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Henry Miller. As lições de um velho caçador de pesadelos

Henry Miller. As lições de um velho caçador de pesadelos

Diogo Vaz Pinto 31/05/2019 13:03

Na velhice, o antigo pornógrafo das letras norte-americanas deixa o sangue, o esperma e o suor e fica pelo osso, com a graça e a alegria de um aguarelista, contente por poder fixar, de entre o assombro da vida, um sábio reflexo aguado.

 

A lenda de certos escritores pode tornar-se um tanto molesta. Um estilo e uma natureza demasiado ruidosa fazem deles essas personagens que ficam à margem do enredo, mastigando-o. A simples menção a Henry Miller provoca em quem já por lá passou a mesma exaustão de certas memórias que, de tão fortes, não dão hipótese à nostalgia. Cansam-na como a um cavalo e, depois de terem percorrido uma distância não muito longa, abatem-no sem necessidade disso. Borges falou dele sem especial entusiasmo, reconhecendo a sua exuberante obscenidade e notando que a sua obra constituiu “uma vasta autobiografia fantasmagórica, não isenta de voluntárias trivialidades e fealdades, entre as quais transluzem, ocasionalmente, lampejos mágicos”. 

Lembrá-lo é um pouco como ouvir um tio que, mal segurando as rédeas de uma carraspana, pode deliciar-nos ou tornar--se massacrante com as suas histórias e desventuras. Pensamos nele e cresce uma impressão de vozearia, aqueles monólogos avassaladores, frenéticos, com o lirismo cercante da palavra que, mesmo lida, a sensação que dá é de a ouvirmos, a íntima distância que trabalha a vivacidade oral, essa que tão cedo quanto nos provoca vira a esquina da nossa atenção e se perde. Miller é um desses escandalosos espíritos a quem nada se pode levar a mal. Alguma vez a colher de merda que estende nos soube pela vida. O fluxo demencial da sua prosa, em constantes arranques, recomeços, como se um pugilista que se propõe vencer um adversário não pelos golpes com que lhe acerta, mas encaixando os que lhe são dirigidos, tirando um prazer absurdo de cada vez que se levanta do tapete lambuzando-se com o próprio sangue. Há, por isso, na sua escrita uma ênfase que nos acossa, vem agarrada a um outro tiquetaque que nos exalta na mesma medida em que enjoa, como se a lêssemos a bordo de um bote em risco de se desconjuntar: frases incessantes, um verbo incapaz de se conter, animado por uma energia bronca, às vezes belo e ingénuo, soltando chispas, ecos que trepam uns por cima dos outros. Como se o diálogo interior de Miller registasse as palavras trocadas por uma endoidecida tripulação há demasiados meses no mar.

Miller tinha o hábito, bastante comum nessa forma de narcisismo que empurra tantos para a literatura, de apreciar nos outros sobretudo aquelas qualidades que via em si mesmo. Veja-se como descreve o poeta grego Yorgos Seferis: “Ele seria capaz de galvanizar os mortos com a sua conversa. Era uma espécie de processo devorador, e quando ele descrevia um lugar parecia que o comia, como uma cabra a atacar uma carpete. Se descrevia uma pessoa, comia-a viva, da cabeça aos pés. Se fosse um evento, devorava cada detalhe, como um exército de formigas brancas a avançar por uma floresta. Ele conseguia estar em toda a parte ao mesmo tempo... E não era apenas a conversa que ele fazia, mas a linguagem era um repasto, a linguagem era a besta”. 

Acabam de ser reeditados, numa edição irrepreensível, três breves textos da carreira final de Miller, desses que escapam à nervosa órbita que fez dele uma figura célebre e corrigem a sua imagem sem, no entanto, deixarem o mito desamparado. “Viragem aos Oitenta” é o primeiro dos textos e, aqui, o tom geral é outro. O inspirado meliante não se reformou nem perdeu a vivacidade, mas levou até ao fim o estouvado maneirismo de alguém que perseguia uma nova Bíblia, e, nas páginas de Trópico de Câncer, anunciava o Último Livro. (“Esgotaremos a era. Depois de nós, não haverá nem mais um livro…”) De resto, como ele próprio disse, essa obra não é um livro mas um libelo, um prolongado insulto a Deus, ao homem e ao seu destino. Nestas páginas, pelo contrário, encontramos o generoso testemunho de um velho que pôde voltar as costas ao êxito e nos diz que este, “de um ponto de vista terreno, é como a peste para o escritor que ainda tem alguma coisa a dizer”. Há um elogio à lucidez dos homens que sabem valer-se das pequenas coisas para se enriquecerem e gozam a soberania do anonimato sem terem entretido ambições de fama, “essa imortalidade em segunda mão” (Magris).

