos quais era necessário obedecer. Era algo de muito preciso. Quanto mais recuamos, indo às sociedades neolíticas, paleolíticas, mais importante é o ritual, e a partir dos anos 50, 60 ocorre uma individualização: as pessoas encontram-se nos clubes noturnos, em diversos locais onde o importante não é o que se diz. Olham-se, flirtam, e não há o controle social que antes havia sobre a sedução. As redes sociais, o Tinder, e outras, sinalizam um corte total com a tradição.

Em que é que isso se traduz?

Tradicionalmente seduzíamos as pessoas que conhecíamos, pessoas que encontrávamos fisicamente; agora ensaiamos a sedução com pessoas antes ainda de as conhecermos. Isso dá origem a uma sensação de vertigem e é por isso que essas redes sociais são viciantes. Há uma lógica de dependência, porque podemos sempre pensar que há alguém ainda melhor que ainda não descobrimos. Em segundo lugar, este fenómeno é acompanhado não pela atenção mas pela decepção, porque há a imagem mas há também o momento tradicional do encontro físico e aí as expectativas raramente são correspondidas.

A boa velha sedução pode ter os dias contados?

Creio que na verdade a sedução no mundo digital perdeu os limites. Podemos passar o dia inteiro a agradar a todo o mundo e a experimentar cenários e discursos muito individualizados. O mundo digital é tão variado que é difícil encontrar uma regra simples. As pessoas conectam-se ao Facebook, mas o que vão procurar no Facebook? Será que substitui as relações reais? Creio que não. Encontramos no Facebook um tipo de satisfação, mas não toda a satisfação; é mais uma satisfação narcisista. Por exemplo faz-se uma boa fotografia e publica no Facebook. Para quê? Para ter um retorno, e que as pessoas digam que gostam. São pequenas coisas que dão prazer. Mas não creio que o virtual substitua o real. Isso é uma visão clássica das coisas.

Então, parecem-lhe complementares?

Creio que o uso do virtual suscita o desejo do real. Um bom exemplo é o turismo, as viagens. Até há umas décadas só os exploradores, os viajantes, os aventureiros viajavam. A maioria das pessoas viviam nas suas aldeias e não tinham qualquer expectativa de conhecer o mundo, não tinham sequer o desejo de o conhecer. Hoje em dia só uma minoria não ambiciona viajar, ver o mundo. E o Facebook contribui para isso. Ao vermos as imagens de todos esses sítios, isso contribui para o desejo de ir lá, e o que fica claro é que a imagem não substitui a coisa em si. Por isso o turismo não pára de crescer.

Mas o turismo não se caracteriza precisamente por essa busca das imagens, e não se desfiguram esses locais de interesse para acomodar as expectativas do turista?

Não me parece. Se fosse verdade que o digital substitui a realidade, as pessoas ficariam em casa. Por que vão as pessoas aos museus quando podem entrar na página virtual do museu para ver o museu? Há milhões de pessoas a visitar museus, a percorrer o mundo para ver as pirâmides astecas ou egípcias que se poderiam ver perfeitamente na internet. As pessoas querem ter a experiência do lugar; mais do que ver, querem sentir.

Então, o virtual é só uma outra manifestação do real...

Sim, e penso que a sedução do real, do autêntico, das coisas elas mesmas, é algo que cresceu. Quanto mais o virtual ganha força, mais atração desperta pelo real. Quanto ao sexo, mesmo que a obsessão sexual não seja a mesma que no passado, e mesmo considerando os abusos em termos da pornografia, encontramos nela algo de positivo, pois legitimou práticas sexuais mais diversas. Práticas sexuais que antes eram consideradas horríveis, moralmente condenáveis, hoje são praticadas por quase toda a gente - as pessoas têm uma vida sexual mais variada, mais rica. Penso que há um preconceito moral relativamente à imagem. 

Acha que o problema nasce da necessidade de aceitar ou condenar as coisas ainda antes de as compreendermos?

Há muitas coisas criticáveis no nosso mundo, isso é certo, mas devemos evitar os juízos de valor se for para cairmos na lógica de preto ou branco, certo ou errado. Por exemplo: diz-se que a internet dá cabo da vida social, que as pessoas apenas preferem manter relações virtuais, amigos virtuais, deixando de se encontrar, mas é o inverso que se passa. As pessoas saem cada vez mais, vão aos restaurantes, aos museus. Nos anos 50, nas classes populares, as pessoas passavam o tempo em casa, não havia dinheiro, não se via ninguém. Só existiam as relações familiares. Hoje, as pessoas saem, os jovens estão na rua, mesmo que constantemente agarrados aos smartphones.

Entre as pessoas que criaram o Facebook há agora um debate muito intenso sobre se este deve ser desmantelado, se as autoridades devem intervir e regular este novo poder... Acredita que estas ferramentas estão a transformar a nossa maneira de pensar e de nos relacionarmos e que é importante que o Estado tenha um papel mais ativo face a estas plataformas?

