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Philippe Petit. O atleta da alma

Philippe Petit. O atleta da alma

João Oliveira Duarte 19/06/2019 16:16

O francês que desafiou as autoridades por se passear numa corda esticada em lugares como a Notre-Dame ou o já desaparecido World Trade Center transpôs para a literatura a experiência de pairar sobre o vazio. Tratado de Funambulismo, recentemente editado pela VS Editora, é prefaciado por Paul Auster.

Suspenso no ar, sem qualquer tipo de rede que lhe ampare a queda, sem cordas que não aquela onde, momentos antes, caminhava, Philippe Petit decide, naquela manhã de 1974, deitar-se. Olhos fechados ou abertos, não conseguimos perceber, mas muito pouco o separa do céu ou do inferno. Entre ele e o chão estão 417 metros de vazio, e apenas uma fina corda de aço e uma maromba – um pau longo, que serve para manter o equilíbrio – o separam de uma queda mortal. Perna suspensa sobre o abismo, como se se permitisse um momento de descanso, o corpo em tenso equilíbrio procura uma imobilidade impossível. Esta é, sem dúvida, uma das imagens que fizeram a fama de Philippe Petit, o francês que desafiou as autoridades norte-americanas – tinha feito o mesmo em Paris, em Notre-Dame, e continuou a fazê-lo em diversos outros sítios – ao passear-se numa corda esticada entre as duas torres do já desaparecido World Trade Center.

Com prefácio de Paul Auster e tradução de Paola D’Agostino e Luís San Payo, foi recentemente editado pela VS Editora o Tratado de Funambulismo, de Philippe Petit, onde, além dos conselhos práticos, encontramos uma longa meditação e um escritor imenso, daqueles que conhecem como poucos os mecanismos secretos da criação. De facto, esta “espécie de parábola, de viagem espiritual em forma de tratado”, como refere Auster, não deixa de conter uma lição que hoje parece ter caído em esquecimento: que, para muitos (não todos, certamente), o ato de criação será sempre um ofício “sóbrio, rude, dececionante”, que o ato de escrever, de pintar, de compor, mas também o ato, na aparência apenas de ordem física, de andar sobre uma corda a centenas de metros de altitude, implicam sempre uma dose imensa de esgotamento e, muitas vezes, de derrota, de onde se pode, por vezes e com alguma sorte à mistura, ganhar qualquer coisa – um pequeno gesto nunca feito, uma saudação nunca tentada.

“E quem não quer travar uma luta encarniçada de esforços vãos, de profundos perigos, armadilhas, quem não está pronto a tudo dar para se sentir viver, esse não precisa de se tornar funâmbulo. Sobretudo, nunca poderia sê-lo”.

O “Imperador do ar”, como intitula todo aquele que conquistou “um silêncio invadido de luz” e que se transformou numa “gigantesca antena, à escuta do mundo” que lhe chega debaixo, não se pode dar ao luxo de deixar alguma coisa ao acaso. Há toda uma ciência dos pormenores, uma paixão por todos os momentos e instantes do funambulismo, e nada escapa a esse saber ciumento: os vários tipos de corda (a preferência vai para a corda do funâmbulo, anterior ao cabo de aço, porque essa permite “possuir na planta de cada pé essa tatuagem deslumbrante fabricada por cima das multidões”), a multiplicidade de exercícios, a maromba, o vento, a inclinação, tudo conta nesse saber que se situa no limite da vida e da morte, onde o mais pequeno gesto pode ser mortal.

“O funâmbulo a grande altura, sonhador como o seu nome indica, vale-se de um descanso mais justo. Alonga-se no arame e contempla o céu. Recupera as forças, reencontra a serenidade perdida, a coragem, a fé. Mas é preciso estar exausto: o descanso não deve ser encarado como um exercício”.

