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Os livros que os marcaram em miúdos

Os livros que os marcaram em miúdos

Jornal i 09/06/2019 14:52

Férias podem ser sinónimo de leitura. Há quem ache até que a praia não sabe ao mesmo sem um livro a acompanhar, debaixo do braço. E todos temos páginas que nos marcam. Que nos abriram os horizontes e que são especiais. Numa época em que o papel está cada vez menos presente na vida dos mais novos e o delicioso cheiro a livros está esquecido, o i pediu a Herman José, Alice Vieira, Rui Reininho, Maria Mota, Vitor Sobral, Joana Mortágua, Pedro Mexia, Ana Bacalhau e Ljubomir Stanisic para recordarem as leituras que os marcaram na infância. Os livros de aventuras são as escolhas prediletas da maioria. Aqui ficam os títulos e as memórias, em jeito de sugestão. 

 

Herman José - Humorista

“Por ter andado na Escola Alemã de Lisboa desde os quatro anos, o meu autor fetiche foi Wilhelm Busch”, recorda Herman José. “As suas primeiras histórias ilustradas datam de 1859 e têm como protagonistas dois jovens quase delinquentes de seus nomes Max und Moritz, uma espécie de Beavis and Butthead, mas em mais perverso, que infernizavam a vida aos habitantes da aldeia onde viviam. Acabavam por pagar as suas travessias com castigos e acidentes terríveis, mas renasciam de história para história à semelhança dos desenhos animados do Wile E. Coyote and the Road Runner.” A ligação perdurou no tempo.

“A sua influência em mim foi tão forte, que ainda hoje sei de cor algumas passagens em verso.” 

Alice vieira - Escritora

“A Princesinha, de Frances Burnett, ajudou-me muito a superar uma infância muito complicada, e ainda hoje não esqueço aquela frase que ela dizia e eu repetia: ‘Mesmo em tempo de grande infelicidade, nunca percas a dignidade e o requinte…’”, lembra Alice Vieira. Mas o livro que mais influenciou a escritora foi Clarissa, de Érico Veríssimo. “Pela primeira vez entendi que era possível escrever uma história quase sem história: as sensações, os cheiros, o vento nos cabelos, os primeiros sons da manhã vindos das janelas abertas. Foi tão importante para mim que ainda hoje tenho a fotografia do Érico Veríssimo, que o filho me ofereceu, diante do meu computador. Acho que foi ele que me levou à escrita.”  

Rui Reininho - Músico

As Aventuras do Barão de Munchausen destacam-se nas leituras do vocalista dos GNR. “Foi o livro que mais me marcou porque, de facto, foi descobrir que o mundo não era a preto e branco”, explica. “Depois veio o filme, de aventuras.” O livro está cheio de “imposturas deliciosas”, descreve. “Como dizia o professor Agostinho da Silva, a escola estraga os meninos porque estraga a imaginação toda. Aqueles livros não. Cada um lia o seu e ficava na cabeça.” Havia “quase um segredo” escondido em cada aventura, que começou a desvendar aos sete, oito anos. “Aprendemos todos a ler pela mesma cartilha”, lembra, explicando que os livros o fizeram fugir  da “massa acéfala”. Não era moda. “Nenhum amigo meu gostava” das histórias, acrescenta.

Maria Mota - Investigadora

A coleção Patrícia, de Julie Campbell Tatham, era a sua favorita. “A Patrícia era uma rapariga dos Estados Unidos. Vive meio no campo, meio nos subúrbios da cidade. Nas histórias alguém roubava coisas; entravam em casas abandonadas”, diz Maria Mota, lembrando que os livros mostravam “uma juventude muito livre. Saíam de manhã e só voltavam à noite para casa”, recorda a cientista. “Fizeram-me pensar que era fantástico. Marcaram pela diferença da vivência entre aqueles miúdos e a minha. Fizeram-me ver um mundo diferente. Sou de uma família muito conservadora.” Há outro aspeto curioso: teve sempre a sensação de estar a ler algo daquela altura, quando a coleção já era dos anos 50.

