16/9/19
 
 
João Lemos Esteves 28/05/2019
João Lemos Esteves

opiniao@newsplex.pt

Deixem-se de tretas: sim, foi uma vitória poucochinha do Costa poucochinho!

Se António Costa, em 2014, exigiu a demissão de António José Seguro, atendendo ao resultado eleitoral pouco expressivo nas europeias, o mesmo António Costa tem que ser coerente e retirar as devidas ilações quanto ao seu futuro político.

1. António Vitorino costumava afirmar que não há festa, nem festança, em que não apareça a Dona Constança – isto para expressar a ideia de que sempre que se abre a disputa para a liderança socialista, lá aparecia sistematicamente o seu nome. Hoje, graças ao controlo do PS sobre vastíssimos domínios da vida social e da influência feroz que exerce sobre a comunicação social, a expressão adquiriu um conjunto ilimitado de significados: não há cargo ou cargozinho na estrutura político-administrativa do Estado que não seja usurpado pelos socialistas. António Costa é o líder do PS geringonçado; já não é, pois, o PS da Constança de Vitorino, mas sim o PS de Costa geringonçado – o António é mesmo o Mr. Costança (simbiose entre Costa e geringonça, a combinação fatal para as nossas vidas e sobretudo para o futuro de Portugal).

2. Dito isto, a verdade é que, ao invés, das proclamações dos media, a realidade demonstra que a vitória de António Costa foi um triunfo poucochinho do primeiro-ministro poucochinho. Efectivamente, em termos de número de votos, as preferências eleitorais obtidas pelo PS de Costa aumentou apenas ligeiramente em comparação com o score eleitoral de António José Seguro em 2014. A mesma conclusão se aplica no que concerne à percentagem de votos. Dir-se-á, no entanto, que o critério relevante para apurar quão “poucochinha” (ou “grandechinha”) é a vitória prende-se com o hiato face ao segundo classificado, ou seja, ao maior partido da oposição, o PPD/PSD. Ora, como a diferença entre os dois partidos foi de cerca de nove pontos percentuais, a vitória do PS de António Costa foi esmagadora – tal conclusão apenas pode ser subscrita pelos comentadores e jornalistas que perspectivem a realidade com óculos rosinhas (e hoje são a maioria, infelizmente para a verdade e à transparência democrática…).

3. Vamos, agora, aos factos. Se somarmos as percentagens obtidas pelo PPD/PSD e pelo CDS, inferiremos que a percentagem obtida pelos partidos tradicionais do centro-direita cifrou-se em perto de 29% dos sufrágios. Donde, a diferença entre a coligação que surgiu no boletim de voto, em 2014, e a soma dos dois partidos que agora se apresentaram autonomamente ao eleitorado português é positiva para o centro-direita – sendo que a diferença face aos socialistas é de apenas sensivelmente 4%. Mais: em rigor, a análise hoje não se poderá limitar à soma dos resultados obtidos pelo CDS e pelo PPD/PSD. O espaço do centro-direita é, doravante, mais amplo, abrangendo novas formações partidárias que conseguiram resultados bastante lisonjeiros, atendendo ao contexto geral de desinteresse gerado pelas eleições europeias e à histórica rigidez do sistema partidário português: o Aliança, o Basta e o Iniciativa Liberal obtiveram, em conjunto, mais de 3% das preferências dos portugueses. O que significa que o espaço político da direita logrou atingir um score eleitoral de pouco mais de 33%; donde, a décalage face ao PS de Costança foi mínima. Não podemos ignorar que o eleitorado que estes novos partidos atraíram corresponde a um conjunto de cidadãos que votaria entre o PPD/PSD e o CDS, acaso o sistema partidário português se mantivesse inalterado. Qualquer juízo comparativo não pode, destarte, ignorar esta realidade elementar, sob pena de se revelar altamente falacioso.

4. Foi uma diferença, em termos de percentagem eleitoral, verdadeiramente poucochinha. Se António Costa, em 2014, exigiu a demissão de António José Seguro, atendendo ao resultado eleitoral pouco expressivo nas europeias, o mesmo António Costa tem que ser coerente e retirar as devidas ilações quanto ao seu futuro político. Não por acaso António Costa já anda a planear a sua fuga para Bruxelas, para uma espécie de exílio político dourado que culminará, em 2026, na sua candidatura presidencial. E a verdade é que o inconsciente de António Costa partilha da nossa opinião – basta evocar a frase que Costa proferiu, no discurso de vitória, em que admitiu que raramente um partido que está no Governo ganha eleições legislativas. Este (aparentemente) lapsus linguae prova que, no seu íntimo, António Costança reconhece que a sua vitória de domingo foi verdadeiramente de pirro, podendo levantar dificuldades várias e legitimando cenários mais pessimistas para as legislativas de Outubro. Se há facto que o veredicto eleitoral de domingo prova, esse prende-se com a gritante incompetência de António Costa.

5. Senão, pensemos: António Costa, segundo a imprensa, é o líder político mais forte da União Europeia; António Costa vive um “bromance” com Emmanuel Macron; António Costa tem o Cristiano Ronaldo das Finanças, segundo os eurocratas fanáticos (e um pouco patéticos!); António Costa vive no Portugal das Maravilhas; António Costa acabou – diz a imprensa – com a austeridade, devolvendo dinheiro a tudo e a todos, segundo os propagandistas disfarçados sob o manto diáfano da imparcialidade; António Costa é o patrono de várias famílias socialistas, tornando Portugal o abono de família da maioria dos militantes socialistas; António Costa tem a mãe, o irmão, a prima e os correligionários políticos a liderarem os principais órgãos de comunicação social, sendo levado ao colinho pelos media… e, mesmo assim, Costa só consegue ter 34% em europeias?! É pouco, é muito poucochinho…Se nós tivéssemos a comunicação social completamente dominada, um polvo enorme a controlar a administração pública e só famílias amigas no poder, como Costa tem –- no mínimo, teríamos 50% dos votos… Até nisto, António Costa é um genuíno incompetente.

6. Por último, uma interrogação final: com uma abstenção de mais de 70%, será que os poucochinhos 34% do PS correspondem à votação de Carlos César, mulher, filhos, primos, primos afastados e por aí fora? Apostamos que, na família César, a abstenção foi de 0%... Afinal de contas, a família terá que preencher a quota que lhes caberá nos tachos de Bruxelas…

joaolemosesteves@gmail.com

Escreve à terça-feira

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×