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De filhos do meio da história, a protagonistas da maior Guerra de sempre

De filhos do meio da história, a protagonistas da maior Guerra de sempre

Diogo Vaz Pinto 29/05/2019 15:01

Há 20 anos, Fight Club estreou e muitos sentiram como seu o grito daquela geração orfã de uma Causa ou até de uma Grande Guerra. Hoje, todas as guerras parecem meras escaramuças face à Guerra que nos espera.

Na recta final de 1999, com a viragem do século a dar folga a todo o tipo de paranóias, Fight Club chegou às salas de cinema numa altura em que os ânimos estavam particularmente sensíveis. A truculenta sátira  adaptada do romance de Chuck Palahniuk deitava o dedo à ferida de uma geração que mal distinguia o grilo falante da voz nos anúncios, a ditar-lhes o que vestir, beber, comer e conduzir para se sentir completa. Com Edward Norton e Brad Pitt à frente de um soberbo elenco, o filme abriu em primeiro lugar, mas logo deu um tralho e, nas semanas seguintes, foi cambaleando sem nem sacar o mínimo para cobrir o prejuízo, isto depois de ter levado um monumental tareão da crítica.

Na “New Yorker”, David Denby disse que não passava de “uma rapsódia fascista a fazer a pose como metáfora libertária”. E no “Observer”, Rex Reed afirmou que era “um filme onde não se encontrava uma única qualidade redentora, e que o mais certo é que tivesse de encontrar a sua audiência no inferno”. Kenneth Turan, no “Los Angeles Times”, disse que a fita era “uma diatribe lamurienta, com uma filosofia infantilóide a fazer-se valer de uma violência de quebrar ossos”. Foi quando já ninguém esperava nada dela, que a fita em que David Fincher refez o laço na atmosfera neo-noir que tornou “Se7en” um sucesso, cuspiu o próprio sangue nas trombas de quem lhe partira a cara, e desatou numa gargalhada diabólica, tornando-se um sucesso no segund round, nos clubes de vídeo. Já lá vão duas décadas. E nesse período, como declarou o “New York Times” no 10.º aniversário do filme, este “tornou-se o filme de culto definidor da nossa época”.

Mas não viemos aqui apenas pela efeméride, ou para vir incensar a fita, dizer que envelheceu maravilhosamente, ou que a sua desabusada crítica à alienação consumista revigorou a sua actualidade. Mais curioso, nestes 20 anos, é notar que algo de crucial mudou. A certa altura, Tyler Durden olha para a rapaziada que desceu a uma lúgubre cave de um restaurante para espancar até à inanição essa ânsia de auto-aperfeiçoamento que é o signo do individualismo moderno, e diz: “A publicidade conseguiu pôr-nos a correr atrás de carros e roupas, a dar o litro em empregos que detestamos para comprar merdas de que não precisamos. Somos os filhos do meio da história. Nenhum propósito ou lugar a que chamar nosso. Não temos nenhuma Grande Guerra. Nem Grande Depressão. A Nossa Grande Guerra é uma guerra espiritual... a nossa Grande Depressão são as nossas vidas. Todos nos criámos em frente à televisão a acreditar que um dia íamos ser milionários, deuses do cinema e estrelas de rock. Mas não vamos. Aos poucos, vamo-nos dando conta disso.”

Se este filme foi para muitos uma machadada no ombro, e se se serviu magistralmente das técnicas da publicidade, escavou uma galeria debaixo daquele idílio e armadilhou as colunas; se soube diluir e condensou a cartilha anarquista numa série de punch lines, e significou um despertar para muitos em relação a um “inexpressivo holocausto da história” (Cioran), esse vazio no qual refocila toda uma geração, vidas que se desfiam a engonhar até que chegue a hora de vestir o pijama de madeira, serem devoradas pela vala comum, de lá para cá deu-se um novo despertar. Este bem mais duro, inevitável. A própria crise das dívidas soberanas que sacudiu os mercados financeiros em 2008, parece ter sido apenas um aperitivo, tendo em conta o que nos está reservado para os próximos tempos. Hoje, vemos como se estão a vencer em cascada as dívidas acumuladas ao longo de décadas, que nos levaram a construir um regime iludido pelo optimismo de um crescimento infinito. Pelo menos num aspecto podemos sentir uma espécie de entusiasmo, pois passámos dos filhos do meio da história, e somos a geração que, de acordo com Bill McKibben, o jornalista que há mais tempo e com maior repercussão tem feito a cobertura da crise climática, tem pela frente “a maior luta na história humana” – e uma cujo resultado irá reverberar, não por um período que se mede em décadas ou séculos, mas em eras geológicas. E esta luta já começou.