Vítor Sobral - Chefe

“O livro que me marcou mais na infância foi o Papillon de Henri Charrière e em adulto foi o Equador do Miguel Sousa Tavares”, conta Vítor Sobral. “Sempre li muito. Sempre li tudo e calhou ler esse. Li e marcou-me, pelas vicissitudes da personagem. Ele é preso. É um jovem que passa a vida toda a tentar fugir.” O Papillon marcou o chefe por este motivo e por “todas as aventuras” que eram relatadas. O livro foi publicado em 1969 e, em 2017 saiu a versão adaptada aos grandes ecrãs. O filme, que conta a história do livro autobiográfico francês, foi realizado por Michael Noer. “Hoje em dia leio mais em inglês, romances históricos”, acrescenta o chefe. 

Joana Mortágua - Deputada

“Houve uns anos da minha vida, algures entre ter aprendido a ler e a adolescência, em que li dezenas de livros. Lia tudo a que pudesse jogar a mão”, lembra Joana Mortágua. A estante era ocupada pelas coleções d’Os Cinco e d’Os Sete. A esses livros, que eram da mãe, juntaram-se Uma Aventura e O Clube da Chaves. “O hábito de ler antes de dormir, ganhei-o com as histórias contadas pelos meus pais quando nos iam deitar. Desses livros ficaram memórias mais difíceis de recuperar, mas recordo o entusiasmo pelas Viagens de Gulliver. Lá pelos 13 anos, O Meu Pé de Laranja Lima impressionou-me a sério”, explicou. Incutiu-lhe o gosto pela literatura neorrealista brasileira, que mantém.  

Pedro Mexia - Escritor

“Sou de uma geração que é talvez a última que começou a ler basicamente os mesmos livros que os pais, e até os avós, leram na infância e juventude”, lembra Pedro Mexia. Marca-o Hergé e depois de Júlio Verne. “O primeiro ainda era muito popular no início dos anos 1980, o segundo possivelmente já não, mas eram os livros que me ofereciam, que havia em casas de família, que me despertavam a curiosidade.” Histórias vivas até hoje, como o “aventureirismo fantasioso, inocente, de um repórter que andava entre o Império de Habsburgo e a chegada à Lua, acompanhado de bons sentimentos, comparsas patuscos e onomatopeias; e aqueles sábios de salão ou de botas no terreno que subiam em balão, desciam em submergíveis ou passavam dois anos de férias.” 

Ana Bacalhau - Cantora

Lembra-se de ler todos os dias, antes de ir dormir, uma história do livro 365 Histórias de Encantar. “E, como menina bem-mandada, lia a história que correspondia ao dia do ano. Uma história para cada dia do ano, era essa a premissa do livro. Podia ser em verso, prosa, um conto, uma história. Todos os dias era diferente. Foi o livro que mais me marcou quando comecei a saber ler, de tal forma, que andei à procura de edições mais recentes para oferecer à minha filha e ela poder desfrutar destas histórias todas como eu desfrutei”, conta Ana Bacalhau. Mais tarde, veio o Rosa, Minha Irmã Rosa, de Alice Vieira, que foi responsável pelo “gosto por ler histórias inventadas e por Literatura”.

Ljubomir Stanisic - Chefe

“O livro que mudou a minha vida completamente foi o Post Office do Charles Bukowski. Na altura não tinha pai, estava a sair da guerra da Jugoslávia e mudei-me para a Sérvia. Era assim um miúdo mal comportado.”, conta o chefe Ljubomir Stanisic. “Desde aí, comecei a ler, a ler muito. Li-o para aí umas cinco vezes.” Para o chefe, as páginas que saíram em 1971 marcaram-no “pela linguagem e maneira de estar na vida” que transmitiram. “Era [uma escrita] realista”. Já em criança, mais pequeno, Ljubomir recorda que um dos primeiros livros que leu foi O Pequeno Príncipe, ou O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry. “Era um livro mágico, que tinha a magia da lua e do sol”. 

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