Há duas questões na sua pergunta: a primeira, muito importante, é se a internet transforma a nossa inteligência de uma certa maneira, se tem um impacto sobre a nossa forma de aprender e de ler... A resposta é sim. Podemos ver que as novas gerações têm dificuldade em ler os livros por completo. Estamos habituados a ter uma resposta rápida, através do Google, por exemplo. Hoje em dia a pessoa começa uma leitura e há um sem-número de hiperligações que a convocam, que disputam a sua atenção. Isso pode ser excessivo, pode tornar-se paralisante. É preciso saber parar, fixar-se numa coisa. Tem de se estabelecer o quanto antes uma relação entre a educação e a internet.

E até que ponto se pode integrar a utilização destas redes no ensino?

Não sou hostil à introdução do digital nas escolas, mas deve ser feito de forma muito controlada. Não podemos fazer das escolas uma continuação do Google. O risco é que tudo se torne fácil, rápido. A escola tem por vocação formar espíritos, mentes livres, mentes estruturadas, que é o mais difícil. Uma sociedade sem pensamento estruturado é o problema. É difícil ter um pensamento claro. Saber argumentar. Não são os instrumentos digitais, mas os exercícios conduzidos por um professor que ajuda os jovens a pensar de forma clara, a argumentar, isso é a escola que permite. Hoje há uma fascinação, por parte de alguns tecnófilos, face ao digital, que eu não partilho pelas razões antes referidas.

E que ligação vê entre o populismo contemporâneo e a internet?

Têm uma ligação muito próxima, e onde se observa melhor isso é nos EUA. Hoje em dia o cidadão consome no imediato, através da internet, e isso tem um papel na militância política. As pessoas saem da escola e olham para o seu tablet. Obama ganhou as eleições em parte graças à internet e Trump também, porque a sua forma de fazer política é uma política direta, feita através do Twitter. Ele chega diretamente às pessoas, sem passar pelas cadeias de televisão, sem mediação. Usando o Twitter, ele diz o que lhe apetece, coisas horríveis... é agressivo, machista, vulgar, mas é isso que atrai as pessoas. Não porque as pessoas sejam vulgares, mas porque isso lhes parece real. Numa sociedade em que já não se acredita nas ideologias, cremos na autenticidade, na sinceridade do homem político, mesmo se ele defende coisas terríveis. Ele ganhou por isso, porque a Clinton, em comparação, soava hipócrita. 

E que condições lhe parecem ter propiciado esta emergência dos populismos?

O sucesso do populismo no mundo depende de fenómenos profundos que não estão diretamente ligados à internet. Deve-se mais a uma sociedade desorientada em que as pessoas têm um grau de insegurança muito elevado. É por isso que são as classes baixas que normalmente votam nos movimentos populistas. No Brasil, Bolsonaro é um perfeito populista, alguém que assume a nostalgia da ditadura, apela à força policial, mas para compreender porque ganhou é preciso levar em conta que o Brasil é um dos países mais violentos do mundo. Entre as 20 cidades mais violentas do mundo sete estão no Brasil. Há quatro ou cinco vezes mais assassinatos no Brasil do que na Argentina, proporcionalmente à população. A taxa de violência é terrível.

E na Europa?

Um pouco por todo o mundo há hoje uma sensação de insegurança económica por força da globalização. Os populistas falam contra a globalização, falam a favor do fecho das fronteiras, prometem proteção contra o mercado global e tudo o que isso implica. A insegurança na Europa em boa parte está ligada ao fenómeno da imigração. Veja-se a Itália ou a Hungria, que estão a reagir às vagas de imigração cerrando as fronteiras. Isso não deriva da internet, são fenómenos novos. Há toda uma categoria da população que se sente ameaçada e os populistas vêm falar em banir as elites, dizem: “Vamos ser fiéis às vossas aspirações mais profundas”... e é isso que seduz os cidadãos. Há coisas, hoje, muito mais complexas e difíceis de tratar, que não passam meramente por um problema de comunicação.

Em Portugal, a escola é um tema quente, e no centro de grandes contendas, como julgo acontecer também em França. A escola tem vindo a perder prestígio e a figura do professor tem sido muito atacada. Quando os jovens vivem agarrados a periféricos hipnotizantes, de que modo pode a escola ainda impor uma disciplina, rigor, se não os atrai minimamente?

É difícil, senão mesmo impossível, rivalizar, em termos de sedução, com a internet, com os smartphones. A escola tem um concorrente temível. No entanto, não tenho a certeza que seja um fenómeno irreversível. Penso que devemos rever o lugar das escolas na nossa sociedade, inspirando-nos nas sociedades em que a escola funciona melhor... em Singapura, na Finlândia, onde os alunos têm resultados formidáveis; nesses países os professores são bem pagos; em segundo lugar têm formação permanente. E têm métodos particulares que nos devem levar a refletir; métodos de aquisição de saber.

Que reformas lhe parecem necessárias para voltar a dotar a escola de um papel interventivo na sociedade?

