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Rodrigo Alves Taxa 21/06/2019
Rodrigo Alves Taxa

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Caixa Geral de Levantamentos: o banco de todos que só alguns alimenta

Tenho acompanhado com particular interesse os vários episódios de uma série que anda a rodar nas nossas televisões quase todos os dias: a série La Caixa. O guião, tanto quanto parece, tem destacado enredo e, a cada episódio, sente-se no ar aquela catalisadora sensação de que o melhor ainda está para vir. Inala-se o deslumbramento do poder, o amor e desamor de assolapadas relações antigas, hoje já esfriadas pela severidade do afastamento e do tempo. Nos cenários, leva-nos a nossa imaginação para sumptuosas salas de reuniões de monumentais edifícios de regime. Idílico, portanto. Será que as mesmas metiam whisky duplo sem gelo e uma valente cigarrada? Isso é que era! Mas talvez esteja eu a imaginar demasiado. Já os atores, esses, são de nomeada e, permitam-me dizer num tom mais coloquial, estão a fazer um papel do caraças. Contudo, o que ainda não percebi bem é quem são os atores principais e secundários, circunstância essa que por vezes me aborrece um pouco, sobretudo porque, mais que não ter ainda percebido, parece-me que nunca vou chegar a perceber. Mas é assim mesmo. Consumidor assíduo que sou das melhores tramas escritas e televisionadas, habituado estou a que nalgumas delas esta mesma circunstância se verifique. A ficção tem destas coisas. Muitas vezes, leva-nos para mundos aparentemente paralelos, para realidades que sabemos nunca poderem acontecer e que, por isso, nos amarram ao virar de cada página, ao iniciar de um novo episódio. Graças a Deus, na vida real, estas coisas não acontecem, e é por isso que se há coisa que aprecio amontoar em casa são livros. Quem não gosta de um bom vilão? Da sagacidade do mal que, por vezes só no último episódio, por qualquer volte- face do destino, capitula ao bem numa já por todos considerada inalcançável vitória deste. Bonito o que escrevi até agora, não é? Não. Não é. Não é quando o livro ou a série parecem baseados em factos reais. Não é quando a caixa em questão é o banco público de um qualquer país, sobretudo o meu. Não é, quando os protagonistas da narrativa são muitos daqueles que por tantos outros durante décadas foram observados como um exemplo. Não é, quando os papéis, na ótica do utilizador, seja lá esse utilizador quem for, não são claros. E, sobretudo, não é quando os cenários, por mais idílicos que sejam e por serem de regime, deviam estar blindados a este tipo de orgia procedimental. É que, se depois da leitura de um livro ou da visualização de uma boa série podemos fechar o cartapácio ou desligar a televisão, seguindo o resto da vida com toda a normalidade, aqui não o podemos fazer. Há pessoas a passar mal pelo estado do país. Há pessoas a quem, com garantias, não se lhes empresta 100 euros, e, alegadamente, outros a quem se empresta 100 milhões deles sem a presença das mesmas. Não sei porquê, mas cheira-me aqui a mofo. Não sei se há culpados. Se os há, naturalmente não sei quem são, e dessa avaliação se encarregarão as entidades competentes. Mas é algo que me intriga. Como acabará esta odisseia? 

 

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