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Guerra entre Governo e empresa por causa de prémios da TAP

Guerra entre Governo e empresa por causa de prémios da TAP

Bruno Gonçalves Sónia Peres Pinto 07/06/2019 11:15

Executivo fala em “quebra de confiança” e de “situação incompatível com os padrões de sobriedade”, mas companhia aérea justifica com “programa de mérito”. Presidente da comissão executiva da TAP promete pagar novos prémios em 2020, referentes a este ano.

A relação de confiança entre a TAP e o Governo está quebrada. É desta forma que o ministro das Infraestruturas e da Habitação reagiu à notícia avançada esta quinta-feira pelo i sobre os prémios de 1,17 milhões de euros atribuídos a 180 pessoas, apesar de a empresa ter registado um prejuízo de 118 milhões de euros no ano passado. Esta situação levou o Executivo a convocar uma reunião com caráter de urgência com o conselho de administração “para esclarecimento de todo o processo e para análise do dever de informação a que estão obrigados nos termos do acordo parassocial e nos termos da legislação em vigor”.

Tal como o i revelou, um dos bónus mais elevados foi pago ao administrador da companhia aérea, Abílio Martins, no valor de 110 mil euros. O mesmo montante foi recebido pelo chief revenue officer da TAP, Elton D’Souza.

“O Ministério das Infraestruturas e da Habitação discorda da política de atribuição de prémios, num ano de prejuízos, a um grupo restrito de trabalhadores e sem ter sido dado conhecimento prévio ao conselho de administração da TAP da atribuição dos prémios e dos critérios subjacentes a essa atribuição, não se revendo na conduta da Comissão Executiva, que agiu em desrespeito dos deveres de colaboração institucional que lhe são conferidos”, referiu Pedro Nuno Santos, na sua página de Facebook, acrescentando que o “Governo e os representantes do Estado no conselho de administração da TAP tomaram conhecimento desta decisão, já consumada com o processamento dos salários referentes ao mês de maio, pelos órgãos de comunicação social”.

E deixou um alerta: “Este procedimento por parte da Comissão Executiva da TAP constitui uma quebra da relação de confiança entre a comissão executiva e o maior acionista da TAP, o Estado português”.

Também António Costa considerou o modelo de distribuição de prémios decidido pela comissão executiva da TAP “incompatível com os padrões de sobriedade” que devem existir em empresas participadas pelo Estado, referiu no debate quinzenal. E quando questionado pelo líder parlamentar do PSD, Fernando Negrão, se tinha valido a pena ter levado a cabo a reversão da privatização da TAP por “uma bandeira ideológica”, o primeiro-ministro disse apenas que não se tratava de “uma questão ideológica, mas de proteção de soberania nacional”, considerando que um país com a localização geográfica e a dispersão da diáspora como Portugal tem de ter uma companhia aérea nacional.

 

Sindicatos de costas voltadas

O Sindicato dos Tripulantes de Cabine diz-se surpreendido pela situação relativa aos prémios, alguns deles muitíssimos elevados. Luciana Passo refere ainda que devia ser transversal a distribuição dos prémios, até por uma questão de moralidade.

Também Paulo Duarte, coordenador do Sitava (Sindicato dos Trabalhadores da Aviação e Aeroportos), admitiu que estranhava “muito a TAP ter tomado essa iniciativa, que nunca foi prática habitual e que vai lançar a desigualdade entre trabalhadores pela falta de equidade”, visto que apenas alguns foram escolhidos. “Não entendemos isto tendo em conta que, num ano em que tivemos lucros [2017], os prémios foram distribuídos por todos” num valor igual, detalhou o dirigente sindical à Lusa.

 

TAP justifica prémios

O presidente da comissão executiva da TAP, Antonoaldo Neves, esclareceu ontem que o programa de prémios na empresa tem prevista a atribuição de prémios individuais e que estes “poderiam até ter sido maiores se a empresa tivesse gerado lucro” em 2018. “Esse plano de prémios poderia até ter sido maior se a empresa tivesse gerado lucro e não tem nada de errado com isso”, disse o responsável aos jornalistas à margem de um evento no Aeródromo de Cascais, em Tires, lembrando que a empresa defende uma cultura de meritocracia, gestão de empenho e entrega de resultados.

Antonoaldo Neves lembrou que o programa de prémios implementado na empresa – que resultou de acordos com os sindicatos do setor – tem três componentes (empresa, departamentos e desempenho individual) e que a componente dos resultados da empresa não foi paga a nenhum trabalhador conforme previsto, uma vez que a empresa obteve prejuízo em 2018. E deixou a promessa: em 2019 também haverá programa de prémios “para ser pago em 2020”, disse.

Segundo o presidente da TAP, foi o comité de moderação que definiu os critérios e atribuiu os prémios com base “nas melhores práticas de promoção e reconhecimento” que existem atualmente.

“O que entregámos no ano passado foi extraordinário e foi a componente individual e desempenho dos departamentos que fizeram um trabalho extraordinário”, reforçou Antonoaldo Neves, lembrando as adversidades que afetaram a empresa, nomeadamente ao nível da escalada do preço do petróleo. “Estou muito seguro daquilo que a TAP tem feito e de como tem evoluído. Os trabalhadores merecem”, disse.

Já em relação ao bolo pago e que ultrapassou um milhão de euros, o gestor disse que a TAP paga mais de 700 milhões de euros por ano e que o valor que os trabalhadores criaram para a empresa é de “centenas de milhões de euros”. E não tem dúvidas: a cultura de meritocracia é o que faz a empresa “crescer e gerar renda [rendimento] em Portugal” e é uma aposta para continuar. E acredita que a atribuição do programa de prémios não ameaçará a paz social na empresa, porque os trabalhadores e os sindicatos compreendem esta aposta.

 

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