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Tiago Domingos 28/05/2019
Tiago Domingos
Opinião

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É Portugal uma Economia de Serviços? O Paradoxo da Energia e a Doença de Baumol

As empresas do setor dos serviços, para atraírem (ou reterem) a mão-de-obra de que necessitam, são obrigadas a subir os seus salários; no entanto, como não houve um aumento da produtividade, esse aumento reflete-se no aumento do preço dos bens produzidos pelo setor dos serviços.

É comum afirmar-se que hoje vivemos numa economia de serviços. De facto, enquanto em 1960 o setor dos serviços representava 45% do PIB nacional, agora representa 75%. Analogamente, em 1970 representava 41% do emprego, e agora representa 68%.

Do ponto de vista ambiental, esta transição para uma economia de serviços é frequentemente apontada como muito favorável. As atividades dos serviços (em contraste com a agricultura, a indústria e a construção) são tendencialmente “imateriais”, isto é, são principalmente baseadas em fornecimento de informação e portanto exigem menos matéria e energia e geram menos impactes ambientais. Assim, uma economia baseada nos serviços deveria ter uma menor “intensidade energética” (menor consumo de energia por unidade de PIB).

Esta conclusão torna paradoxal o resultado obtido em investigação recente no Instituto Superior Técnico, em que se constatou que desde 1960 a intensidade energética (medida corretamente, como energia útil a dividir por PIB) manteve-se constante, num valor de cerca de 1 MJ por euro, a preços de 2010. Isto é, desde 1960 tivemos um aumento significativo do peso dos serviços na economia, mas não houve nenhuma “desmaterialização” da economia – continuamos a precisar da mesma energia por unidade de PIB. Como explicar este “paradoxo da energia”?

Nos anos 1960, um economista chamado William J. Baumol formulou o famoso conceito de “doença de Baumol”. Baumol partiu da constatação de que, nas economias em crescimento, a produtividade da indústria (isto é, a produção por trabalhador) aumenta acentuadamente, enquanto que a produtividade dos serviços se mantém aproximadamente constante.

Esta diferença é frequentemente estrutural, dado que em muitos casos a disponibilização do serviço é proporcional ao uso de trabalho humano. Por exemplo, para “fornecer” ao vivo um quarteto de Beethoven (o exemplo clássico usado por Baumol) precisamos de dois violinistas, um violetista e um violoncelista, durante um tempo fixo – não é possível nem diminuir o número de músicos, nem o tempo que demoram a tocar o quarteto – não é, portanto, possível aumentar a produtividade dos trabalhadores.

Assim, de acordo com Baumol, assumindo, por simplicidade, que ao longo do processo de crescimento económico o interesse dos consumidores pelos bens materiais da indústria e pelos bens imateriais dos serviços se mantém constante (isto é, a proporção de consumo da cada tipo de bem mantém-se constante), será necessária uma proporção cada vez menor de trabalhadores na indústria (dado que a produtividade neste setor está a aumentar) e um correspondente aumento da proporção de trabalhadores nos serviços. De facto, este é o padrão empírico que observamos.

Por outro lado, como a produtividade na indústria está a aumentar, os salários reais na indústria também aumentam, sem que esse aumento de salários se reflita no preço dos bens produzidos pela indústria (carros, computadores, etc.). As empresas do setor dos serviços, para atraírem (ou reterem) a mão-de-obra de que necessitam, são obrigadas a subir os seus salários; no entanto, como não houve um aumento da produtividade, esse aumento reflete-se no aumento do preço dos bens produzidos pelo setor dos serviços (música, saúde, educação, etc.). Assim, o peso no PIB do setor dos serviços aumenta.

No entanto, isto não corresponde a uma diminuição do peso real da indústria e a um aumento do peso real dos serviços: o seu contributo para os bens de consumo para os portugueses manteve-se nas mesmas proporções.

Concluímos assim que, do ponto de vista da sua produção, a economia portuguesa (tal como muitas outras) não teve de facto uma transição para uma economia de serviços e assim, com a ajuda da doença de Baumol explicamos o paradoxo da energia: se a proporção entre indústria e serviços não mudou, a economia portuguesa não se desmaterializou, e portanto mantém uma relação constante entre energia e PIB.

Para o futuro, podemos pensar que, na era da indústria 4.0, da digitalização massiva e da inteligência artificial, vamos passar a ver aumentos significativos de produtividade no setor dos serviços (isto é, no fornecimento de informação), o que poderá curar a doença de Baumol. No entanto, todo o processamento de informação exige ele próprio energia, e portanto fica ainda incerto se é nessa altura que iremos observar uma real desmaterialização da economia, isto é, se vamos resolver o paradoxo da energia.

Professor de Ambiente e Energia no Instituto Superior Técnico

 

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