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Dia D. O fim da fortaleza Europa, entre heroísmo e enganos

Dia D. O fim da fortaleza Europa, entre heroísmo e enganos

Jornal i 05/06/2019 11:00

O maior desembarque anfíbio da História foi o culminar de uma das mais bem-sucedidas campanhas de desinformação, que dispersou a máquina de guerra nazi por toda a Europa.

Há precisamente 75 anos, o Dia D dava início ao fim dos sonhos de Adolf Hitler de uma “fortaleza Europa”. Por de trás de uma muralha de betão, bunkers, arame farpado, minas e artilharia estava um continente de joelhos, subjugado pela Blitzkrieg – ou guerra-relâmpago – levada a cabo pelos exércitos alemães, que varreram a Europa a partir de 1939. Os cerca de 160 mil soldados aliados que atravessaram as praias da Normandia, na França, a 6 de junho de 1944, sob fogo cerrado de metralhadoras e armas pesadas, conseguiram o que parecia impossível – abrir a muito esperada frente ocidental. Sob a liderança conjunta do general norte-americano Dwight D. Eisenhower, e do general britânico Bernard Montgomery, as forças aliadas derrubaram a Muralha Atlântica alemã, comandada por Erwin Rommel, o famoso general conhecido como a “raposa do deserto”, pelos seus sucessos no Norte de África.

Daí em diante, os muito desgastados exércitos nazis tiveram de se desdobrar entre a ofensiva aliada em França, a defesa de Itália – onde os aliados esbarraram em linha fortificada atrás de linha fortificada – e a frente oriental, o maior teatro de guerra da história, onde as forças do eixo recuavam face à ferocidade das tropas soviéticas. Qualquer pessoa via que o fim do Terceiro Reich estava ao virar da esquina das praias da Normandia. Mas a viagem até ao coração da Alemanha ainda demorou quase um ano, entre ofensivas e contra-ofensiva – e centenas de milhares de mortos.

 

A luta pela mente de Hitler

Só poderia haver alguma esperança de quebrar as poderosas defesas costeiras alemãs com o elemento surpresa. Como tal, o dia D foi o culminar de uma das maiores operações de desinformação da história, a operação Bodyguard – ou guarda pessoal. “Em tempos de guerra, a verdade é tão preciosa que deve sempre ser protegida por uma guarda pessoal de mentiras”, comentou o então primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, ao secretário-geral da URSS, José Estaline, durante as conferências de Teerão. Enquanto Hitler reforçava quase 2500 quilómetros de fortificações – do Ártico até Espanha – contando com exércitos colocados em pontos estratégicos, para responder a qualquer invasão, os aliados dedicavam-se a arrastar esses exércitos por toda a Europa. De Pas-de-Calais – o ponto mais próximo da Grã-Bretanha –, aos Balcãs e à Noruega, onde 200 mil soldados alemães foram enviados semanas antes do dia D, à espera de uma invasão que nunca chegou.

Foram vitais para este esforço a descoberta de dezenas de espiões alemães na Grã-Bretanha, convertidos em agentes duplos ou cuidadosamente alimentados com informação falsa. Tudo para entrar dentro da cabeça de Hitler – que se transformou num campo de batalha como qualquer outro. Por exemplo, os receios de uma invasão na Noruega foram cultivados graças a dois agentes duplos, John Moe (Mutt) e Tor Glad (Jeff) que transmitiram relatórios detalhados acerca de um suposto exército britânico na Escócia. Uma fantasia que ganhou vida com conversas de rádio atrás de conversas de rádio, sobre problemas relacionados com o frio – como tanques emperrados devido a temperaturas negativas, ou tropas perdidas na neve.

E este não foi o único exército fantasma que surgiu por entre as brumas da contrainformação aliada. O sudeste de Inglaterra foi palco de um elaborado teatro, encenado pelo general George Patton, que fingiu estar prestes a atravessar o canal da Mancha para invadir Pas de Calais. As conversas de rádio davam conta de movimentos de soldados que nunca existiram – mas que até se chegaram a casar, segundo os anúncios colocados nos jornais locais. Os reconhecimentos aéreos dos nazis pareciam confirmar os receios de Hitler, registando uma armada de veículos anfíbios e aviões – que afinal eram estruturas de metal cobertas por telas pintadas. Chegaram a ser colocados nas praias da região tanques falsos, que até deixavam marcas na areia, feitas com cilindros, durante a noite, enquanto os ataques aéreos contra Pas de Calais eram reforçados. O toque final foi dado poucas semanas antes do desembarque na Normandia, pelo tenente australiano e ator M.E.Clifton, extraordinariamente parecido com o general Bernard Montgomery. Após ser treinado para imitar os maneirismos do general, Clifton viajou com toda a pompa e circunstância para Gibraltar, onde seria visto pelos serviços secretos alemães – deixando-os descansados e seguros que a invasão não estava para breve.

Contudo, o engano não ficou por aqui. Quando os navios aliados já estavam a caminho das praias da Normandia, aviões aliados lançaram nuvens de papel de alumínio perto de Pas de Calais, para fazer aparecer nos radares alemães a imagem de uma gigantesca frota a aproximar-se. A ilusão contou até com o lançamento de manequins de paraquedas, vestidos de soldados e montados de modo a começar a disparar as suas espingardas quando atingissem o solo. O logro funcionou de tal modo que Hitler demorou quase sete semanas a mover as suas tropas de Pas de Calais para a Normandia, continuando à espera de outra invasão. Para desespero de Rommel, que implorava sem sucesso por reforços.

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