16/6/19
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 05/06/2019
Eduardo Oliveira E Silva

opiniao@newsplex.pt

O jornalismo justicialista

Multiplicam-se os casos de denúncias, nomeadamente em televisões, que efetivamente põem termo a situações graves ou as denunciam.

1. Na exata medida em que o jornalismo institucional se acomoda no regaço dos diversos poderes institucionais, desenvolve-se nas televisões um jornalismo justicialista dinâmico, de grande eficácia e gerador de audiências.

Há que reconhecer que, desde que este tipo de intervenção mediática assentou nas televisões generalistas, têm-se sucedido dezenas de casos que são arrepiantes e que dizem respeito a situações concretas de abusos sobre direitos inalienáveis de cidadãos.

O que salta aos olhos na sequência da análise dos temas é que, por via das denúncias, muitas situações são depois resolvidas por decisores até aí surdos que são tomados de pânico pelas consequências dos factos emitidos, em programas específicos como os de Ana Leal e Alexandra Borges, nomeadamente.

Com alguns excessos e falhas que é sempre possível apontar-lhes, o facto é que nos variados temas tratados, mas sobretudo naqueles que mais diretamente respeitam a pessoas concretas ou a instituições de toda a espécie de que alguns se servem como se fossem propriedade sua, este jornalismo interventivo é direto, eficaz e de qualidade.

Parte dos temas são, por vezes, retirados de denúncias que são em primeira linha feitas através das redes sociais e da imprensa (escrita é redundância), sendo depois amplificados pelos audiovisuais, chegando ao conhecimento de milhões de pessoas.

Uma das características do poder ou dos visados na abordagem das denúncias é a sua sistemática ausência nos debates que se seguem à difusão dos trabalhos. É uma prática de fuga às responsabilidades e de cobardia sistemática que não dignifica quem a pratica e se recusa a prestar contas. Mais grave se torna quando o ausente é o Estado, nomeadamente a Segurança Social, que se caracteriza por nunca prestar contas das suas falhas sistemáticas, sem que o respetivo ministro se sinta incomodado ou envergonhado com isso.

Simultaneamente, sempre que o assunto é totalmente escandaloso e grave, aparece o inevitável Ministério Público a dizer que vai fazer não se sabe exatamente o quê mas que já está em curso um rigoroso inquérito. Só muito pontualmente o poder político anuncia nas horas imediatas medidas que vão da suspensão das ações a uma legislação à la minute destinada a acalmar a indignação. Acontece normalmente nos casos que envolvem a saúde ou o fisco, como ainda agora se viu. Nalguns casos, realmente as coisas resolvem-se, até porque há quem pegue na matéria e a leve para outras instâncias, como o Parlamento. Noutros, nem por isso. Mas o balanço destes programas é claramente positivo, mesmo que se fique pela denúncia. Há, portanto, que saudar a intervenção social de um jornalismo muitas vezes emotivo e popular, mas honesto na sua génese, ao contrário do que sucede noutros dos seus segmentos especializados.

2. O tipo de jornalismo referido no ponto anterior não pode, porém, ser confundido com outro que espanta de repente o país com notícias de que dezenas de polícias e magistrados desembarcaram aqui ou ali numa operação com nome de thriller americano. Essa é outra área noticiosa que, em boa parte, vem de dentro das organizações que lideram as operações e que, durante um dia ou dois, geram grande estardalhaço. O problema é que, depois, pouco ou nada acontece e os processos duram anos. Às vezes, até se fica com a sensação de que há uma estratégia política envolvida nos timings. Ainda há dias houve uma grande ação, que envolveu sobretudo políticos de um determinado partido, que foi noticiada numa terça-feira pela fresquinha. E será que não havia condições para tratar do assunto na quinta ou na sexta-feira? Ou a ação foi atrasada para não aumentar ainda mais os níveis de abstenção que as detenções iriam gerar?

3. A EMEL, gestora dos estacionamentos em Lisboa, não cessa de surpreender e de alargar o seu poder desmesurado. Os seus esbirros têm praticamente por conta a polícia municipal, têm um parque automóvel de primeira, têm reboques ultramodernos e têm novas motos de alta cilindrada para fiscalizar carros parados. Fantástico! Mas a última invenção é vender várias vezes o mesmo espaço em conluio com a Câmara de Lisboa. Assim, não é raro verificar que lugares de estacionamento pagos por residentes são subitamente transformados em esplanadas e lugares de cargas e descargas ou, melhor ainda, em local de paragem exclusiva para carros elétricos de uma empresa privada que por aí anda. É um fartote!

4. Antes de termos um desgosto, é preciso fazer rapidamente uma conta ao retorno da Web Summit e aos seus encargos para Lisboa e para o Estado português. Nesta altura, a única certeza que existe é que se trata de um grande evento turístico, o que é bom. A dúvida é se o gigantesco investimento e contrapartidas não geram um efeito perverso, ou seja, um custo. Isto porque, em boa verdade, não há nota de que haja assim tantas startups que se tenham instalado em Portugal desde que temos o evento. Há dias, numa rádio, foi emitido um programa interessante sobre a matéria. Um dos participantes comparou a summit com a Feira da Golegã, afirmando que, por aquelas bandas ribatejanas, a atividade é praticamente desértica depois da magna reunião dos amantes do cavalo. Quem previne, amigo é.

 

 

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