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Etiópia. Afinal há vida no inferno

Etiópia. Afinal há vida no inferno

Dreamstime Rita Pereira Carvalho 06/06/2019 18:56

No deserto da Etiópia, onde os termómetros atingem os 60 graus, investigadores espanhóis encontraram novas formas de vida: são pequenas bactérias que, à primeira vista, parecem fossilizadas.

Irrespirável, mais do que quente e tem uma paisagem que parece não ser deste planeta – chama-se Dallol, é um vulcão e fica na Etiópia. Não é protagonista nos roteiros turísticos, até porque lá não existe nada além de lava, sal e água que fervilha até à eternidade.

Até há bem pouco tempo, as investigações eram muitas e os sinais de vida inexistentes. Mas, agora, o cenário mudou. Uma equipa de investigadores espanhóis do Centro de Astrobiologia de Madrid – que agrega o Instituto Nacional de Técnica Aeroespacial e o Conselho Superior de Investigações Científicas – encontrou vida num dos desertos junto ao vulcão Dallol. A descoberta foi publicada este mês na revista Nature Scientific Reports e descreve que, afinal, há vida onde menos se espera.

Neste lugar, os investigadores encontraram microestruturas que vivem enterradas dentro de depósitos minerais a 150 metros abaixo do nível da água do mar. É vida escondida, mas é vida. “É o lugar mais extremo que já se encontrou na Terra”, disse ao El País Felipe Gómez, investigador do Centro de Astrobiologia de Madrid e autor da descoberta. “Não só é o mais quente que se conhece como também é o mais ácido, tanto que [o pH] está abaixo de zero, fora da escala”, justifica.

Os dados agora divulgados são o resultado de uma investigação que começou há quatro anos. A equipa de investigadores, ao analisar os campos hidrotermais formados em Dallol, descobriram estruturas esféricas minúsculas e repararam que à sua volta se formava lentamente uma carapaça mineral, como se estivessem fossilizadas.

Para perceber se era mesmo vida o que estava à sua frente foram feitas análises moleculares que confirmam a existência de ADN ativo nas amostras – chama-se indicador de atividade biológica. “Encontrámos pelo menos duas espécies de bactérias e arqueobactérias [semelhantes às bactérias, encontram-se em ambientes com águas saturadas de sal ou fontes hidrotermais muito quentes] provavelmente novas”, adiantou o investigador. E explicou mais: “Uma delas pertence ao grupo das nanoarqueias halófilas. Trata-se de organismos esféricos com cerca de 50 nanómetros [milésimos de milímetro]”.

Tapetes de sal O sítio onde os investigadores espanhóis encontraram agora vestígios de vida tem muitas características que não podem ser deixadas de lado. O vulcão fica no deserto de Danakil, que está 120 metros abaixo do nível da água do mar. Por esta razão, criaram-se minerais com formas e cores incomparáveis que não existem noutras partes do mundo. A chuva é fenómeno atmosférico raro, razão pela qual o deserto de Danakil é o local mais quente do mundo, onde os termómetros marcam temperaturas médias de 32 graus, com máximas de 60.

Nos campos hidrotermais que rodeiam o vulcão Dallol há fontes termais e geisers, e estes campos são formados por magma que empurra o sal por quilómetros e quilómetros. Quando a água e a rocha em estado fundido se encontram, fazem com que o sal fique à superfície. Como o calor é intenso, a água evapora, apenas se conservando o sal.

Perto do vulcão, como já se percebeu, não há qualquer forma de vida à exceção daquela que acabou de ser descoberta. Mas a centenas de quilómetros vivem os afares – um povo com cerca de um milhão de pessoas. Vivem no Corno de África, que engloba o deserto de Danakil. Estas populações foram obrigadas a adaptar-se a temperaturas extremas e usam o sal – produto em abundância – como moeda de troca. Aliás, os afares precisam de caminhar durante uma semana para chegar ao mercado da Etiópia, para conseguirem comida e água. Para se perceber melhor, o sal é de tal forma abundante que o deserto de Danakil é coberto por um tapete de sal com dois quilómetros de espessura.

Um avanço para a vida em Marte As condições da zona do vulcão Dallol, desde temperatura a características do solo, são muito idênticas às de Marte. Ora, isto significa que, havendo vida num dos ambientes mais extremos do planeta, o cenário pode repetir-se no planeta vermelho.

“Este lugar é muito parecido com Marte – à sua origem, há milhões de anos – e também com a Terra quando o oceano de lava que a cobria estava a arrefecer”, explicou Felipe Gómez. Aliás, este investigador faz parte da equipa da NASA que explora Marte – e a possibilidade de lá existir vida – e que, em 2020, vai lançar um novo veículo para o planeta.

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