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José Paulo do Carmo 21/06/2019
José Paulo do Carmo

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O padre e a rapidinha

Todas as semanas, à boa maneira portuguesa, escolhe-se um alvo a abater espoletado pela comunicação social e que rapidamente se propaga pelas redes sociais, inflamando opiniões e trazendo à tona extremismos e preconceitos, invejas e incoerências entre o que nós próprios fazemos e no que julgamos da vida dos outros. Esta não foi exceção. Escândalo nacional com a fotografia de um padre de cuecas, deitado numa cama, a fazer pose para uma câmara. Que vergonha, que ultraje, quanta infâmia. Rapidamente se crucificou o homem (sim, os padres são homens), toda a gente deu a sua opinião e a dita fotografia correu telemóveis num misto de gozo e desprezo, com a facilidade com que se acaba com reputações nos dias que correm.

Tive a oportunidade de ver a entrevista do referido padre, de nome Júlio Santos, e de perceber um pouco melhor a história na primeira pessoa. Um erro próprio da inabilidade de quem não está muito habituado a estas coisas fez com que aquilo que deveria ser uma mensagem privada fosse publicado no mural, dando azo a todo este falatório. O senhor, muito sorridente, lá foi assumindo tudo, dizendo com regozijo que foi num hotel do Porto o tal encontro e que quem fotografou foi uma loirinha muito bonita e muito jeitosa com quem deu uma rapidinha. Assumiu que não é nenhum santo e que tem um lado maroto, que gosta de viajar e que considera a parte afetiva fundamental na sua vida, não fazendo tenção de abdicar dela.

Confesso que gostei imenso de o ouvir. Da sinceridade, da consciência do que fez e da tranquilidade com que foi assumindo os factos, sabendo e aceitando que teriam consequências pela rigidez com que se rege a Igreja no que a este tipo de relacionamentos diz respeito. Foi o padre a mostrar ao mundo que eles também são homens, que sentem os mesmos desejos e frustrações e, acima de tudo, as suas necessidades reprimidas por leis retrógradas e antiquadas que vão afastando tantos dessa mesma profissão.

A cara alegre e descomprometida fez-me sentir simpatia pelo mesmo e não considerar que tenha feito alguma coisa de grave ou que fosse motivo de tanto alarido. Bem sei que é a própria Igreja que tem de definir as suas regras e que quem está mal é que se deve mudar, mas é esta falta de noção da realidade que tem trazido à baila os diversos escândalos de pedofilia no seu seio. Está tudo intimamente ligado.

Acho, por isso, que era tempo de as pessoas evoluírem e de verem os padres como pessoas iguais às outras, e que as coisas pudessem ser feitas às claras para que não existissem estes casos (esses sim, graves) de encontros secretos e de abusos de menores a que temos assistido, e que os mesmos insistem em ignorar, mas também o de verem as pessoas do sexo feminino com os mesmos direitos de assumir posições de destaque na Igreja, coisa que até agora lhes tem sido negada. Só assim a religião pode crescer, evoluir e adaptar-se aos padrões da sociedade dos tempos que correm. É óbvio que não é agradável ver uma pessoa que exerce um cargo que exige algum decoro naqueles propósitos, mas não deixa de ser engraçada a forma como tudo aconteceu e como o próprio, com orgulho, admitiu a façanha.


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