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O que afasta os jovens da política?

O que afasta os jovens da política?

João Porfírio Mafalda Tello Silva 25/06/2019 14:24

Preguiça, descrença no sistema político ou desinteresse? Porque se afastam os jovens da política?

Os jovens portugueses estão cada vez menos interessados na vida política, apontam a maioria dos estudos realizados nos últimos anos. A taxa de abstenção aumenta, o desinteresse dos mais novos aumenta. Há aqui uma causa efeito? Apesar de ainda não haver números recentes que legitimem esta possível relação, há quem considere incontestável que os jovens estão cada vez mais longe da vida política. E o Presidente da República é um deles. Marcelo Rebelo de Sousa pediu, este sábado, a todos os partidos para se questionarem sobre os motivos que levam os jovens portugueses a não quererem saber da política.

“Os responsáveis políticos têm de pensar o que é que está errado na forma de funcionamento dos partidos, na forma de funcionamento dos parceiros económicos e sociais, na forma de funcionamento dos sistemas, para os jovens não perceberem, não se sentirem motivados, não se sentirem empenhados, não terem um sentimento de pertença”, apelou o chefe de Estado na sessão de abertura da Conferência Mundial de Ministros Responsáveis pela Juventude 2019, em Lisboa.

Mas serão os partidos os verdadeiros culpados deste afastamento? António Costa Pinto considera que a resposta não é assim tão simples. Segundo o politólogo, é verdade que existe um genuíno desinteresse dos jovens pela política, mas “isso não é passível de ser resolvido” pelos partidos. “Hoje diz-se que as forças políticas têm de encontrar novas formas de mobilização juvenil. O que nós detetamos é que, independentemente de os partidos chegarem aos jovens através do Instagram ou do Facebook, esses contactos não remetem para processos de politização. Por isso, essa ideia de que os partidos têm de se adaptar às novas plataformas é falsa”, assegurou.

O investigador de Ciência Política refere duas causas para a falta de participação eleitoral dos jovens: primeiro, “já nasceram em democracia e não sentem nenhuma preocupação particular em relação à mesma” e, em segundo lugar, “o ativismo partidário está hoje, na maior parte dos casos nos partidos estruturais do sistema, resumido a um processo de profissionalização política”.

Contudo, António Costa Pinto sublinhou que, ao contrário da participação eleitoral, em relação ao ativismo político, existem alguns partidos que mobilizam bastantes jovens. “Os partidos nas margens do sistema, como o PAN, mobilizam ativismo político nos jovens porque são partidos de causas ou mais ideológicos que os tradicionais. Ou seja, permite uma maior participação de ativismo. Os partidos tradicionais, como são partidos de Governo, não conseguem ter a mesma mobilização porque têm um modelo de ativismo pouco ideológico”, argumenta o politólogo, acrescentando que esta premissa é visível do ponto de vista histórico: “Os partidos radicais têm maior mobilização de juventude, sejam de extrema-direita, ecologistas ou verdes”, esclareceu.

Mas se para uns são os jovens que se fecham à participação eleitoral, para outros é o sistema quem lhes fechou a porta. “Eu creio que é o grande artificialismo na intervenção política que afasta os jovens”, afirma ao i José Ribeiro e Castro.

O antigo líder do CDS acredita que os jovens não se sentem representados pelos partidos políticos e que cresceram “num ambiente de descrédito” da prática da democracia. “Enquanto os mais velhos, por força de hábito, se calhar até vão votar, os mais novos não estão para isso. Os jovens sentem que o seu voto não faz a diferença. Não sentem que vão escolher alguém que vai ser fiel às suas promessas, que lhes vai prestar contas. Não sentem que vão ter o seu deputado no parlamento”, apontou. Nesse sentido, José Ribeiro e Castro, do Movimento Por Uma Democracia de Qualidade, defende que a única solução para captar a atenção dos mais novos passa por reformular o sistema político. “Há uma petição na Assembleia da República mas as resistências são muito grandes”, recordou.

insatisfeitos Duarte Marques, deputado do PSD e antigo líder da JSD, concorda com Marcelo Rebelo de Sousa e subscreve que “os partidos têm de olhar mais para os jovens”. Contudo, o social-democrata não considera que os mais novos sofram de uma apatia política. Duarte Marques justifica o descontentamento dos jovens com o facto de serem “os principais prejudicados do rumo que o país tem levado. Estão insatisfeitos com o sistema político e não toleram mais erros”.

O deputado social-democrata defende ainda que a adaptação dos meios de participação eleitoral também pode ajudar a reconquistar o voto das gerações mais novas. “Um jovem mais depressa vota online ou através de um sistema digital do que vai a uma urna”.

Para além de a questão tecnológica, Ivan Gonçalves, deputado do PS, considera que os líderes políticos são responsáveis por chegar ao eleitorado e que têm de fazer uma melhor apreciação do que são hoje as preocupações e expectativas de quem os elege. “Os partidos mais tradicionais, incluindo o PS, têm de olhar para os tempos de hoje e para a forma como o mundo funciona e perceberem como devem transmitir a sua mensagem”, diz o ex-líder da JS.

ABSTENÇÃO No entanto, chegar aos mais novos parece uma meta cada vez difícil de se alcançar. 57% dos jovens não quer saber da política, avançou um estudo patrocinado pela Presidência da República, em 2015. “A abstenção marca a relação da juventude com a política”, sustentou Marina Costa Lobo, investigadora e uma das responsáveis pelo estudo.

Seja por conformismo, por falta de interesse ou por descrédito no sistema político, a falta de participação dos jovens na hora de ir votar sente-se em toda a União Europeia. Tendo em conta que os mais novos são geralmente um dos maiores beneficiários das medidas da União Europeia é com estranheza que, muitas vezes, a opinião pública vê este fenómeno.

Só este ano, para as Europeias, 28 milhões de jovens, entre os 18 e os 22 anos, puderam votar pela primeira vez. De acordo com as primeiras previsões, apenas cerca de 7% desses novos eleitores se dirigiram às urnas.

Segundo o Parlamento Europeu, os jovens são a faixa etária com uma participação mais baixa. A instituição divulgou ainda que a idade média de um eurodeputado ronda os 55 anos, expressando a falta de jovens também enquanto atores políticos.

 

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