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Maio 69. Em memória dos estudantes que nunca traíram!

Maio 69. Em memória dos estudantes que nunca traíram!

27/05/2019 19:20

"A Crise Académica de Coimbra 1969 - Uma Reportagem fotográfica" é um documento único sobre os acontecimentos que cumprem agora 50 anos.

Não sei se uma imagem vale mil palavras, como o povo gosta de dizer, mas há imagens que dificilmente podem ser transformadas em palavras. Talvez tenha sido esse o princípio de José Veloso, membro da Secção Fotográfica da Associação Académica de Coimbra em 1969, que se dedicou à pesquisa e à seleção do trabalho de muitos dos seus colegas de todo um movimento que culminou com o simbólico pedido de palavra do presidente da academia, Alberto Martins, à mesa de honra, presidida por Américo Thomaz. Ele próprio elenca os nomes: José Miguéns, José Veloso, Carlos Valente, Renato Leitão, Armando Cunha, António José Mendes, José Manuel Antunes, Hélio Fidalgo e o profissional Carlos Ramos. As imagens, valham elas as palavras que valerem, são deles. E a Editorial Caminho criou uma obra notável.

Cinquenta anos se passaram entretanto, assim mesmo, por extenso. O regime sofreu o abalo de perceber que a juventude portuguesa, que estava a preparar para a sucessão das figuras carregadas de mofo, não se revia na política educativa de um país parado no tempo.

A inauguração de um novo edifício na estrutura da faculdade, que ficaria conhecido como Edifício das Matemáticas, no dia 17 de abril, abriu os diques do descontentamento coletivo estudantil. O povo saiu à rua, de capa e batina. A PIDE lançou-se, como sempre, na sua empreitada sinistra, cobarde e subserviente.

Levantou-se uma greve maciça aos exames de julho, a Académica jogou, no Estádio Nacional, a 22 de junho, contra o Benfica, a final mais politizada de sempre da Taça de Portugal: Américo Thomaz não compareceu; Hermano Saraiva, ministro da Educação, muito menos. Afinal, de que lado transpirava o medo? Milhares e milhares de estudantes puseram em causa as instituições. As pessoas perceberam, cada qual à sua maneira, que o fascismo não era uma fatalidade de país triste, este que é tudo o que o mar não quer, como dizia Ruy Belo.

1969 talvez tenha sido uma viagem ao futuro. Seria ainda preciso esperar cinco anos para que Sophia de Mello Breyner escrevesse: “Esta é a madrugada que eu esperava/ O dia inicial inteiro e limpo/ Onde emergimos da noite e do silêncio/ E livres habitamos a substância do tempo”. Em Coimbra, do Choupal até à Lapa, havia uma alma jovem e coletiva que acreditava que era o tempo de mudança. O tempo de uma mudança inevitável.  
 

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