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Carlos Guimarães Pinto. “Queremos ser o PAN dos contribuintes”

Carlos Guimarães Pinto. “Queremos ser o PAN dos contribuintes”

Luís Claro 11/06/2019 19:06

Presidente da Iniciativa Liberal diz que PSD e PS “são muito parecidos” e quer fazer “chegar a voz e a visão liberal ao Parlamento”

Carlos Guimarães Pinto está à frente da Iniciativa Liberal há menos de um ano e acredita que conseguirá eleger deputados nas próximas eleições legislativas  Quer ser uma espécie de PAN dos contribuintes e recusa a “retórica que andamos a ouvir há 40 anos” de que “uma política liberal deixa as pessoas abandonadas”. 

Como olha um líder de um partido novo para os partidos tradicionais?

Falta-lhes uma matriz ideológica consistente e coerente. Já se alternam no poder há demasiado tempo para que se evidenciem diferenças ideológicas entre eles. Hoje em dia notam-se mais diferenças ideológicas entre quem está no Governo e na oposição do que propriamente diferenças entre os partidos. O caso dos professores mostra isso.

O PSD e o PS são parecidos?

São muito parecidos. Costumo dizer, em forma de brincadeira, que só temos partidos socialistas no parlamento. São os socialistas internacionalistas do PCP e do Bloco de Esquerda, os sociais-democratas do PS e do PSD e o socialismo beato do CDS. Todos têm a mesma forma de ver o Estado e depois diferenciam-se em pequenas questões nos costumes. As diferenças são muito escassas. Claro que há pessoas boas e más em todos os partidos. O PS tem um lastro de casos problemáticos. 

Está a falar dos problemas com a justiça?

O processo Marquês circula muito em volta de pessoas do PS. Tem um lastro de casos e, hoje, os partidos de regime são muito isso. Podemos excluir o BE e o PCP, que se têm protegido destes casos, mas que têm ideologias perigosas. 

Ideologias perigosas em que sentido?

Basta olharmos para os países que colocaram em prática estas ideologias, como a Venezuela, Cuba ou a Coreia da Norte... É incrível que um partido que não tem a coragem de se distanciar de algo como a Coreia do Norte consiga ter 7% ou 8% dos votos. É inacreditável. É algo que choca. São claramente ideologias perigosas.

Não admite que as pessoas votam no PCP porque defende, por exemplo, mais condições para os pensionistas, os funcionários públicos...

Tenho tido algumas discussões com funcionários públicos sobre estas questões e digo-lhes isto: todos os favores que vocês acham que recebem de partidos como o PCP e o Bloco de Esquerda são temporários e vocês vão pagá-los a dobrar no futuro. Dou o exemplo da Irlanda, que estava ao nosso nível de desenvolvimento e, a certa altura, decidiu fazer cortes e alterar a forma como o Estado financia os serviços públicos. Hoje em dia gasta mais em serviços públicos do que nós gastamos e as pessoas têm salários mais altos, incluindo os funcionários públicos. 

Portugal também aplicou medidas de austeridade muito pesadas...

Nunca decidimos reduzir o peso do Estado. É preciso fazê-lo num período bom, e não num período de crise. O Estado pode fornecer um conjunto grande de serviços, mas não pode impedir que a economia cresça. Quando a Irlanda tomou essa decisão, a economia cresceu e também cresceu a qualidade dos serviços públicos. 

Fazem falta mais partidos no Parlamento?

Sou suspeito, mas é evidente que fazem falta mais partidos. Há duas formas de ter representatividade das ideologias: ou fazer como nos Estados Unidos, em que só existem dois partidos, mas são partidos brutalmente abertos - o PSD e o PS não são partidos abertos -; ou então o contrário, que é ter muitos partidos que representem a complexidade que efetivamente o sistema político deve ter. O PAN provou isso. 

O PAN tem causas muito concretas.

Isso faz sentido. As preocupações das pessoas não se restringem a um eixo esquerda-direita.

A Iniciativa Liberal é claramente de direita...

Não. A Iniciativa Liberal é claramente liberal. Tenho todo o respeito pela defesa dos animais, mas antes da defesa dos animais fazia falta um partido que defendesse os contribuintes de forma intransigente.

O programa do partido refere que a justiça protege as elites. As pessoas com mais poder são protegidas pela justiça?

