18/8/19
 
 
Maria Helena Magalhães 12/06/2019
Maria Helena Magalhães

opiniao@newsplex.pt

Desfiando a manta…

A prometida revitalização do interior não se contenta com discursos de intenção, exige respeito pelas gentes e pelas terras

Está a decorrer em Gaia, de 20 de Abril a 20 de Julho, a 3.a Bienal Internacional de Arte Gaia 2019 que, de acordo com as notícias publicadas, pretende “reafirmar Vila Nova de Gaia como a cidade das artes”, responsável pela organização dixit. E ainda que se trata de “uma exposição antológica de homenagem ao escultor Zulmiro de Carvalho (…) grande figura a nível nacional e um nome enorme da escultura contemporânea”, patente na Quinta da Fiação, em Lever.

Motivo mais do que suficiente para suscitar interesse na visita, o que aconteceu na semana passada, mas… demos com o nariz na porta. Chegados ao local, deparámos com o sítio fechado, e no painel da entrada nenhuma referência a dias ou horário de funcionamento. Assim, demos meia-volta e adeus exposição – depois descobriu-se que só abre da parte da tarde; foi privado da visita quem, se devidamente informado, lá teria voltado nesse mesmo dia. Falha escusada! Todavia, não se perdeu tudo, pelo contrário, pois a Quinta da Fiação, um conjunto diversificado de edifícios, é um belo exemplar da arquitectura industrial do séc. xix. A explorar.

Este desacerto foi a oportunidade para dar um pulo ao Parque das Ribeiras do (rio) Uíma – afluente do Douro –, lá para as bandas de Santa Maria da Feira. Trata-se de uma extensa várzea, várias zonas húmidas, mata frondosa de salgueiros, maioritariamente, carvalhos, choupos, etc., basto coberto ripícola e variedade de espécies animais – um pequeno santuário de biodiversidade! Percorre-se ao som alegre da passarada, do marulhar dos regatos e do rumorejar da folhagem, nos passadiços de madeira, sombreados e semeados de pousos; estica-se o corpo, embala-se o espírito, e somos invadidos pelo torpor do sossego que ali se respira.

Ora, mesmo num dia de semana, é curioso ver que há muita gente a deambular, apesar de o parque ficar fora de mão. Prova de que a natureza é apelativa; a questão é proporcionar condições de fruição sem ser preciso trepar por montes e valados e apanhar uma suadeira para alcançar o bosque. Tanto bastaria, sem grande restolho ou gasto, para restituir vida e animação de visitantes a tantos cantinhos por essas aldeias fora, condenadas ao abandono porque deixadas ao descaso e à solidão de velhos desamparados.

A prometida revitalização do interior não se contenta com discursos de intenção, exige respeito pelas gentes e pelas terras, ao invés de esquecimento e desatenção; interpela a insofismável geografia dos votos, interesseira, e deixa caminho aberto para a morte lenta da coesão nacional, já tão esfarrapada. E pior, contribui para o desamor à terra de origem, à migração para paraísos onde tantas vezes a vida esmigalha os sonhos e a sanha do consumismo desenfreado, metido pelos olhos adentro, amarfanha os dias e sufoca o direito ao descanso.

E gente desapegada dos seus, mergulhada na lufa-lufa quotidiana, gente desencantada e zangada com a política não se liga ao destino do colectivo: é a tribo da abstenção. É o grito da cidadania agonizante que, se nada for feito por quem pode e deve para a curar, vai entrar num coma de que pode não sair ou, então, nunca superar as sequelas. E uma qualquer tirania entra e senta-se-nos em cima.

 

Gestora

Escreve quinzenalmente, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

 

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