Ver aquilo que mais ninguém vê sabendo-se à beira de um abismo, olhá-lo e medir-se com ele, esgotar todas as forças, estar exausto e, ao mesmo tempo, cheio de uma vida transbordante; este momento quase místico em que o funâmbulo, deitado sobre a corda, “ouve subir até si o ruído de uma cidade, distingue os mil chamarizes de que está repleto o silêncio do campo, soçobra ao sibilar das estrelas cadentes”, em que forma “um só corpo com a instalação, sólido como um rochedo”, é talvez, um dos mais difíceis desta arte das alturas. Mas há outros. Andar, por exemplo; fazer, a grande altitude e nos poucos centímetros de diâmetro da corda, aquilo que o comum dos mortais faz no chão. Transformar o mais fácil e comum no mais difícil e inaudito. Mas o contrário também é verdade: fazer do impossível o gesto mais corriqueiro, mais banal.

“Se eu tivesse de realizar uma caminhada e apenas uma para me apresentar no paraíso dos dançarinos de corda, escolheria uma entrada sem maromba, natural, com os braços ligeiramente oscilantes ao longo do corpo, ao ritmo do passo: avançaria sem pensar por um único instante que me encontro sobre um cabo, assim, como aquele transeunte que se afasta”.

Isto é, certamente, impossível – em todo o caso, marca um limite ao funambulismo, corresponde ao momento em que sai de cena. Porque, de facto, o funâmbulo não conhece essa harmonia das forças, que seria também o momento em que desapareceria. Philippe Petit não deixa de lembrar constantemente que, mesmo com todo o saber, com todo o conhecimento dos diversos pormenores, o funâmbulo, como qualquer criador, lida com forças que, no caso dele, são mortais num sentido bastante literal do termo. A gravidade, por exemplo. Talvez ninguém saiba como ele o poder que ela pode ter, o sempre frágil equilíbrio, instável, que tem de ser negociado a todo o momento, instante a instante, para que ela “nunca ganhe uma potência superior à daquelas que ele opõe para a destruir”.

Talvez seja porque a criação, para Petit, consista em medir-se constantemente face a forças em muito superiores ao homem que a única comparação que estabelece não venha nem da literatura nem das artes plásticas, mas da tourada.

“Antes de encetar a última fase da lide, o matador, com um pequeno gesto circular, apresenta a sua montera aos vinte e cinco mil espetadores. Depois, atira-a para a areia. A saudação do toureiro é uma dedicatória. (...) O funâmbulo, depois de aceder ao cabo, pára a meio e ajoelha-se. Afasta uma mão da maromba. A saudação do funâmbulo é uma declaração. De potência e triunfo”.

Potência e triunfo, sem dúvida, mas também reconhecimento de uma força que não se consegue controlar, de um elemento de tal forma excessivo que faz com que toda o embate frente a frente se transforme numa condenação à morte. Não a afirmação de uma vontade, mas a sobriedade de uma derrota.

É neste campo de forças excessivo que se situa o funâmbulo: o vento, a gravidade, uma base de apoio demasiado estreita, tudo concorre para a queda e para a morte. E se ele não cai, isso não significa que venceu mas que, da derrota, da prova do excesso delas relativamente a ele, conseguiu retirar algo: uma saudação, uma paragem ou, no limite, a imobilidade que, para o funâmbulo, é “o arcano da dança na corda”.

“Crer-te-ás imóvel: já não me mexo, estou imóvel.

E o teu olhar que vigia e vagueia? Eu surpreendi os teus olhos ao longo das árvores. E esses pensamentos no teu crânio que tartamudeiam da esquerda e da direita? E esse sangue precipitando pelas tuas veias como um regato na estação das chuvas? E o vento no teu cabelo? E o fio que faz a cabeça girar? E esse ar que engoles e mastigas? Tanto ruído!

Não, os minúsculos habitantes das ervas nunca viram um ser tão agitado”.

Deitado na corda, com o abismo nas costas e com as mãos na maromba que se encontra presa no ar, o funâmbulo parece imóvel. As forças inumanas não desapareceram, bem pelo contrário, mostram-se mais uma vez, fazem sentir todo o seu poder; mas ele consegue, nem que seja por um momento, negociar com elas de forma a que não seja empurrado para a morte, estabelecer uma espécie de contrato, frágil, decerto, ou saltar da contenda, como dizia Kafka numa parábola, para se tornar uma espécie de juiz, de equilibrista. E daí consegue, numa espécie de estranha liberdade, olhar o céu e discernir todos os sons que lhe chegam da terra.

 

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