Desde logo esta Grande Guerra não é apenas espiritual ou psicológica, uma vez que terão de ser cultivados novos hábitos, num contraste decisivo com o estilo de vida a que nos habituámos, mas ainda antes de ser uma guerra para conter os efeitos de todo o mal já feito, é uma guerra geracional, com as novas gerações, por uma vez, a terem de lutar por uma hipótese de sobrevivência contra todo um legado ideológico e uma forma de egoísmo cultural que não olha a meios, e que hipoteca o próprio futuro da humanidade, para cumprir metas trimestrais e conseguir um bónus salarial.

Dentro de algumas décadas, os actores políticos que, nos nossos dias, tomam parte nas campanhas negacionistas financiadas pela indústria dos combustíveis fósseis, não serão encarados pela história de forma mais benevolente do que os mestres da indústria de morte da Alemanha nazi. Sempre imaginámos o Juízo Final como um evento em que cada um seria julgado pelos seus méritos e falhas individuais, mas hoje talvez faça mais sentido pensar num julgamento colectivo. Quem estiver minimamente atento, ter-se-á dado conta de que entrámos já num novo período histórico em que se irão suceder à escala global uma série de dramas ligados à escassez de água, a incêndios florestais de dimensões aterradoras – como aquele que ainda está bem fresco na memória de todos nós –, e em que a elevação do nível do mar irá desalojar milhões de pessoas, e os choques de temperaturas passarão a ser registados como desastres que dão o tique taque de uma nova normalidade. Hoje, as gerações mais novas não têm apenas que se debater com a precariedade que torna o futuro tão incerto e mais difícil ter filhos. A grande questão que se põe a um número crescente de pessoas é esta: qual é o futuro em que os filhos irão crescer? E se não é imoral, tendo em conta as previsões que a comunidade científica em peso corrobora, trazer ao mundo crianças para assistir ao fim do mundo em que crescemos?

Numa altura em que, nem com todo o dinheiro despejado pelas indústrias de combustíveis fósseis é possível tapar as evidências da catástrofe que se avizinha, uma vez que a própria natureza está já em campanha para deitar por terra as ilusões negacionistas, com uma orgia de desastres naturais a sucederem-se quase semanalmente, como Bill McKibben notou, a indústria sabe que já não é possível continuar a obfuscar a ciência. E por isso, agora “concentra-se em tentar retardar a inevitável mudança para as energias renováveis, preservando o seu modelo de negócios enquanto for possível”.

Num artigo publicado na “New Yorker”, a jornalista Rachel Riederer coloca em confronto as posições de uma série de especialistas ligados que estudam a questão ambientalista do ponto de vista do impacto psicológico que a sua consciência provoca em nós. Se esta crise parece, finalmente, estar a adquirir destaque nos meios de comunicação social, isso deve-se claramente à pressão vinda de grupos de jovens activistas. E há, finalmente, indícios de uma politização em volta deste tema, que irá forçar mudanças drásticas no plano governamental. O slogan tão popular no qual os miúdos se questionam para que serve ir à escola que os prepara para um futuro que já não se perspectiva, pode bem tornar-se o grito que fará desabar a estrutura social a partir da base.

Mas estamos ainda num capítulo anterior, “num terreno psicológico”, como nos mostra o artigo de Riederer, em que a incerteza em relação às alterações climáticas tem gerado um sentimento de impotência, em que a difusa sensação de pânico pode paralizar-nos, com a crise climática a arriscar-se a produzir uma crise de ansiedade generalizada. Por esta altura, como torna claro o artigo de Riederer, o grande motivo de debate entre os especialistas que estudam e abordam o tema de uma perspectiva psicológica leva-os a dividirem-se entre aqueles que acreditam que o terror pode levar-nos à resignação e aqueles que consideram que o medo é precisamente aquilo de que estamos a precisar para reconhecer o perigo existencial que enfrentamos e agir para evitar o pior cenário.

Margaret Klein Salamon, uma psicóloga clínica que fundou uma oragnização de defesa do ambiente e que está a prepar um livro de auto-ajuda sobre o tema, chamado “Transform Yourself with Climate Truth”, diz que ninguém pode ficar surpreendido ao ver que uma boa parte da população construa mecanismos de defesa para se escudar da verdade quando ela é tão assustadora. Entre os tantos dados arrepiantes que poderíamos pôr aqui em desfile, foquemo-nos num só: se as emissões de carbono continuarem a subir, as plantas irão produzir mais açúcares e menos nutrientes. Assim, em 2050, comer vegetais ou comida de plástico irá dar no mesmo.

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