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Jorge Jesus. Voo para o Rio com forte turbulência

Jorge Jesus. Voo para o Rio com forte turbulência

Laura Ramires 06/06/2019 22:37

Treinador português em grande destaque na imprensa brasileira. Há quem acredite que a viagem pelo comando técnico do Flamengo possa ser de curta duração; do outro lado, os que não duvidam que haverá um estádio inteiro a gritar pelo seu nome. A aventura tem partida marcada para amanhã.

Jorge Jesus viaja na sexta-feira para o Rio de Janeiro, mas nem o facto de ainda não ter atravessado o oceano Atlântico tem sido sinónimo de descanso para o treinador português, que foi anunciado no passado dia 1 de junho como novo treinador dos brasileiros do Flamengo.

Desde que foi oficializado como o sucessor de Abel Braga que o antigo treinador de Benfica e Sporting tem estado no centro das atenções da imprensa brasileira, com as opiniões a dividirem-se em relação à escolha feita por parte do clube presidido por Rodolfo Landim. Aliás, ainda antes de se ter tornado pública esta parceria luso-brasileira, válida, recorde-se, por um ano, as declarações de um jornalista brasileiro fizeram eco na imprensa desportiva internacional. Marco de Vargas, da Fox Sports Brasil, não poupou nas críticas à possibilidade de Jesus vir a ser o próximo treinador da equipa carioca, considerando mesmo que este não tinha currículo para orientar o clube rubro-negro. “Três títulos na porcaria do campeonato português?”, questionou o comentador no dia em que o técnico de 64 anos confirmou que iria reunir-se com o presidente do clube em Madrid.

Indiferente a opiniões alheias, Jorge Jesus viria mesmo a aceitar o desafio, explicando antecipadamente que o Flamengo “era um dos melhores clubes do mundo”. “O que me convenceu principalmente foi a grandeza do Flamengo. São quatro os clubes mais famosos do mundo: Flamengo, Boca Juniors, Barcelona e Real Madrid. Portanto, foi um dos motivos para eu aceitar, além de ganhar títulos. O Flamengo oferece-me a possibilidade de ganhar a Taça dos Libertadores e o Mundial de clubes. Fiquei muitos anos no Benfica e ganhei tudo. E esse é o objetivo maior que fez com que eu aceitasse este desafio”, sentenciou.

Foi, de resto, isso mesmo que o líder do clube confirmou durante o dia de ontem à imprensa brasileira. “O meu objetivo é ganhar tudo e isso é muito bom, porque o Jorge Jesus também me disse que quer ganhar tudo”, revelou Landim, adiantando que não tem dúvidas de que os adeptos vão gostar do estilo de jogo do técnico português. “Gosta de jogar para a frente, muito intenso. É assim que a torcida do Flamengo gosta de ver a equipa jogar. Ele é preocupado com os detalhes ao extremo”, explicou. Na mesma conversa confidenciou ainda outro detalhe interessante que confirma precisamente o lado minucioso do técnico amadorense. “Uma das maiores preocupações dele [Jorge Jesus] na conversa que teve comigo foi tentar entender qual o tamanho do relvado do Ninho do Urubu e da relva do Maracanã”, contou o responsável, aludindo ao centro de treinos do clube e ao histórico estádio do Rio de Janeiro.

O aviso e a certeza Apesar de já estar a estudar o plantel que irá ter ao seu dispor, Jorge Jesus só irá começar a trabalhar com a equipa no próximo dia 20. Até lá, o técnico vai ambientar-se à sua nova casa, marcando, de resto, presença no Estádio do Maracanã, no domingo (9 de junho), para assistir ao dérbi carioca com o Fluminense, referente à oitava jornada do Brasileirão, seguida da viagem para Brasília, onde na quinta-feira (13 de junho) o Flamengo irá defrontar o CSA, de Alagoas, na nona jornada. Após este encontro, o campeonato irá parar por causa da Copa América, que se realiza no Brasil até dia 7 de julho, pelo que Jesus entra em cena neste momento para começar a incutir a sua filosofia na equipa que na madrugada desta quarta-feira garantiu o apuramento para os quartos-de-final da Copa do Brasil ao vencer o Corinthians, por 1-0.

O Flamengo ocupa atualmente o quarto lugar na tabela do Brasileirão, com 13 pontos, a três do líder Palmeiras (16). O clube carioca está ainda nos oitavos-de-final da Taça Libertadores, nos quais vai defrontar os equatorianos do Emelec no final de julho. Uma missão espinhosa para Jesus, que tentará quebrar um jejum de dez anos no Brasileirão, prova que o Flamengo venceu pela última vez em 2009, ano em que o clube do Rio de Janeiro se sagrou pela quinta vez campeão do Brasil. De resto, o último troféu conquistado pelo emblema rubro-negro foi a Taça do Brasil na época 2012/13.

