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PSP. “Os comandos não estão sensibilizados” para resolver os problemas sociais

PSP. “Os comandos não estão sensibilizados” para resolver os problemas sociais

João Porfírio Carlos Diogo Santos e Rita Pereira Carvalho 06/06/2019 09:57

Antigo dirigente sindical da polícia afirma nunca ter assistido a racismo entre os agentes em si. Os problemas, defende, são sociais. E os comandos da PSP não estão sensibilizados.

Depois das polémicas geradas pela condenação de oito agentes da PSP na sequência de agressões no bairro da Cova da Moura e pela saída de Manuel Morais, vice-presidente da Associação Sindical de Profissionais de Polícia por denunciar que existem preconceitos raciais entre as forças de segurança, há quem defenda que o problema não está nos agentes, mas sim na sociedade, nos preconceitos sociais e na falta de sensibilidade dos comandos da PSP. “Os comandos hoje não estão sensibilizados para isto”, diz ao i António Ramos, antigo presidente do Sindicato dos Profissionais de Polícia (SPP-PSP).

O sindicalista, que no passado chegou a ser acusado de xenofobia por declarações prestadas numa entrevista, defende em declarações ao i que é preciso integrar as comunidades, alertando para a necessidade de uma policia de proximidade e de mediação. António Ramos descreve algumas ações de inclusão promovidas pelo sindicato a que pertenceu, mas que, por força política foram interrompidas. “Os problemas que acontecem nos bairros são problemas que não têm nada a ver com a polícia, são problemas sociais, são problemas que tem de ser o poder local e o poder nacional a resolver”, garantiu.

Segundo afirma, entre 2002 e 2012, a estrutura sindical desenvolveu várias atividades através da criação de um gabinete de mediação que, mais tarde, deixaram de existir. E aponta o dedo ao ex-ministro de Estado e da Administração Interna, António Costa – hoje Primeiro-ministro, por pouco ter feito para que estes gabinetes vingassem. A tentativa de criar um observatório comum à Área Metropolitana de Lisboa, por exemplo, diz, não chegou a ir para a frente por falta de financiamento.

Para o sindicalista uma das grandes questões é a falta de interesse a nível político sobre os problemas sociais dos bairros. “A nível político não há qualquer interesse, só ficam preocupados quando rebentam as bombas nesses locais”, diz. É o efeito bola de neve que começa, por exemplo, nos problemas de inclusão dos jovens dos bairros, para quem encontrar um emprego não é tarefa fácil.

“Um dos problemas mais graves é o problema de integração destes jovens no mercado de trabalho: eles têm uma entrevista de trabalho e ao dizerem que são do bairro tal, têm o rótulo e são logo excluídos dessas entrevistas”, explica António Ramos. A solução? “Tem de haver uma intervenção do centro de emprego, do centro de formação profissional, da segurança social, do Estado”, completa o sindicalista já na reforma. Ainda sobre esta questão e graças ao gabinete de mediação criado pelo SPP-PSP, conta, foram feitos protocolos – entre 2002 e 2012 – com várias empresas para integrar os jovens dos bairros no mercado de trabalho.

“O que falta nos bairros é o clima de confiança” Em 2002, um jovem conhecido por ‘Toni’, de apenas 24 anos, foi morto no Bairro da Bela Vista, em Setúbal, por um agente da PSP da zona – mais tarde absolvido pelo tribunal por se considerar que agiu em legitima defesa. Nesse ano, a esquadra da Bela Vista foi assaltada várias vezes e o corpo de intervenção teve de ser chamado para reforçar a equipa. António Ramos – que acredita que a violência nos bairros entre moradores e polícia é nula quando existe um clima de confiança – decidiu iniciar um trabalho naquele bairro que colocava polícia e moradores no mesmo patamar.

“Foi criado um gabinete de mediação composto pelo SPP-PSP, associações do Bairro, amnistia internacional e, mais tarde, foi assinada uma parceria com as embaixadas de Angola, Moçambique, Cabo Verde e com o Sindicato da Polícia de Cabo Verde”, explicou António Ramos. Do Bairro da Bela Vista, o SPP-PSP saltou para outros bairros – Cova da Moura, Santa Filomena, 6 de Maio e Quinta do Mocho. Entre recolha de brinquedos e roupa para distribuir pela população, o sindicato promoveu ainda cursos para formadores que, por sua vez, davam também formação aos jovens do Bairro.

As tentativas de aproximar as duas partes foram ainda mais longe, afirma: o SPP-PSP promoveu jogos de futebol entre os polícias da esquadra de Alfragide e os jovens da Cova da Moura e do Bairro de Santa Filomena (Amadora) – um dos jogos contou com a presença de Jorge Sampaio, na época Presidente da República.

Dez anos depois – em 2012 -, o SPP-PSP ainda conseguiu financiamento para o último projeto. Aprovado pelo então ministro da Administração Interna, Miguel Macedo, foi possível comprar mobiliário e computadores para a sede da delegação. Aliás, António Ramos refere Miguel Macedo como o “único que ministro que estava sensibilizado para estas questões”.

 

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