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10 de junho de 1965. Brasas rubras refletiam-se nas águas da ria

10 de junho de 1965. Brasas rubras refletiam-se nas águas da ria

DR Afonso de Melo 11/06/2019 22:50

Ao início da noite de dia 10, Dia da Raça, os que vinham das praias da Barra e da Costa Nova, aproveitando o feriado, depararam-se com o edifício da sede do Beira- -Mar em chamas. O centro da cidade estava em risco e a nortada empurrava o fogo

Eram oito horas da noite e as pessoas regressavam a casa depois de uma tarde de feriado gozado nas praias da Barra e da Costa Nova. De súbito, a estridência das sirenes fez estalar o sossego de Aveiro. Um arrepio de susto perpassou por alguns dos que caminhavam, aproveitando o sereno, ao longo das margens da ria. O Rossio tornou-se efervescente. Uma inquietação coletiva fazia-se sentir. Gritos de “fogo!” espalharam-se de boca em boca, houve quem corresse não sabendo bem para onde, duvidando do que fugia verdadeiramente.

Na corporação dos bombeiros, a preocupação aumentava a olhos vistos. O edifício que ardia, a sede do Sport Clube Beira-Mar, o mais emblemático da cidade, albergava por cima uma garagem, a Garagem Trindade, e havia nas traseiras uma concentração considerável de reservatórios de combustível. A desgraça anunciava-se.

No primeiro piso, com a fachada de frente para a Avenida Lourenço Peixinhos, estabelecimentos como uma casa de modas e um ateliê fotográfico pareciam condenados. As chamas progrediam. O edifício vizinho da Capitania rapidamente absorveu as línguas flamejantes que o vento forte ia propagando. Inconsolável, um funcionário da garagem tentava explicar à força de combate às chamas o que poderia ter acontecido para que a tragédia tivesse início. Uma espessa nuvem de fumo, que se libertara por entre as telhas do último andar, chamara-lhe a atenção e contactara imediatamente o proprietário da garagem. Tarde demais. O centro histórico de Aveiro, com os seus prédios de estilo art nouveau, estava em risco.

À medida que a noite ia caindo, a nortada acentuou-se. Nada como o vento para ser amigo e aliado do fogo. Entendem-se como se fossem filhos gémeos da mesma mãe natureza. E destroem tudo à sua passagem. Os prejuízos já eram avultados. Valia que, por via de uma seca recente, os serviços municipalizados de água tinham imposto uma série de restrições ao fornecimento e havia, ao dispor dos bombeiros, alguns tanques repletos para as emergências. E poucas emergências seriam tão graves como aquela.

 

Dia da Raça As águas da ria pareciam arder ao longo dos canais. Comemorava-se, como sempre, o Dia da Raça. O Rossio recebera a visita de uma numerosa delegação da Liga dos Combatentes e fizera-se uma homenagem sentida aos militares caídos na Guerra do Ultramar.

Em Aveiro há duas corporações de bombeiros, conhecidas por Bombeiros Velhos e Bombeiros Novos. Não houve lugar a distinções. Todos saíram dos quartéis na tentativa de bloquear o avanço calamitoso do incêndio. Os dirigentes do Beira-Mar que surgiram no local levavam as mãos à cabeça, desesperados, por verem em perigo a riqueza da memória do clube e as dezenas de troféus e lembranças guardadas na sede. Os soldados também atuaram no seu ofício de conter a multidão que, movida pelo medo e pela curiosidade, entrava num caos preocupante. Finalmente, o vento sossegou a sua rajada de nervos e permitiu que a água dominasse o fogo. Edifícios fumegantes exibiam centelhas na escuridão da madrugada. As brasas ainda rubras refletiam-se no Cais do Cojo e no canal principal. Das janelas da Assembleia Municipal debruçavam-se as últimas testemunhas das horas de pavor.

 

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