No currículo, o clube conta ainda com uma Taça dos Libertadores (1980/81) e uma Taça Intercontinental (1981/82).
Apesar de os troféus não abundarem no clube nos últimos anos, há quem alerte o técnico caso este esteja a pensar em proceder a mudanças radicais na equipa carioca. “Se [Jorge Jesus] quiser mudar o Flamengo, cai numa semana. Se quiser implantar as suas ideias da forma que fez na Europa, como trabalhou a vida toda, não dura uma semana. É muito diferente”, assegurou Pintado, técnico do São Caetano, que milita na série D, num programa da Fox Sports. “[Treinar no Brasil] é muito diferente. Ele não tem tempo para corrigir os problemas, a pressão da torcida que dificilmente tem em outro país, ele não conhece a característica do Flamengo, ele é competente, mas o futebol brasileiro é diferente do mundo todo. Nem há tempo para treinar”, continuou.

Para sustentar a sua teoria na dificuldade de adaptação de treinadores estrangeiros ao futebol brasileiro, Pintado recorreu ainda ao exemplo do treinador argentino Edgardo Bauza no São Paulo. “Trabalhei com o [Edgardo] Bauza: competente, muito legal o que ele fazia, mas ele reclamava, dizia que somos escravos do futebol, que não tem tempo de treinar, descansar, recuperar, jogos de 48 em 48 horas. Não existe isso no mundo. Se o [Jorge] Jesus quiser mudar isso no Flamengo, uma equipa que só tem um resultado, que não pode ser vice, tem que ser campeã, terá dificuldade. Isso leva tempo”, sentenciou.

Apesar das dúvidas aparentemente generalizadas em relação ao português, há também quem não tenha dúvidas de que Jorge Jesus será uma mais-valia para o Flamengo e para o futebol brasileiro. O treinador português Paulo Morgado, a trabalhar no Fast Clube, da quarta divisão do Brasil, disse à agência Lusa que o técnico vai trazer “muitos resultados positivos ao Flamengo”. Ainda assim, Morgado confirmou a existência de um certo preconceito em relação a treinadores estrangeiros. Este é um mercado “difícil, mais do que em Portugal, Espanha ou França”, porque há “muitos treinadores e muito preconceito”, mesmo para um técnico “titulado três vezes pelo Benfica, com outros títulos e que trabalhou na Arábia Saudita”, continuou o compatriota do ex-treinador do Al-Hilal. Apesar de ser “um treinador de excelência”, Jorge Jesus vai ter de lidar com um povo brasileiro “que ainda não tem essa noção” e uma imprensa “muito agressiva” que não conhece o português por não vir “de clubes como o Chelsea, o Real Madrid ou o Barcelona”. 

Também o ex-Flamengo César Martins se colocou ao lado do treinador português. O atual defesa do Santa Clara, que passou pelo Benfica de Jesus, sagrando--se campeão de Portugal (2014/15) e vencendo uma Taça da Liga (também em 2014/15), diz que Jorge Jesus “tem tudo para dar certo”. “Ele é muito inteligente e vai trazer um estilo de jogo mais tático, mas sempre buscando golo [...] Ele tem tudo para dar certo no Flamengo mas, para isso acontecer, os jogadores têm de abraçar as ideias dele, tanto dentro quanto fora de campo. É um treinador fantástico e os títulos conquistados por onde passou mostram a sua capacidade. O Jorge é reconhecido mundialmente, e não apenas em Portugal”, continuou. O antigo jogador do clube carioca foi ainda mais longe e deixou uma certeza: “Garanto que os torcedores vão cantar o seu nome no Maracanã”.

A segunda experiência fora de portas Este será o segundo desafio de Jorge Jesus fora de Portugal. O Al-Hilal foi, recorde-se, a primeira experiência além--fronteiras do antigo treinador de Benfica, Sporting e Braga. A aventura saudita terminou, de resto, de forma agridoce, apenas seis meses depois de ter chegado ao comando técnico do emblema de Riade, no verão de 2018. Apesar de ter sido uma passagem curta, de notar que o português não deixou a Arábia Saudita de mãos a abanar, trazendo consigo na bagagem uma Supertaça.
Espera agora alcançar novas vitórias no Flamengo, onde terá como adjuntos João de Deus, Mário Monteiro, Márcio Sampaio e Evandro Motta. 

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