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André Jordan. “Nós ainda somos muito baratos”

André Jordan. “Nós ainda somos muito baratos”

João Porfírio Daniela Soares Ferreira 16/06/2019 10:29

É considerado o pai do turismo português. Apesar de esta atividade estar no seu auge no nosso país, André Jordan considera que ainda há muito por fazer.

Prestes a completar 86 anos, André Jordan é o criador de grandes empreendimentos como a Quinta do Lago, o Belas Clube de Campo e a Lusotur. Apesar de ter nascido na Polónia e crescido no Brasil, cedo viu o potencial turístico português, quando em 1971 chegou ao nosso país para criar a Quinta do Lago, obra que é reconhecida internacionalmente como um dos mais prestigiados empreendimentos turísticos do mundo. Ao i, Jordan garante que viu em Portugal um grande potencial mas defende que os preços praticados no nosso turismo ainda são muito baratos e que ainda há muito a fazer.

Começou a apostar em Portugal há quase 50 anos. O que viu no nosso país?

Vi em Portugal, Portugal. Ou seja, um país que tinha as condições mais naturais para um turismo de qualidade, em termos de clima, de gastronomia, das coisas básicas que pede o turismo. Mas além disso percebi uma coisa que eu venho a dizer há muitos anos, que é o ‘portuguese style’. Finalmente hoje em dia se percebe o que eu queria dizer, e que é algo que também demonstramos com os nossos empreendimentos – a sobriedade, a discrição, o tratar as pessoas com consideração e respeito, sem subserviência, sem ganância. Acho que nós temos um certo estilo que agrada a um certo público, que não é para todos. Claro que podíamos melhorar e venho defendendo que é preciso aumentar bastante a parte cultural, de eventos, para atrair o público mais exigente. Está demonstrado que a atração cultural oferece um público muito interessante.

Começou nesta área, que agora está atingir o auge, há já muito tempo. Considera-se um homem à frente do seu tempo?

Comecei há 50 anos, só. Não acho que fui um homem à frente do meu tempo, acho que fui uma pessoa que identificou as características que eu considerava que eram o atrativo de Portugal. O turismo barato não é rentável e nem nós temos as condições físicas nem o volume que tem uma Espanha, que tem 70 milhões de turistas. Temos que fazer um turismo selecionado, um turismo qualificado, e demorou bastante até as pessoas perceberem do que é que se tratava. Ainda ontem [quarta-feira] jantei num restaurante de comida libanesa e acho que o turismo mudou completamente. Começou a ser diversificado. Agora na parte cultural ainda falta muita coisa. Na minha opinião, e eu venho falando nisso, o Museu dos Descobrimentos é erradamente politizado. Os estrangeiros vêm todos à procura dos descobrimentos – principalmente os europeus, mas as pessoas do mundo inteiro estudaram os descobrimentos na escola. Têm uma curiosidade enorme. E uma prova curiosíssima disso é que a Torre de Belém é o terceiro ou o quarto local mais visitado e, na verdade, não tem nada para ver, não tem nada em exibição. A Alemanha, onde decorreu o Holocausto, a maior tragédia da civilização moderna, hoje tem o Museu do Holocausto e não tem complexos de tê-lo. Por que nós havemos de ter complexos em relação ao que aconteceu há vários séculos em relação à escravatura quando, na verdade, em termos realistas, não há qualquer discriminação em Portugal?

Hoje em dia Portugal tem visto um ‘boom’ no turismo. Quais considera terem sido os principais fatores para este crescimento?

Acho que há um fator – que no meu entender é bastante controverso – que tem a ver com o preço. É barato. Nós temos uma relação qualidade/preço única. Temos hotelaria, gastronomia, entre outros que, de uma maneira geral, são muito mais baratos do que outros locais. E as pessoas que vieram quando começou esse ‘boom’ – e começou no meio da crise – e os hoteleiros começaram a colocar promoções na internet. Não somos tão baratos quanto fomos, mas isso mas ainda somos muito e isso é um fator importante e que atraiu muitas pessoas. Ao contrário do que dizem, que atraímos aquelas pessoas mais elitistas, não é verdade. Nós atraímos muita juventude, atraímos muitas pessoas “normais” e que apreciam o facto de poderem aproveitar Portugal a um preço barato. Mas infelizmente, em termos futuros e de rentabilidade, é ainda preciso fazer um upgrade do turista. E para fazer o upgrade do turista só subindo os preços. Dobra-se o preço e pronto.

Acha que este crescimento é para continuar? O que é preciso mudar?

É preciso uma oferta de atrações culturais muito maior, em termos de museus, por exemplo. Há um apontamento curioso. Nós temos um sucesso grande de comércio. Mas se formos ver, é tudo artigos estrangeiros e para os turistas orientais. O maior contingente de compradores são os chineses e também brasileiros, ainda que em menor escala. Assim, o resultado desse comércio não fica em Portugal, os produtos geram todos fora. Temos que ter uma maior promoção, uma organização da promoção dos produtos portugueses. Faz falta um centro que reunisse no mesmo espaço os produtos de qualidade que Portugal tem em todas as áreas, que seria, por si só, uma atração turística porque as pessoas iam lá. Acho mesmo que é preciso, pontualmente, elevar o nível. Nós fizemos isso no Algarve, trouxemos o golfe do mais alto nível para Portugal quando ainda nem era considerado. É possível fazer, é possível melhorar e não se trata de grandes investimentos.

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