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Dia Mundial da Energia. Sem ações mais sustentadas, em 2030 ainda vão existir 650 milhões sem luz

Dia Mundial da Energia. Sem ações mais sustentadas, em 2030 ainda vão existir 650 milhões sem luz

Dreamstime Daniela Soares Ferreira 29/05/2019 19:39

Celebra-se hoje o Dia Mundial da Energia, mas a verdade é que nem todos podem celebrá-lo: em 2017, 840 milhões de pessoas não tinham acesso à eletricidade. Dados são divulgados por várias associações internacionais e revelam que, se não houver medidas sustentadas, os objetivos da ONU para 2030 no que diz respeito à energia não serão cumpridos.

Se tem luz em casa, no trabalho ou até na rua, considere-se um sortudo. É que, se para nós ter luz é quase tão natural como respirar, o mesmo não acontece com os cerca de 840 milhões de pessoas a nível mundial que não tinham acesso a este bem tão precioso em 2017. Atualmente, ainda são 770 milhões. Estas são as principais conclusões da mais recente análise levada a cabo pela Agência Internacional de Energia, a Agência Internacional de Energias Renováveis, o Banco Mundial, a Organização Mundial da Saúde e ainda a Unidade de Estatísticas das Nações Unidas.

A tendência de diminuição do número de pessoas sem acesso à eletricidade é uma realidade, mas a verdade é que ainda há muito trabalho pela frente e, por isso, estas organizações consideram que, sem ações mais sustentadas e aceleradas, 650 milhões de pessoas ainda estarão sem acesso à eletricidade daqui a pouco mais de dez anos, em 2030.

O relatório indica que, entre 2010 e 2016, o número de pessoas sem este bem passou de 1,2 mil milhões para mil milhões. No ano seguinte, o número voltaria a diminuir: 840 milhões não tinham acesso à eletricidade em 2017.

Índia, Bangladesh, Quénia e Myanmar estão entre os países que mostraram mais progressos desde 2010, apesar de os dados ainda serem dramáticos.

O relatório Tracking SDG7: The Energy Progress Report mostra ainda que foram feitos grandes esforços ao longo dos últimos anos para implementar tecnologia de energia renovável a fim de melhorar a eficiência energética em todo o mundo. Mas, pelos vistos, não serão suficientes para conseguir os Objetivos de Desen-volvimento Sustentável (ODS) no âmbito do acesso à energia até 2030: assegurar o acesso universal a serviços energéticos acessíveis, fiáveis e modernos; aumentar substancialmente a quota de energias renováveis; conseguir o dobro da taxa global de melhoria na eficiência energética; melhorar a cooperação internacional para facilitar o acesso à pesquisa e tecnologia de energia limpa; e expandir a infraestrutura e modernizar a tecnologia para fornecer serviços energéticos modernos e sustentáveis a todos os países em desenvolvimento, em especial aos países menos desenvolvidos.

Por outro lado, o relatório revela que a população sem energia limpa para cozinhar totalizou os 3 biliões em 2016, número distribuído por países africanos e asiáticos. “O uso generalizado de combustíveis e tecnologias poluentes para cozinhar continua a representar sérios problemas de saúde e socioeconómicos”, lê-se na análise.

Já a energia renovável foi responsável por 17,5% do consumo total de energia global em 2016. O uso de energias renováveis para gerar eletricidade aumentou rapidamente, mas foram feitos menos avanços no calor e no transporte. Nesse sentido, “é necessário um novo aumento substancial de energia renovável para que os sistemas de energia se tornem acessíveis, confiáveis, sustentáveis, com foco em usos modernos”, lê-se no relatório.

Portugal não faz parte deste cenário. Ao i, fonte da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) avança que “não possui informação de situações de não acesso ao serviço de eletricidade [no nosso país]”, garantindo ainda que “a eletricidade é um serviço universal em que todos, a todo o tempo e em todo o lugar têm assegurado o direito de acesso, não podendo ser recusado um pedido de ligação à rede”, garante.

Preocupação na África Subsariana Dos 650 milhões de pessoas que em 2030 ainda poderão não ter acesso à eletricidade, a maior parte estará a viver na África subsariana, sendo esta a região mais problemática. As organizações que realizaram esta análise referem que, em 2017, 573 milhões de pessoas não tinham acesso a este bem nessa região.

“Estou particularmente preocupado com a dramática falta de acesso a energia confiável, moderna e sustentável em certas partes do mundo, especialmente na África subsariana, uma região onde precisamos realmente de concentrar os nossos esforços. A AIE continuará a cooperar com países e organizações para garantir que as soluções bem-sucedidas sejam implantadas com eficiência”, não deixando ninguém para trás, garantiu Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia.

Francesco La Camera, diretor-geral da Agência Internacional de Energias Renováveis, considera que a energia renovável e a eficiência energética são fundamentais para o desenvolvimento sustentável, “permitindo o acesso à energia, estimulando o crescimento económico, criando emprego e melhorando a saúde”. “Podemos estender a transição energética a todos os países e garantir que os benefícios cheguem às comunidades mais vulneráveis”, disse, acrescentando que a associação que dirige “fortalecerá o envolvimento com os membros e parceiros-chave para facilitar soluções concretas para construir um futuro de energia sustentável para os benefícios de toda a humanidade”.

Casos mediáticos A imagem correu o mundo e sensibilizou quem a viu: no Peru, Víctor Martín Angulo Córdoba, de 12 anos, foi filmado a estudar na rua, debaixo de um candeeiro, porque não tinha luz em casa. Segundo o relatório Tracking SDG7: The Energy Progress Report, em 2016, dois milhões de pessoas não tinham acesso à eletricidade no Peru, sendo, por isso, o caso de Víctor um entre muitos.

Mas, agora, a sorte parece ter mudado para este jovem: Yaqoob Yusuf Ahmed Mubarak, multimilionário de 31 anos, decidiu ajudar a criança uma vez que também ele viveu uma história semelhante. Viajou do Médio Oriente para o Peru e, segundo a imprensa internacional, prometeu reconstruir a casa deste jovem. Na altura, também o autarca local ficou sensibilizado com a questão, oferecendo-se para pagar o material escolar.

“Agradeço às pessoas que fazem isto por mim, agradeço-lhes muito pela gentileza e pelo tempo de virem à minha humilde casa”, agradeceu o jovem peruano, citado pela imprensa local.

O caso não é único e acontece em vários países do mundo. Em 2015, Balinder Singh, que vivia na Índia, foi também encontrado a estudar na rua aproveitando a luz de um poste de eletricidade. Da Índia saltamos para as Filipinas, onde a história também se repete. Daniel Cabrera tinha nove anos também em 2015 e vivia numa tenda sem eletricidade, com a mãe e com um irmão, depois de a casa em que viviam se ter incendiado. Foi encontrado a estudar também no meio da rua, aproveitando a luz de um McDonald’s local. E também esta história teve um final feliz: uma onda de solidariedade mundial conseguiu arrecadar fundos suficientes para que Daniel tivesse os estudos pagos até à faculdade.

 

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