A forma como a justiça funciona tende a proteger quem tem mais capacidade de se defender e de encontrar atalhos para se proteger. Este sistema favorece claramente quem tem mais capacidade e essa é apenas uma componente do atual sistema que protege as elites. É preocupante que o processo Marquês não tenha servido para renovar as elites políticas. Temos um problema grave de falta de capacidade de produzir novas elites. O país precisa de atrair as pessoas que estão afastadas da política, pessoas que são competentes mas que têm nojo da política. Tenho pessoas a trabalhar comigo que tinham horror à política. Se formos incapazes de criar uma nova elite política, vamos estar sempre a cair na armadilha da velha elite política.

Qual é a opinião que tem sobre este Governo de esquerda?

Este Governo limitou-se a aproveitar os bons ventos da conjuntura económica para conseguir manter contas equilibradas. O país está a crescer de forma miserável e continua sem políticas de futuro. Estamos completamente impreparados. Se hoje ocorresse uma crise semelhante à que houve em 2008, nós teríamos exatamente o mesmo problema. Não nos preparámos nada para isso. Devíamos ter tido crescimentos económicos mais altos. Houve países na mesma situação que nós, como a Irlanda e a Espanha, que cresceram mais do que Portugal. Devíamos ter crescido mais e devíamos ter aproveitado os bons ventos da economia para fazer aquelas reformas mais complicadas.

Que reformas são essas?

A primeira questão é reformular as carreiras da função pública. É importante reformular a forma como se fornece os serviços públicos, descentralizar o Estado...

A reforma do Estado passa por despedir funcionários públicos?

Depende daquilo a que chama despedir os funcionários públicos. Ser médico no privado ou no público é indiferente. Se passar de um hospital público para um privado, deixa de ser funcionário público, mas não passa a ser desempregado. A mesma coisa com os professores. Uma das grande reformas é a privatização de algumas empresas públicas. O setor empresarial do Estado é demasiado grande e toca em demasiados setores, o setor dos transportes, por exemplo. Não percebemos o que ganharam os contribuintes em manter uma parte da TAP pública. Não ganhámos nada.

Quantos militantes tem a Iniciativa Liberal?

Devemos estar a chegar aos 400. Não temos um critério de entrada tão livre como os outros. Queremos que as pessoas sejam militantes a sério e se envolvam. Não queremos ter milhares de militantes que se limitam a assinar uma ficha. Temos uma quota relativamente alta porque queremos financiar-nos o mais possível.

Qual é o valor da quota?

60 euros por ano. Vinte euros para estudantes, mas também há algumas pessoas que optam por pagar mais.

Os militantes da IL são pessoas mais novas?

A média etária deve andar bastante abaixo dos outros partidos, à volta dos 33 ou 34 anos. 

Com ou sem experiência política?

A esmagadora maioria não teve nenhuma experiência. A minha ideia sempre foi trazer pessoas que até aqui tinham algum horror a entrar num partido, pessoas capazes nas suas áreas mas que tinham reservas em relação a juntar-se a um partido. A nossa prioridade é captar pessoas que possam dar contributos interessantes nas suas áreas, e não pessoas com experiência de máquina partidária. 

A palavra liberal não assusta as pessoas?

Isso resulta da retórica que andamos a ouvir há 40 anos. O que andamos a ouvir é que uma política liberal deixa as pessoas abandonadas. Se não tiverem dinheiro não têm acesso a tratamentos. Não é nada disso. Nós queremos é devolver a liberdade e a escolha às pessoas. Não queremos que as crianças deixem de ter acesso à educação. Queremos que os pais possam escolher a escola. Queremos que as pessoas possam escolher o hospital que lhes vai prestar um determinado serviço de saúde. Queremos que o Estado não esteja onde não pertence e, com isso, reduzir a carga fiscal. O nosso principal objetivo é que as pessoas percam esta objeção automática ao liberalismo. Liberalismo é devolver o poder do Estado às pessoas.

Acredita, tendo em conta o resultado das europeias, que nas legislativas pode eleger deputados?

Sim, claro. Já fizemos mais de metade do caminho para esse objetivo. No próprio dia das eleições, o reconhecimento da Iniciativa Liberal aumentou bastante, o que nos ajudará a melhorar o resultado das legislativas e a acreditar que será possível fazer chegar a voz e a visão liberal ao Parlamento.

Prefere ficar na oposição ou participar numa solução de Governo se conseguir eleger deputados?

Não temos interesse em participar em soluções de alternância. Vamos lá para defender ideias liberais e reformistas. Queremos defender o contribuinte. O André do PAN está lá para defender os animais e nós queremos estar lá para defender os contribuintes. Nós somos o PAN dos contribuintes. É isso que nós queremos ser.
 

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