5/4/20
 
 
Portugal-Suíça. Mas qual neutros!? Eles são é muito chatos!!!

Portugal-Suíça. Mas qual neutros!? Eles são é muito chatos!!!

DR Afonso De Melo 04/06/2019 18:23

Dez derrotas portuguesas em 20 jogos dão bem ideia daquilo que tem significado a Suíça para a seleção nacional. Aliás, não terá sido por acaso que, mal se sagrou campeão da Europa, Portugal foi espalhar-se ao comprido em Basileia.

Uma velha graçola perguntava: se os canivetes suíços são assim tão bons, porque não os usam os suíços para combater? Ora, pilhérias sobre a neutralidade suíça, sobre relógios de cuco e queijos com buracos não faltam por aí, mas digamos que nisto do futebol, nós, portugueses, não temos motivos para lhes achar graça nenhuma desde o longínquo ano de 1938, no qual, num jogo apenas, em terreno neutro, eles nos deixaram fora da fase final do Mundial de França. Ainda na edição de ontem vimos aqui, nestas suas páginas, como, nos três primeiros jogos frente à Suíça, Portugal engoliu em seco três derrotas: 1-2, 0-1 e 2-4.

Basta observar o quadro em anexo para se perceber que se os suíços são neutros para muitas coisas, connosco têm sido sobretudo do contra. E se há quem os considere um povo essencialmente chato, com as suas pequeninas manias e conveniências, então para nós têm sido, como diria o Alencar, do divino Eça, uma grandessíssima estucha, de tal ordem que, na ressaca do título europeu conquistado em França, os titulados rapazes de Fernando Santos trataram de ir dar logo com os burrinhos na água em Basileia (0-2), no início do apuramento para a fase final do Campeonato do Mundo da Rússia.

Regressemos um pouco ao tal ano de 1938. A derrota portuguesa em Milão confirmava que, muito mais do que o canivete, a arma favorita dos suíços era o ferrolho – le verrou, em francês; der Riegel, em alemão –, expressão que ganhou raízes na história do futebol e saiu da imaginação do selecionador de então, o austríaco Karl Rappan, o primeiro sistema defensivo a utilizar o líbero e com todos os jogadores atrás da linha de meio-campo na fase de ataque adversário. A estratégia conduziu a Suíça a dois quartos-de--final (1934 e 1938) de Mundiais, o que não era nada mau para uma equipa que ninguém levava verdadeiramente a sério.

Se a derrota de 1938 foi francamente desanimadora para a equipa então comandada por Cândido de Oliveira, a de fevereiro de 1939, em Lisboa, apesar de em jogo particular, provocou uma desilusão tão grande como compreensível. Tavares da Silva, uma das figuras maiores do jornalismo português de todos os tempos, não esteve com meias-medidas na sua apreciação do encontro: “A Suíça sabe jogar a bola. Os seus players sabem o que fazem. Coordenam com perfeição os movimentos e executam-nos sob uma forma muito agradável. A seleção de Portugal mereceu a derrota. Seria injusto que tivesse ganho. Raramente se entendeu. Os nossos representantes entregaram-se quase por completo. As várias células jogaram desmembradas. Citar nomes para quê? Se é difícil avaliar quem jogou menos”.

Duras palavras. Tão duras como o gelo eterno do Matterhorn.

Vitória! São, até hoje, seis as vitórias portuguesas sobre a Suíça. Metemos quatro empates ao barulho e a vantagem ainda é deles, com dez triunfos.

Claro que a malta terá a tendência para o desabafo: “Ora tubérculos! Nem com a Suíça!?” Os factos não se desmentem. Repare-se que, já neste século, se consumaram duas vitórias helvéticas, ambas por 2-0, e apenas uma lusitana, também por 2-0, com os três jogos a serem oficiais. Não é de estranhar que, no dia primeiro de janeiro de 1942, se exultasse com os 3-0 aplicados aos suíços: “A seleção portuguesa de futebol vingou as três derrotas do passado. Venceu, foi melhor em toda a linha, convenceu”. Mas logo se acrescentava: “O grupo da Suíça não deixará de invocar algumas atenuantes (substituição de titulares tocados em Valência; cansaço da longa viagem; jogo de Lisboa em cima do da Espanha) para justificar não só a derrota como a fraca qualidade do pontapé helvético”. Bom, não deixa de ser curioso que quem desfie as atenuantes seja o repórter português, e nenhum suíço em seu lugar. Fosse como fosse, batera-se o papão que vinha lá dos Alpes e ganhava-se, por cá, certo alento.

Tavares da Silva não fugia à comparação: “Já da outra vez, aquando dos 2-4, o manifesto desentendimento e mal-estar da equipa forjaram o desastre. Agora, o selecionador e os jogadores cumpriram o seu dever. Aquele, organizando um grupo harmonioso; estes, correspondendo. O n.o 1 das Salésias foi Cardoso, simplesmente primoroso em todas as intervenções, ágil e vibrátil. A marcação dos goals de Mourão, como o de Alberto Gomes, prodigiosos de execução, os três com o pé esquerdo, elevam-nos, junto com outros pormenores, ao plano das grandes figuras. A seleção de Portugal venceu! Se é agradável ganhar, mais o é ainda quando isso acontece não pelos favores da sorte, mas porque os 3-0 traduzem uma superioridade incontestável, nítida, absoluta. Ganhou-se, desta vez, moralmente e praticamente”.

Seria preciso esperar mais 18 anos por nova vitória face aos suíços, em 1964, já com Eusébio. Esses chatos! Mesmo muito chatos, acrescente-se! Os resultados que o digam.

 

Ler Mais

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×