Com os anos, Miller adquiriu a temperança, como um velho guerreiro que segue com os dedos as suas cicatrizes como uma escrita em braile que traduz na sua pele o desenho dos astros. O balanço, agora, é o de uma conversa limpa, calma, a de alguém que vê na velhice um ganho: “Aos oitenta, acredito que sou uma pessoa muito mais alegre do que era aos vinte ou aos trinta. Definitivamente, não gostaria de voltar a ser adolescente. A juventude pode ser gloriosa, mas também é doloroso suportá-la. Acresce que, na minha opinião, aquilo a que chamam juventude não é juventude mas, antes, qualquer coisa como velhice prematura. Eu fui amaldiçoado ou abençoado com uma adolescência prolongada; atingi alguma aparente maturidade quando já passava dos trinta. E foi apenas quando já passava dos quarenta que comecei realmente a sentir-me jovem (...) Nessa altura, já tinha perdido muitas ilusões, mas felizmente não o meu entusiasmo, nem a alegria de viver, nem a minha curiosidade insaciável - que fez de mim o escritor que sou. Nunca me abandonou. Disposto a ouvir, até a maior maçada pode suscitar o meu interesse”.

Miller deixou-se já das descocadas profecias, do colossal pretensiosismo que lhe encharcava as páginas - as melhores como as piores -, e em vez de correr atrás do leitor com as calças pelos tornozelos, mima-o, recorta cada frase, seca--as, continua a falar de si, mas abandonou já os ferozes motivos daquilo que embalou a sua épica. Sem trair as suas anteriores encarnações, é um maestro da composição oral quem agora nos surge, e dobra o cabo de cada frase com um tocante efeito de simplicidade, deixando nela a pacata impressão de uma pérola de saber, preferindo comover ao invés de abalar-nos. Aos 80, Miller não nos vem com erratas, mas antes com adendas, e entre somas e subtrações diz-nos: “Não sou nem pessimista nem otimista. Para mim, o mundo não é nem isto nem aquilo, mas todas as coisas simultaneamente, e a cada um segundo a sua visão”.

E mesmo se não chega a dar-nos um vislumbre daquela besta omnívora que tornou a sua influência inescapável na literatura norte-americana, há outra coisa aqui que nos compensa da inquietante respiração de alguém que ameaçava o juízo do leitor. E é bem verdade que nos fazem hoje muita falta as vozes que nos lembram de um tempo em que à literatura não se exigia uma circularidade moral, em que os leitores até apreciavam a hipótese terrífica de sufocarem na atmosfera atroz de um génio animado das piores intenções. O escritor podia ser o monstro, e a sua escrita esse movimento rápido que desenha nas águas algo de arrepiante. Mas este livro já não nos dá a conhecer aquele sedutor tenebroso, vibrando com o efeito da sua própria infâmia, esse Miller que podia ser belicoso e mesquinho, um fanfarrão, perverso, egoísta, tão egoísta quanto se espera que um estômago vazio seja, como o crítico William H. Gass notou. Se a sua insaciável tagarelice podia ser esgotante, ele alegrava-se por poder lançar sobre a mesa uns quantos dentes de ouro num sorriso, de resto, medonho. Mas da aprendizagem com o pesadelo sobrou, nestes textos, a dolorosa sintaxe de um autor amadurecido, alguém que não exige menos da linguagem que dos próprios sentidos. Se a fome serenou, a escrita mantém-se alerta e o estilo soube reclamar os despojos para estender a linha de forma sensível e desarmar o leitor.

Com ele como cicerone, a narração está carregada de um fulgor viajado, as impressões não demoram a escavar o seu caminho dos sentidos às entranhas, e mantém-se a mesma curiosidade honesta e profunda. Como regista Borges na sua introdução à literatura norte-americana, a vida de Miller oscilou sempre entre o Velho e o Novo Mundo, e aproveitava--se das suas origens, do buraco de onde saiu, na tão detestada Brooklyn, como de um grau zero que o levou a uma reconstituição da graça e da beleza clássica. O lado sórdido da existência - de que foi um tão aplicado estudioso - anima a perspetiva que o levaria a um sentido do assombro, esse que agora assume para ele o peso de uma religião pessoal. Assim, no segundo texto, “Viagem a Uma Terra Antiga” - literariamente, o mais conseguido -, Miller explica: “Um dos fascínios das ruínas é sugerirem ou revelarem sempre a configuração original ou, por outras palavras, a intenção. No meio da maior devastação, temos a certeza de encontrar pedaços isolados de perfeição: um arco, um pilar, uma cúpula, um pedaço de pavimento. O trabalho de restauro não só dissipa o charme e o mistério como produz o efeito, um simulacro, de rigor mortis. Nunca nada parece o que foi. O tempo é o mestre apaixonado da decomposição. A criação e a destruição são gémeas, como o foram o amor e a justiça”.

 

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