20/11/19
 
 
José Cabrita Saraiva 20/06/2019
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@newsplex.pt

"Só sei que nada sei"

Tirando uma ou outra intervenção mais desassombrada, a esmagadora maioria das audições da comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos poderia ficar resumida na frase lapidar de Sócrates, o filósofo grego: “Só sei que nada sei”.

Como já acontecera noutras ocasiões (BES/PT), em que altos responsáveis políticos ou empresariais foram ouvidos no Parlamento, pouco se pôde apurar, uma vez que ninguém parece saber o que andou a fazer enquanto desempenhava esses altos cargos.

Muitos justificaram o seu desconhecimento com falta de memória. Outros preferiram recorrer à velha técnica de reduzir-se à irrelevância, alegando que nada podiam fazer.

Se é certo que ao fim de alguns anos podem não se lembrar de tudo o que fizeram, também é verdade que podiam e deviam ter-se preparado e documentado para ajudar a esclarecer os factos. E os factos são que a CGD precisou de 5 000 000 000 (assim mesmo, cinco mil milhões) de euros para tapar buracos e que ficou a arder em centenas de milhões após ter concedido empréstimos ruinosos em circunstâncias pouco claras que fazem desconfiar de uma teia de favorecimentos.

Quanto à impotência dos responsáveis... então o que andavam lá a fazer e para que recebiam salários principescos? Ocupavam cargos de decisão mas afinal estavam de mãos atadas? E ainda acham isso normal?

Vítor Constâncio, por exemplo, reiterou há dois dias que nada podia ter feito para impedir o empréstimo de 350 milhões a Berardo para comprar ações do BCP. Espero não estar a ser injusto, mas pareceu-me que toda a sua intervenção foi um exercício de fuga às questões e às responsabilidades.

Ora, quando alguém prefere apregoar aquilo que não fez a mostrar o trabalho realizado, quando prefere reconhecer a sua incapacidade a orgulhar-se da sua competência, quando prefere exibir ignorância a revelar os seus conhecimentos, não há muito mais a acrescentar.

Ninguém fez nada, ninguém sabia de nada, ninguém podia fazer nada. “Só sei que nada sei”. Em Sócrates, a frase assumia a feição de um sábio paradoxo. No caso da Caixa, é uma afirmação de inocência em que simplesmente não conseguimos acreditar.

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×