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Brasil. O confuso piar dos canarinhos brancos que cheiram a naftalina

Brasil. O confuso piar dos canarinhos brancos que cheiram a naftalina

Afonso de Melo 17/06/2019 21:53

O Brasil iniciou a Copa América com a camisola maldita. Em homenagem à equipa de 1919, dizem. Mas nem todos acharam graça ao saudosismo.

Cem anos depois, a homenagem. De 1919 a 2019. Primeira vitória do Brasil na Copa América, então ainda chamado Campeonato Sul Americano de Futebol, com jogo decisivo de desempate nas Laranjeiras, Rio de Janeiro, campo do Fluminense, frente ao Paraguai. Um golo de Arthur Friedenreich, a grande figura do escrete, resolveu o assunto aos 122 minutos e não imaginavam decerto os adeptos brasileiros que iriam chegar ao ano que agora decorre com apenas oito vitórias na competição, tão distantes das 15 do Uruguai e das 14 da Argentina.

Seja como for, essa terá sido, a primeira grande vitória internacional do Brasil (repetiu a dose em 1922), e portanto absolutamente inesquecível. A camisa usada pela seleção era igual àquela com que a equipa de Tite bateu a Bolívia (3-0) na madrugada de sexta-feira, jogo de abertura da edição de 2019: branca, com vivos azuis. Os calções azuis completavam o equipamento que, na sua versão alternativa, ficava virado do avesso: isto é, camisola azul e calções brancos.

Ora, faz parte da história, que apesar de se considerarem uma espécie de donos do futebol, que os ingleses inventaram e eles ensinaram o mundo a jogar, os brasileiros demoraram longos anos a convencerem o universo de que eram de facto os maiores artistas no que ao domínio da bola respeita. As suas presenças em Campeonatos do Mundo, desde 1930, no Uruguai, foi sendo sempre vista com enormes expectativas e encaixada com formidáveis frustrações. Sobretudo quando, em 1950, lhes foi entregue a organização do Mundial e acabaram derrotados no Maracanã (construído de propósito para a competição), perante mais de 200 mil pessoas, pelo pequenino inimigo do lado, o Uruguai (1-2), num jogo em que, por via do sistema organizativo, lhes bastava empatar para meterem pela primeira vez as mãos na Taça Jules Rimet.

Ainda há dias, um jornal de São Paulo, fazia manchete: “Fique tranquilo supersticioso!” Terra de macumba e candomblé, o Brasil vomitou a camisola branca. Passou a ser sinal de fracasso, culpada pelas derrotas, sobretudo após mais um desastre frente ao Paraguai na Copa América de 1953. A Confederação Brasileira de Desportos tomou uma medida drástica. Em parceria com o jornal Correio da Manhã, lançou um desafio nacional para repaginar o uniforme da seleção. O mote era: um país com todo o colorido e vida como é o Brasil não se revê na brancura da sua camisa. Nasceu a canarinha. Aldyr Garcia Schlee foi o vencedor do concurso que juntou mais de 300 candidatos. Camisa amarela com vivos, calção azul, meia branca. Cor não faltava. Ainda por cima veio 1958 e a vitória na Suécia com Pelé e Garrincha, depois 1962, aí mais só Garrincha, e 1970 com Jairzinho e Tostão e Rivelino e Carlos Alberto, Gerson e outra vez Pelé. Tri-campeão! Seguiram-se o tetra e o penta. O amarelo não enganava: era a cor certa da vitória. O branco ficou esquecido nas gavetas do tempo, cheirando a mofo. Agora, por apenas uns dias, sacudiram a naftalina das camisas brancas. Mas passa já. Sosseguem corações!

 

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