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Os olhos a que o cinema tudo deve

Os olhos a que o cinema tudo deve

Cláudia Sobral 13/06/2019 16:09

Do realizador de “The Story of Film: An Odissey”, o conhecido documentário que, ao longo de 15 horas, percorre a história do cinema, chega hoje às salas “Os Olhos de Orson Welles”. A partir de uma caixa em que deu com centenas de desenhos e pinturas do autor de “Citizen Kane”, um documentário, de novo, para um novo olhar sobre o homem que não chegou a terminar as suas memórias. Em forma de carta. Uma carta de amor do realizador para o cineasta que descreve como “o rei”.

Ao contrário de outros grandes cineastas, Orson Welles – citando Godard, o maior de todos eles – morreu sem deixar uma autobiografia. Não que não o tenha tentado – há poucos anos, um grupo de arquivistas da Universidade do Michigan descobriu um caderno de memórias inacabado: “Confessions of a One- -Man Band”, uma autobiografia em que falava sobre as suas amizades com Hemingway, Rita Hayworth e D. W. Griffith e em que explicava as razões pelas quais tantos dos seus filmes ficaram para sempre inacabados. Descrito por Jonathan Rosenbaum, em “Discovering Orson Welles” (University of California Press, 2007), como “o derradeiro autor”, era conhecido pela guerra que travou até ao fim contra o sistema de produção instalado em Hollywood, na luta pelo controlo autoral dos seus projetos.

Ao cinema, com “Citizen Kane” (1941), a sua primeira longa-metragem, chegou depois de um início de carreira entre o teatro e a rádio. Realizador de cinco centenas de filmes (o último, “The Other Side of the Wind”, um desses que tinham ficado pelo caminho, estreado postumamente no ano passado), produtor de 25, ator em mais de uma centena. Mas muito mais do que isso, vem agora contar-nos Mark Cousins em “Os Olhos de Orson Welles”, a chegar hoje às salas de cinema. Um filme-ensaio do realizador que já em “The Story of Film: An Odissey”, documentário televisivo que ao longo de 15 horas percorre a história do cinema, tinha dado provas da sua faceta de arqueólogo da imagem em movimento.

Aqui, nem sempre. De volta à ausência de uma autobiografia, e chegando às palavras de Mark Cousins. No verdadeiro sentido, porque é o realizador o narrador nesta viagem a propor uma nova forma de olhar para Orson Welles, na forma de um conjunto de cartas: “Querido Orson Welles, não deixaste uma autobiografia, deixaste outra coisa. Fui a este armazém em Nova Iorque” – é como se estivéssemos com ele, no armazém, o realizador coloca-se ao nível do espetador – “e vê o que encontrei nesta caixa, Orson: desenhos, muitos deles nunca vistos. Um caderno de desenhos da tua vida. Correste o mundo, desenhavas por todos os lugares a que ias. Lugares, pessoas. Amaste visualmente. Será que os teus desenhos nos mostram o teu inconsciente? [...] Desenhaste-te a ti próprio a chorar. ‘Rezem pelo homem livre que se condenou a si mesmo’. Condenaste-te a ti mesmo, Orson? Se sim, em nome de quê?”

Ao longo de quase duas horas de documentário percorreremos Orson Welles a partir de uma nova perspetiva – os seus desenhos, que Mark Cousins relaciona com o seu cinema e com a sua biografia. Entre o passado e o presente em que, mais de 30 anos após a sua morte, o seu legado ressoa ainda. Em Paris perguntar-lhe-á: “Reconheces este lugar? A Cidade da Luz. Desenhaste-a e pintaste-a. Tens luzes assim nos teus filmes. Os teus desenhos ganham vida. Os teus filmes são cadernos de desenhos. Pensavas com linhas e formas. O ‘Macbeth’ é um dos poucos filmes que quis desenhar enquanto o via”.

Recordou Cousins, numa conversa com o público por ocasião da estreia deste documentário no BFI London Film Festival, que tinha já ouvido falar nesta outra faceta do cineasta que descreve como “a figura do pai na história do cinema”, “tão extravagante na sua imaginação, tão radical, um punk, de certa forma”. E que foi numa viagem aos Estados Unidos que a sua filha, com receio de que a figura do pai caísse em esquecimento, lhe contou que tinha algo para lhe mostrar. A tal caixa.

Não é uma caixa grande, pelo contrário, mas contém centenas de desenhos e de pinturas da autoria de Orson Welles. “São desenhos bastante pequenos, é mesmo interessante estarmos a vê-los num ecrã de cinema”, notou Cousins na mesma sessão, em que se percebe a proximidade com que o olha no filme. “Quando pensamos nestas figuras lendárias, achamos que estão na Lua. Há a distância real e a distância psicológica e o Orson Welles estava a um milhão de milhas de distância na minha cabeça. E agora já não. Está mesmo perto. Não é necessário encontrar uma escala humana para se conseguir compreender uma pessoa quando se seguem as suas pegadas, mas a mim ajuda-me”.

Para este documentário, o realizador diz não ter sido necessário revisitar os filmes de Welles. “Li as coisas que ainda não tinha lido, mas tenho uma boa memória, não precisei de rever todos os filmes. Virei as costas ao cânone. Há anos que não vejo um filme do John Ford ou do Howard Hawks. Uma pessoa chateia-se com a história do cinema e, depois, regressa ao porto, ao lugar de onde partiu. Há uma utilidade em voltar àquilo que nos formou para ver se continua vivo. Para mim, [Welles] continua. Foi um prazer regressar”. Um regresso através de um novo olhar: o do próprio Orson Welles, a que Cousins regressa, em imagens, recorrentemente. Para a conclusão de que ainda é possível ver o mundo através dos seus olhos. Os olhos do “rei”, como lhe chama. “O Rei, forçado a abdicar”.

 

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