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Europa. As tendências de um novo Parlamento Europeu caótico

Europa. As tendências de um novo Parlamento Europeu caótico

João Campos Rodrigues 28/05/2019 13:27

Do descontentamento com o Brexit à expressão política das preocupações ambientais, passando pela reorganização dos nacionalistas, é difícil compreender o quebra-cabeças que saiu das europeias.

Maré verde: A crescente preocupação global com as alterações climáticas ficou bem patente nestas eleições europeias, que viram uma maré de apoio aos Verdes um pouco por todo o continente. O bloco ambientalista acabou com 69 assentos parlamentares, comparados com os 58 que tinha, um aumento significativo, tendo em conta que não têm representação em muitos países europeus. As várias greves estudantis pelo clima, inspiradas na ativista sueca Greta Thunberg, terão tido um papel na vitória dos Verdes, que conseguiram 25% dos votos de eleitores entre os 18 e os 25 anos em França, comparados com os 15% do Reencontro Nacional de Marine Le Pen e 12% no República em Marcha de Emmanuel Macron, os dois partidos mais votados em França. Já na Alemanha, os Verdes surpreenderam tudo e todos, quase duplicando a sua votação – de 10,7% para 20,5% – e ultrapassando os sociais-democratas do SPD como segunda maior força política. Países como a Irlanda, Finlândia, Lituânia, e Portugal – onde o PAN mais que triplicou o seu resultado de 2014 – também sentiram o crescimento dos Verdes. Curiosamente, um dos poucos países onde isso não se verificou foi na Suécia, o país natal de Greta – onde os Verdes até desceram de 15,41% dos votos para 11,4%.

As fraturas do Brexit: Se há algo que se tira dos bizarros resultados das eleições europeias no Reino Unido é que os eleitores estão fartos da confusão do Brexit – e exigem clareza aos seus representantes. Os vencedores são sem dúvida o Partido do Brexit, de Nigel Farage – que está confortável com uma saída não negociada da UE – e os Democratas Liberais, que querem um novo referendo do Brexit. Algo que não tem nada a ver com a indecisão dos dois maiores partidos, como o Partido Conservador – que está a ser disputado entre os defensores de uma saída acordada e os brexiteers de linha dura – e o Partido Trabalhista, liderado por Jeremy Corbyn, que propõe uma saída acordada que envolva uma união aduaneira, com oposição interna dos defensores de um segundo referendo. O que culminou no pior resultado de sempre dos conservadores nas eleições europeias, com uns míseros 8,7% dos votos, bem como a queda do Labour – que passou de ter 24,74% dos votos para 14,08%. Um resultado em que os principais partidos não deixaram de reparar. Corbyn disse estar a “escutar muito atentamente” ambos os lados do debate, reconhecendo que qualquer acordo aprovado terá de passar por um segundo referendo. E enquanto isso, Boris Johnson, o conservador eurocético considerado o mais provável sucessor de Theresa May, já avisou que a única maneira de evitar “uma hemorragia permanente” do apoio ao partido é “sair da UE; e fazê-lo como deve ser” – ou seja, sem chegar necessariamente a um acordo com os líderes europeus.

Os nacionalistas: Os partidos europeístas continuam a estar em maioria no Parlamento Europeu – apesar dos nacionalistas voltarem a crescer. Países como Portugal, Espanha, Holanda, Dinamarca ou a Irlanda escaparam à maré, mas ainda assim os vários grupos parlamentares da direita eurocética reforçaram-se, conseguindo 171 deputados, cerca de 23% do hemiciclo. Sem contar com forças como o Fidezn – atualmente suspenso do Partido Popular Europeu, cujo líder, o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, já prometeu “trabalhar em conjunto com todos os que queiram parar a imigração”. A extrema-direita arrebatou Itália, pela mão do seu ministro do Interior, Matteo Salvini, que conseguiu 34,33% dos votos, batendo largamente os seus parceiros de Governo do Movimento 5 Estrelas. Mal saíram os resultados finais, esta segunda-feira, Salvini começou de imediato discussões tanto com Orbán como com Farage, bem como com os espanhóis do Vox, de modo a ultrapassar as diferenças que os afastam. Salvini já tem ao seu lado Marine Le Pen, do Reencontro Nacional, que bateu o República em Marcha do Presidente francês, Emmanuel Macron, por uma curta margem de 23,31% a 22,41%.

Tsipras derrotado: Em reação direta às eleições europeias, Alexis Tsipras, primeiro-ministro grego, quer convocar eleições antecipadas. O seu partido, o Syriza, apenas conseguiu 24% do votos – sendo ultrapassado pela direita do Nova Democracia, que teve 33%. O Syriza conquistou o apoio de boa parte da população grega em 2015, afirmando-se como a grande força anti-austeritária na Europa, até se submeter à pressão de Bruxelas, ainda esse ano. Embora não se tenha saído comparativamente pior em 2014, é visível o desgaste do partido, por governar com um programa completamente oposto àquele que o levou ao poder. “O resultado eleitoral ficou aquém das nossas expectativas”, reconheceu Tsipras. Era esperada uma perda de votos nas eleições, mas não por uma margem de quase dez pontos percentuais. O líder do Syriza vai reunir-se com o Presidente grego, Prokopis Pavlopoulos, para conversarem sobre a possibilidade de marcar eleições imediatamente após as eleições municipais, na próxima semana. Antes do primeiro-ministro se pronunciar, o líder da Nova Democracia, Kyriakos Mitsotakis, já tinha apelado à demissão de Tsipras ”O primeiro-ministro tem que assumir a sua responsabilidade. Para o bem do país, tem que se demitir e realizar eleições”. As eleições estavam previstas para outubro deste ano. Mas agora arriscam ser o canto de cisne do Governo que foi por breves momentos a esperança da esquerda radical europeia – que sai derrotada destas eleições, com menos deputados do que aqueles com que entrou.

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