A educação é um setor essencial para o futuro. É a fábrica, a indústria da inteligência. É lá que formamos as mentes. Por isso a escola tem um papel capital. Eu não tenho uma solução, não sou um especialista dessas coisas, mas, no que respeita ao método, podemos inspirar-nos nas ciências da educação, ou até na ciência do cérebro. Devemos sobretudo buscar inspiração nos países em que o sistema funciona bem. Eu sou bastante empírico nesse ponto: observar bons resultados gera ideias para corrigir as coisas, para as adaptar. Acho que não o fazemos suficientemente e pagamos pelos nossos erros desde há 40 anos, por causa de uma educação que foi capturada pela lógica da sedução.

É preciso uma defesa da escola como o lugar onde se dá primazia a um saber que custa a adquirir, que dá trabalho e é difícil?

Sim. Dos exercícios controlados, exercícios de memória, de repetição... Eu sei que não é glamoroso repetir, mas é necessário. Como aprender a conduzir uma viatura sem repetir? Como aprender a tocar piano sem ensaiar? E isto toda a gente o entende. Mas parece que, relativamente à escola, já não. Aí parece que toda a gente tem de ser criativa. Não se pode ser criativo o tempo inteiro - é preciso aprender. E aprender pode não ser sempre divertido, pode, por vezes, ser duro, mas é necessário. Devemos fazer essa revolução, devemos procurar uma escola de exigência. Não uma escola de sedução em que tudo se torna um jogo. Com jogos de vídeo em todo o lado. Temos resultados terríveis na Europa. São 15% os jovens que saem da escola sem saber ler corretamente - não compreendem ou compreendem mal o que lêem. Ao fim de 10 anos de estudos, isso é escandaloso.

E as Universidades?

Sim. Temos mesmo pessoas que têm esse problema nas universidades. É um fracasso humano total. Se os que chegam aos níveis mais altos têm dificuldade de compreensão temos de fazer um esforço considerável no método da aquisição do saber e da formação dos professores. A formação dos professores custa dinheiro - é dispendiosa -, e tem de ser uma grande prioridade do século XXI. Porque somos sociedades do saber e não teremos nações dinâmicas e criativas se tivermos escolas degradadas. E teremos cidadãos que serão vítimas. Porque as “fake news” são um reflexo, dão-se bem junto de um tipo de público que não controla o que lê. Na escola têm de aprender que não é o que se lê uma vez que é verdade. Não podemos acreditar de imediato, devemos verificar. Cruzar informação, não confiar em sites sem assinatura. Não podemos corrigir a internet. Têm de ser as pessoas a ser capazes de discernir. A melhor resposta às “fake news” é a formação. Ter a dúvida, verificar, usar de prudência. Temos de ter uma pedagogia para isso.

Hoje um dos desafios que está a cavar um tremendo fosso geracional é a crise ecológica. As novas gerações já se deram conta de que o mundo para o qual a escola os prepara é uma ilusão. Não lhe parece que aquilo que está aqui a germinar, mais até do que um movimento como o dos coletes amarelos, será ainda mais impactante do que o Maio de 68, podendo tornar-se uma verdadeira guerra civil geracional?

Quando diz que a escola não prepara para os empregos do futuro, é preciso matizar. Se olharmos as estatísticas globais, quanto mais se estuda, mais hipóteses se tem de ter um emprego. O desemprego não existe nas elites escolares. Afeta as pessoas que não têm um diploma. O efeito massivo encontra-se aí. Assim a escola, continua, apesar de tudo, a abrir as portas do emprego. Quanto à questão ecológica, bastaria introduzir na escola um programa sobre esse desafio, formar uma sensibilidade ecológica, através de exercícios, de atividades, como a jardinagem - que fomentem o respeito pela natureza.

Não teme que a escola se torne uma instituição vinculada ao passado, incapaz sequer de encarar o futuro?

O que eu temo é a utopia da libertação, da educação sem esforço, sem disciplina - é o ideal libertário, anarquista, em certo sentido. Um movimento que demorou 20 anos a eclodir e que agora temos de corrigir. Não devemos ter nostalgia da escola de antigamente. Não teve resultados magníficos em todos os domínios, mas temos de fazer uma crítica do que se passou a partir dos anos 60. Como dizia antes, devemos voltar a fazer uso do bom senso. Quando perdemos o bom senso estamos no mau caminho. Houve uma utopia libertária e agora há uma utopia da internet em que achamos que podemos aprender tudo sozinhos; isso também é falso. A partir daí, só nos resta comprometermo-nos com uma enorme obra. A educação é um domínio total e absolutamente aberto. Na realidade há muito poucas limitações. No que se refere à educação temos um poder enorme. A educação pode mudar completamente a vida de uma pessoa. Mas é, desde logo, uma educação sem fim. Todas as civilizações tiveram formas de educação muito diferentes. Devemos encorajar a experimentação. Mas não com utopias. A educação exige necessariamente uma relação entre os mais jovens e os menos jovens. Não sei como podem os jovens auto-educar-se.
 

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