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Ruben de Carvalho. “O homem que lutou pela liberdade” e “seduziu adversários”

Ruben de Carvalho. “O homem que lutou pela liberdade” e “seduziu adversários”

José Sérgio Mafalda Tello Silva 12/06/2019 14:29

Ficará para sempre como o homem do Avante! que trouxe a Portugal grandes bandas musicais. Não era um ortodoxo do PCP e até gostava de fado apesar da associação ao tempo da ditadura.

Amante da música e da cultura, em geral, Ruben de Carvalho nunca foi um comunista típico. Gostava de fado, tinha programas na comunicação social com figuras que o partido classificou no passado como fascistas e trabalhou com António Costa antes de se sonhar com geringonças. “Sou suspeito para falar sobre o António Costa. Andei com ele ao colo e quando digo que andei com o António Costa ao colo não é uma figura de retórica. O meu pai e o pai do António Costa eram amigos. Quando eu tinha 18 anos o António Costa tinha dois ou três”, disse numa entrevista ao Observador. Mas foi a sua influência na festa do Avante! que o tornou uma figura mais conhecida do grande público.

Vivia na Amadora, em Lisboa, numa garagem transformada em rés-do-chão com as paredes forrada a livros e vinis. No mundo artístico, foi recordado como um amante do fado, mas também do jazz e dos blues, mas acima de tudo como um homem com uma “visão muito para a frente”. “Perdemos um homem extraordinariamente culto”, de uma “cultura superior a todos os níveis”, realçou Luís Represas. Ruben de Carvalho ficará para sempre associado aos primeiros concertos públicos que trouxeram a Portugal Chico Buarque, Dexys Midnight Runners e Pete Seeger nas célebres festas do Avante!.

 

Da cela em Caxias à Festa do Avante!

Ruben Luís Tristão de Carvalho e Silva nasceu em Lisboa em 21 de julho de 1944. Desde jovem que foi uma voz ativa na luta antifascista, tendo sido preso pela primeira vez aos 18 anos, mas a sua relação com a polícia já tinha começado uns anos antes quando foi sovado numa manifestação. Antes de ser militante do partido comunista foi membro das comissões juvenis de apoio à candidatura do General Humberto Delgado, em 1958, e da Comissão Democrática Eleitoral (CDE), entre 1960 e 1970.

Ruben de Carvalho aderiu ao PCP em 1970 e foi funcionário do partido entre 1974 e 1997, tendo ficado conhecido pelo seu papel como executivo da comissão organizadora da Festa do Avante!, cargo que ocupou com orgulho desde 1976.

O seu envolvimento na política tornaram-no num alvo “apetecível” para a PIDE, a polícia política do Estado Novo. Foi preso seis vezes nos estabelecimentos prisionais de Caxias e do Aljube, sendo que a última vez que esteve encarcerado foi em 7 de abril de 1974, 18 dias antes da revolução dos cravos. Durante esses períodos, foi submetido, por várias vezes, à tortura do sono e chegou a estar seis meses numa cela completamente isolado.

No seu percurso político foi chefe de gabinete do ministro Francisco Pereira de Moura no primeiro Governo Provisório depois da revolução. Foi eleito deputado da Assembleia da República pelo distrito de Setúbal e desempenhou o cargo de vereador na Câmara Municipal de Setúbal e de Lisboa.

Como jornalista foi chefe de redação da Vida Mundial, redator e coordenador do jornal O Século e chefe de redação do semanário comunista Avante!, oficialmente, de 1974 até 1995. Como o partido, também o jornal tinha de ser distribuído na clandestinidade, só passando a ser impresso legalmente após o 25 de abril. Ruben de Carvalho ainda foi cronista em diversos jornais portugueses, entre eles, no Diário de Notícias e manteve na RDP1 o programa de rádio Radicais Livres, no qual discutia temas da atualidade com Jaime Nogueira Pinto – um historiador considerado pouco democrático pelo PCP.

Além de jornalista, o histórico comunista foi autor de várias obras tanto de cariz político como cultural, como o Dossier Carlucci-CIA, um livro sobre o embaixador dos EUA em Lisboa após a queda do Estado Novo, e As Palavras das Cantigas, em que organizou uma obra póstuma de José Carlos Ary dos Santos.

 

Para lá do comunismo

Para uns um camarada e um grande jornalista, para outros um homem da música com um sentido de humor fora do comum. Certo é que o antigo dirigente comunista é descrito por todos como um homem que marcou gerações e que transcendeu o símbolo do espírito do comunismo em Portugal.

“Ruben de Carvalho abraçou, durante toda a sua vida, a luta pelo projeto do partido que o animava, que o acompanhou durante toda a sua vida, e é neste quadro que podemos dizer que era um homem de projeto, um homem que lutou pela liberdade, pela democracia, que tinha o seu projeto de luta pelo fim da exploração do homem pelo homem, na luta pelo socialismo e pelo comunismo”, destacou Jerónimo de Sousa.

Mas se esta terça-feira a família do PCP se remeteu ao luto, também se encontrou unida com os outros grupos parlamentares que recordaram Ruben de Carvalho como um protagonista de relevância incontornável na história da política portuguesa. “Foi uma figura superior da política portuguesa, da cultura portuguesa. Um adversário que nos merece muitíssimo respeito. E, além disso, uma pessoa sempre afável e sempre simpática”, recordou o deputado centrista Telmo Correia.

 O primeiro-ministro também prestou as suas condolências ao único membro – vivo até ontem – do Comité Central do PCP que tinha estado preso nas cadeias da PIDE durante o Estado Novo. António Costa referiu que Ruben de Carvalho “seduzia adversários” e que era um “homem de cultura e inteligência política invulgares”. O governante ainda focou que, a nível pessoal, perdeu um amigo. “Ruben de Carvalho era, antes de mais, um amigo, numa amizade que construímos nos seis anos de intenso convívio na Câmara Municipal de Lisboa”, lembrou.

Na sua nota de pesar, o Bloco de Esquerda sublinhou que o o homem cujo nome “ficará sempre ligado à festa do Avante!” era mais que um militante do PCP, era um “militante da democracia e da liberdade”.

Marcelo Rebelo de Sousa também não deixou de fazer referência ao comunista, resumindo o sentimento manifestado por muitos: “Ruben de Carvalho deixa um rasto de saudades em todos quantos tiveram o privilégio de partilhar a sua afabilidade de trato e reconhecer o seu empenhamento profundo na defesa das causas em que acreditava”.

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