20/9/19
 
 
Afonso de Melo 06/06/2019
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Na brancura tão bonita do papel

Cheguei a ir sábado a Loulé e seguir para Castelo Branco no domingo, e havia um prazer que nos movia para lá de qualquer coisa que se pudesse explicar: era o jogo, eram os jogadores e treinadores que conhecíamos bem.

Quando fechei a porta de minha casa, em Águeda, o lugar eterno da minha infância, esse país de que falava Saint-Exupéry, e tomei a estrada de Albergaria-a-Velha, recordei-me dos tempos da velha A Bola em que percorríamos o país de cima a baixo atrás do futebol, primeira ou segunda divisão, tanto fazia, quilómetros e quilómetros e quilómetros, saindo de madrugada, regressando noite dentro para escrever na redação (às vezes era mesmo num café qualquer, e depois, as laudas, por fax, de uma rádio local), do Porto ou de Lisboa, trazendo os rolos de fotografia que depois o Nuno Ferrari ou o João Manarte revelavam lá no sótão da Travessa da Queimada, ou o sempre querido Timóteo na Campanhã. Cheguei a ir sábado a Loulé e seguir para Castelo Branco no domingo, e havia um prazer que nos movia para lá de qualquer coisa que se pudesse explicar: era o jogo, eram os jogadores e treinadores que conhecíamos bem; era aquela sensação única de ver o nome impresso n’A Bola grande, broadsheet, que foi ficando pequenina, cada vez mais pequenina, infelizmente definitivamente pequenina; era a vida, afinal, a vida que tínhamos escolhido para lá da vida, maridos de viúvas vivos, dizia o Carlos Miranda, pais de filhos que nunca vimos crescer à velocidade dos meses, mas apenas à velocidade dos anos. Os quilómetros eram pagos e bem pagos, acrescente-se. Para aí a 25 tostões (diz lá tu, chefe Rita!), e o imposto era em selos e carimbos cá em baixo, no rés-do-chão, num cubículo onde havia o dinheiro solto para pagamentos inesperados e vales para os que iam, de repente, como enviados especiais para qualquer lugar do mundo onde a vida acontecesse e houvesse coisas para escrever sobre ela, sempre com aquele ensinamento do Alfredo Farinha, que para nós era uma lei, de tentar esclarecer e ser útil. Eu ainda sinto a febre. Levanto-me com a febre das estradas (que agora são autoestradas), dos aeroportos, com a excitação da urgência do fecho, mal o jogo acabe, com o prazer infantil de subir as escadas que conduzem às tribunas de imprensa, ouvir os gritos do povo nas bancadas, alegrias e tristezas (até insultos), com tudo aquilo que há para dizer e exprimir e transformar nas palavras que já não sei se alguém lê ou não, mas que saem dos qwerty do meu computador para todos aqueles que quiserem dispor delas ou ignorá-las. Não consigo ouvir um jornalista dizer com orgulho que há mais de nove anos não põe os pés num estádio, quando é no estádio que tudo se passa, que é aqui que podemos continuar a ser do futebol e do jornalismo, da crónica e da opinião, da reportagem ou da entrevista. Guio devagar, mas com pressa de chegar. Chegar mais uma vez ao assento cujo número me está destinado e no qual passo, de um momento para o outro, a ser a testemunha privilegiada que trabalha para os que aqui não podem estar. Hoje no Porto, amanhã em Guimarães, depois no Porto outra vez, sempre com Águeda pelo meio, nas horas mortas, porque esse é o sítio onde me sinto bem. Vejo o estádio de um lado do vidro e o Douro do outro. Lembro-me do Torga: “Sem pressa de chegar ao seu destino/ Ancorado e feliz no cais humano/ É num antecipado desengano/ Que ruma em direcção ao cais divino”. Divino, sim, o cais do meu trabalho. Mas o meu barco resolveu há muito, muito tempo, desde esse tempo do qual sinto infinitas saudades, recusar-se ao destino de alguma vez vir a ter cais. Chego e parto. E as palavras ficam pelo caminho. Impressas e negras na brancura tão linda do papel.

 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×