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O primeiro 10 de Junho depois de Abril

O primeiro 10 de Junho depois de Abril

Ana Petronilho 10/06/2019 17:16

Há mais de 130 anos que o país assinala a data da morte de Camões. Mas só em 1977 os festejos do 10 de Junho passaram a ter os contornos de hoje. Nesse ano, a Guarda, distrito de origem da maioria dos emigrantes, foi o palco escolhido pelo então Presidente da República, Ramalho Eanes, para celebrar o Dia de Portugal. Foi recebido em apoteose.

O 10 de Junho é assinalado há mais de 130 anos, desde 1880, ano em que o Rei D. Luís i assinou um decreto das Cortes Reais para que se celebrassem os 300 anos da data apontada pelos historiadores para a morte do poeta Luís de Camões. Mas só em 1977 as cerimónias ganharam os contornos que hoje existem, passando a correr o país.

Pelo meio, o 10 de Junho – hoje classificado como Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades – foi assinalado como Dia de Camões e como Dia da Raça, e durante alguns anos, os que se seguiram à Revolução de Abril, as cerimónias oficiais chegaram a estar interrompidas. Por causa da forte associação do feriado à ditadura – que classificou o dia como Dia da Raça –, durante três anos, entre 1974 e 1977, as celebrações foram apenas pontuais.

 

1977, na guarda Numa altura em que se vivia alguma conturbação política e em que as palavras emigrante ou saudade faziam parte do dia-a-dia dos portugueses, a cidade da Guarda foi escolhida para ser o palco das primeiras cerimónias do 10 de Junho pós-25 de Abril.

Entre os cerca de 1,5 milhões de emigrantes, a Guarda era o distrito de origem da maioria dos portugueses que, anos antes, tinham decidido ir além-fronteiras à procura de trabalho. Era também ali que se encontrava uma grande concentração de retornados, escreveu na altura o Diário Popular. E terá sido sobretudo esta a razão que levou o então Presidente da República, Ramalho Eanes, acompanhado pela mulher, Manuela Eanes, a decidir assinalar o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades na Guarda.

Nas cerimónias marcaram ainda presença o então primeiro-ministro Mário Soares, que liderava o i Governo Constitucional e que, segundo o Diário Popular, foi recebido com um coro de assobios, ouvindo-se gritar “vai-te embora”. Entre 1910 e 1911, o pai de Mário Soares tinha sido governador civil do distrito, havendo algumas ligações da família à cidade da Guarda, o que não impediu que a população manifestasse o seu descontentamento.

A receção de Soares, cuja figura nem sempre era reconhecida pela população, escreveu o jornal, contrastou com a de Ramalho Eanes, que o vespertino descreveu como tendo sido acolhido com “espontânea simpatia”. Foram milhares de pessoas que se deslocaram às ruas da Guarda a agitar bandeiras. Era o dia “mais representativo destas comemorações, pois que se aguardavam os elementos de todo o Governo e outras autoridades representativas do Poder, em que todo o povo de todo o distrito, especialmente o povo trabalhador, e por consequência o mais humilde, se havia de deslocar à cidade para ver na pessoa do Presidente da República o homem em quem confiam e os retirará do esquecimento de meio século a que foram votados”, retratou o jornalista do Diário Popular.

O ambiente de apoteose foi tal que levou mesmo à queda das grades metálicas que se encontravam em frente do edifício da câmara municipal, enquanto o Presidente da República e a primeira-dama se encontravam dentro das instalações – episódio simbólico que Eanes associou a um “desbloqueamento” e a um abrir de “portas ao povo que quebrou as grades que existiam entre o povo e o Poder”.

Conselho da Revolução nas cerimónias A sessão solene decorreu no Liceu da Guarda e as cerimónias foram organizadas por uma comissão presidida pelo conselheiro da revolução major Vítor Alves, a quem coube controlar as festividades. Vítor Alves aproveitou ainda para ler, na presença do Governo e do Presidente da República, uma mensagem do Conselho da Revolução que frisava: “Temos de ser fiéis ao 25 de Abril”.

Da equipa do Governo em funções à data marcaram presença os ministros da Administração Interna, Manuel da Costa Brás, da Justiça, António de Almeida Santos, ou o da Educação e Investigação Científica, Mário Sottomayor Cardia. Integravam ainda a comitiva o ministro sem pasta Jorge Campinos, o secretário de Estado João de Lima, os governadores civis de vários distritos e o então presidente da Câmara da Guarda, Abílio Aleixo Curto. O autarca aproveitou a ocasião para salientar que era uma honra para a Guarda receber a “mais ilustre embaixada” de que tinha “lembrança”, não deixando de sublinhar que “o maior contingente de remessas dos emigrantes” se encontrava “depositado nos bancos” da cidade.

Além dos governantes, também o escritor Jorge de Sena, que vivia há vários anos nos Estados Unidos, discursou durante a sessão solene.

Cidades que foram palco do 10 de junho:

• 1977 – Guarda

• 1978 – Portalegre

• 1979 – Vila Real

• 1980 – Leiria

• 1981 – Funchal

• 1982 – Figueira da Foz

• 1983 – Lisboa

• 1984 – Viseu

• 1985 – Porto

• 1986 – Évora

• 1987 – Lisboa

• 1988 – Covilhã

• 1989 – Ponta Delgada

• 1990 – Braga

• 1991 – Tomar

• 1992 – Lisboa

• 1993 – Sintra

• 1994 – Coimbra

• 1995 – Porto

• 1996 – Lagos

• 1997 – Chaves

• 1998 – Lisboa

• 1999 – Aveiro

• 2000 – Viseu

• 2001 – Porto

• 2002 – Beja

• 2003 – Angra do Heroísmo

• 2004 – Bragança

• 2005 – Guimarães

• 2006 – Porto

• 2007 – Setúbal

• 2008 – Viana do Castelo

• 2009 – Santarém

• 2010 – Faro

• 2011 – Castelo Branco

• 2012 – Lisboa

• 2013 – Elvas

• 2014 – Guarda

• 2015 – Lamego

• 2016 – Lisboa

• 2017 – Porto

• 2018 – Ponta Delgada

• 2019 – Portalegre

 

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