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Luís Menezes Leitão 28/05/2019
Luís Menezes Leitão

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Tudo como dantes?

Não se exibem antigos líderes em procissão na campanha eleitoral, como se alguém no país suspirasse pelo seu regresso, o que só serve para desvalorizar os líderes actuais.

Uma análise possível do resultado destas eleições europeias é efectuar uma comparação com os resultados de 2014. Nesse aspecto poderá ser-se tentado a dizer que pouca coisa mudou. Na verdade, António Costa não conseguiu descolar do resultado “poucochinho” que António José Seguro teve há cinco anos, tendo-se limitado a passar de 31,46% para 33,38%. O PSD e o CDS também não se afastam muito dos resultados dessas eleições, tendo obtido agora respectivamente 21,94% e 6,19%, o que somados perfaz 28,13%, pouco mais do que os 27,71% que então obtiveram. Por sua vez, os partidos da extrema-esquerda continuam a representar somados cerca de 17% dos votos, ainda que estas eleições tenham alterado o seu peso relativo, beneficiando o BE em relação à CDU. Por último, verifica-se também pela segunda vez a emergência nas urnas de um partido verde, tendo o MPT, que em 2014 foi encabeçado por Marinho e Pinto, sido agora substituído pelo PAN com uma votação relativamente próxima. Poderia assim dizer-se: tudo como dantes, quartel-general em Abrantes.

Só que essa análise seria absolutamente falaciosa e não espelharia a derrota colossal do centro-direita nestas eleições. Na verdade, não faz qualquer sentido comparar alhos com bugalhos. As eleições de 2014 ocorreram num quadro duríssimo de intervenção externa, com o PSD e o CDS no Governo a serem altamente penalizados pelas medidas de austeridade que tiveram que aplicar. O PS estava então na oposição e seria, por isso, natural que ganhasse essas eleições. Neste momento, o PS está no Governo e consegue ter um resultado semelhante ao que obteve nas legislativas de 2015, conseguindo assim sobreviver ao desgaste de uma governação inoperante, em que se assistiu a um colossal aumento de impostos, à degradação dos serviços públicos e até à ocupação do Estado por amigos e familiares. O centro-direita só se pode assim queixar de si próprio por ter obtido tão magro resultado nestas eleições. E é evidente que, se repetir este resultado nas legislativas, ficará fora do governo por muitos anos.

Basta ver que, com estes resultados, António Costa teria muito mais facilidade em montar uma nova geringonça e até em governar sozinho. O PCP, o partido mais renitente no apoio ao Governo, afunda-se, contando agora António Costa com um Bloco reforçado e com um PAN ainda mais dócil, que facilmente se aliarão ao PS para formar governo em Outubro. Tudo aponta assim para uma Geringonça II, com o resultado habitual de a sequela ser muito pior do que o filme original.

Para este enorme fracasso muito contribuíram vários erros cometidos pelo PSD e pelo CDS nestas eleições. Em primeiro lugar não se candidatam pela terceira vez os mesmos cabeças-de-lista, o que contribui para dar uma imagem de incapacidade de renovação dessas listas. Depois não se exibem antigos líderes em procissão na campanha eleitoral, como se alguém no país suspirasse pelo seu regresso, o que só serve para desvalorizar os líderes actuais. O PS apresentou um cabeça-de-lista novo, e fez aparecer apenas o seu líder na campanha, não parecendo que se tenha dado mal com isso. As eleições ganham-se prometendo o futuro e não falando do passado.

Em segundo lugar, o PSD e o CDS têm que defender os interesses dos seus eleitores, sendo um erro crasso a sucessiva aproximação aos partidos de esquerda que tem sido por eles efectuada. Os acordos do PSD com o PS, a proposta de Rio de adopção da taxa Robles, e especialmente a forma como o PSD e o CDS se quiseram aliar ao PCP e ao BE na questão dos professores desmotivaram completamente o eleitorado do centro-direita e atiraram-no para a abstenção. Permitir que o PS ultrapasse o PSD e o CDS pela direita é absolutamente mortal para qualquer partido do centro-direita que se preze. E, como se viu, não é fazendo zigue-zagues para evitar essa ultrapassagem que PSD e CDS evitam estampanços eleitorais.

Finalmente, os partidos do centro-direita têm que concorrer unidos e não separados. Nestas eleições PSD e CDS teriam ganho um deputado se tivessem concorrido juntos. E já se viu que não se ganha nada em criar novos partidos, que nada têm para apresentar aos eleitores a não ser o ego pessoal do seu fundador. No momento em que a esquerda se une, é perfeitamente disparatado que o centro-direita se divida, especialmente quando nada justifica essa divisão.

O centro-direita só tem assim em Portugal uma opção: unir-se e lutar para ganhar as próximas legislativas. Tudo como dantes não pode continuar.

Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

Escreve à terça-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

 

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