17/9/19
 
 
Johansson. O gordalhão e os autocarros da Câmara da Maia

Johansson. O gordalhão e os autocarros da Câmara da Maia

Twitter Afonso de Melo 06/06/2019 09:54

A morte de Lennart não me surpreende, há muito que estava gravemente doente. Mas traz-me muitas recordações de um homem generoso e de episódios caricatos.

Em janeiro de 1992, eu estava em Gotemburgo. Perdi o avião cedo, pela manhã, em Lisboa, que devia levar-me até Copenhaga e daí para o norte da Suécia, tive de saltitar um pouco por toda a Europa, à tarde, Paris, Berlim, finalmente Gotemburgo. Não me queixo, a culpa foi minha. Ou foi do trânsito, mas pouco importa. Cheguei tarde, mas a tempo.

Em janeiro de 1992, a Federação Portuguesa de Futebol não funcionava com um rigor por aí além. O presidente era Lopes da Silva, mas não conseguia fugir da figura omnipresente do seu antecessor, o dr. João Rodrigues, essa personagem inconfundível com tantas e tão diversas particularidades que nunca deixarei de estimar. João Rodrigues convencera--se de que a sua influência na UEFA era suficiente para que Portugal tivesse sérias possibilidades de ser o país organizador da fase final do Campeonato da Europa de 1996. Não tinha. Nem condições, sequer. Estive numa entrevista de várias horas com o presidente da UEFA de então, o sueco Lennart Johansson, com direito a tradutor especial, o meu camarada e amigo José Vidal, hoje com mais de 50 anos de Suécia. A entrevista fez barulho. Johansson foi duro com a organização do futebol em Portugal, que considerava abandalhada. Basicamente, disse que se nem conseguíamos organizar-nos internamente, não havia hipótese de organizarmos uma grande competição – ele que mais tarde seria um apoiante fundamental do Euro 2004.

A Inglaterra era o outro candidato. Ou melhor: era o candidato. Lembro-me de ter feito um título que ia mais ou menos assim: “Inglaterra apresenta candidatura; Portugal apresenta cumprimentos”. João Rodrigues não gostou, refilou, mas faz parte do seu feitio e eu também nunca fui de ligar muito a essas coisas. Faço o meu trabalho e respondo por ele. O dossiê da candidatura portuguesa envergonhava qualquer um, de São Paio de Gramaços a Santiago de Riba Ul: meia dúzia de folhas de propaganda ao mar, ao sol, às praias, à paixão lusitana pelo jogo inventado pelos britânicos, uma folhinha de cumprimentos assinada pelo Eusébio e outra por Sven-Göran Eriksson, o sueco que os nossos dirigentes estavam convencidos de que abriria de par em par os braços de Lennart Johansson.

Na brincadeira, chamávamos-lhe Lennie. Era bonacheirão, bem-disposto, falava devagar, respirava com a força de um búfalo. Voltei a estar com ele várias vezes, voltei a entrevistá-lo, conversámos aqui e ali em diversos lugares por onde o futebol nos cruzou. Gostava dele. Tinha uma genuinidade valiosa. E uma generosidade agradável. Irradiava uma simpatia tímida que contrastava com o volume do seu tamanho.

Autocarros A delegação portuguesa em Gotemburgo, nesse mês de janeiro de 1992, não era numerosa mas exibia uma certa vaidade. Por motivos protocolares, era chefiada pelo dr. Vieira de Carvalho, entretanto desaparecido, outra figura de incontornável simpatia mas que, aqui para nós, sabia muito pouco de futebol, já para não dizer nada, o que se tornou embaraçoso aqui e ali.

Num excesso de pompa e circunstância próprio de Elgar, a Federação Inglesa alugou um salão num dos melhores hotéis da cidade para exibir as vantagens do seu projeto. Tinha tudo sobre infraestruturas, desde as alterações a fazer nos estádios à projeção dos movimentos de adeptos e respetiva utilização de transportes públicos. Bobby Charlton era o grande anfitrião. A Inglaterra organizou o Europeu de 1996, e bem. Quatro anos antes, já não havia dúvidas sobre isso.

Num momento em que eu e o José Vidal nos encontrávamos à taramela com Lennart Johansson, Vieira de Carvalho apareceu, cumprimentou-nos e ficou na tertúlia. Quando Johansson se afastou, no seu passo bochornoso, o que era também presidente da Câmara Municipal da Maia perguntou, candidamente: “Quem é este gordalhão?”

Explicámos-lhe. Mostrou-se satisfeito. Era, sem dúvida, uma pessoa com quem queria conversar durante a estadia em Gotemburgo. Pediu ao Vidal se lhe proporcionava um encontro. Seguimos com ele e um seu convidado para o jantar que se desenrolava depois. O convidado parecia-me desconhecido em relação aos meandros do futebol português e ficou sentado à minha frente. Conversa de circunstância e, porque se proporcionava, o mesmo futebol como tema até ele me surpreender com a afirmação de que era assunto que não lhe interessava e não dominava. Era engenheiro, da Câmara da Maia, aproveitara a viagem para contactar a Volvo e preparar uma compra de autocarros em segunda mão para os transportes públicos da edilidade.

Lennart Johansson morreu e a sua morte não nos surpreende. Traz recordações. Há muito que se encontrava doente. As suas faces redondas perderam o brilho sorridente. Sabia, como poucos, segredos dos maiores escândalos da UEFA e da FIFA. Levou-os com ele. Num silêncio digno de homem digno.

 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×