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Binyavanga Wainaina. África minha, o tanas!

Binyavanga Wainaina. África minha, o tanas!

Diogo Vaz Pinto 24/05/2019 12:14

Morreu aos 48 anos, de um derrame cerebral, o escritor queniano e ativista dos direitos gays que explicou aos pataratas ocidentais “Como escrever sobre África” e impressionar os amigos.

 

O escritor queniano Binyavanga Wainaina, uma mordaz e clarividente consciência que se empenhou na luta pelos direitos LGBTI e abriu caminho a uma nova geração de escritores africanos, morreu na noite de terça-feira, em Nairobi. Tinha já antes sofrido outros derrames cerebrais, mas desta vez não resistiu. O mesmo problema tirou a vida ao pai e, na mensagem que lhe dedicou numa TED talk, em 2015, o escritor dizia que “isto que nos passa pela cabeça, deve ser meio genético”, mas o stress com certeza também ajuda. Tinha planeado casar-se nos próximos meses, na África do Sul (país que permite o matrimónio entre pessoas do mesmo sexo), com o homem com quem vivia há anos, e claramente não estava a contar que a vida lhe fugisse tão cedo. Tinha 48 anos.

Do dia para a noite, Wainaina tornou-se uma das vozes mais relevantes na literatura africana, e isto depois da sensação que causou, em 2005, a formidável peça de sátira How to write about Africa (Como escrever sobre África), que é considerado um dos mais contundentes ensaios críticos na história da prestigiada revista Granta. Este texto começou por ser um email enviado ao editor da revista em reação ao número 48, dedicado a África. Despindo-se da ira e investindo numa jocosa paródia que captura bem o género de estereótipos de que se servem jornalistas, romancistas e historiadores para falar sobre África - e a miríade de países que estão contidos nesse saco, povos, idiomas e animais, - Wainaina virou essa nefanda lengalenga contra aqueles que, de todo aquele continente, retêm pouco mais que o “sonho de um copo com água”.

Aproveitando o célebre formato dos conselhos que trocam os escritores entre si, mas dirigindo-se aos visitantes ocidentais, o queniano recomenda: “No teu texto, trata África como se fosse um país só. É quente e poeirento com prados a perder de vista e manadas enormes de animais, e pessoas altas, magras, a morrer de fome. Ou então é quente e húmido com pessoas atarracadas que se alimentam de primatas. Não te preocupes com a precisão ou o detalhe nas descrições. África é imensa: são 54 países, 900 milhões de pessoas demasiado ocupadas a passar fome, a morrer, a guerrear entre si e a emigrar para terem tempo para se sentarem a ler o teu livro”.

Alguns anos mais tarde, depois de muitos leitores terem pedido mais conselhos, Wainaina deixou-se convencer a escrever uma segunda parte, em que recorda o processo que deu origem ao ensaio: “A coisa veio num ataque de raiva, talvez até por ter baixado o nível de açúcar no sangue - é um problema de família -, passei algumas horas de uma noite no meu apartamento em Norwich, Inglaterra, enquanto fazia a pós-graduação, a escrever ao editor da Granta. Estava a reagir ao número sobre ‘África’, que estava povoado por tudo o que fossem bichos-papões literários que perseguem os africanos, uma espécie de Greatest Hits do Coração das Trevas ['Heart of Fuckedness', no original]. E nem foi o aspeto mais sombrio ou desesperado o que me impressionou, mas a estupidez. Não havia ali nada de novo, mas com tanta reportagem - Ai, Jasu, que raio, olha só - como se África e os africanos não pudessem participar na conversa, como se não vivessem em Inglaterra, do outro lado da rua, mesmo em frente aos escritórios da Granta. Não, nós estávamos lá, naquela merda, onde os bravos podem ir vestidos de caqui e testemunhar o horror. Que se foda isto. Então, escrevi o longo email, um verdadeiro testamento, ao editor”.

Antes desse episódio, Wainaina tinha começado como jornalista, escrevendo sobre gastronomia e viagens, até que, em 2002, com o livro Discovering Home, conquistou o Prémio Caine de Literatura, que faz o trabalho de sapa no sentido de descobrir talento entre os novos escritores africanos. Não demorou muito para que o seu estilo empenhado, provocador e incisivo lhe conquistasse um número expressivo de leitores, e o queniano logo se serviu do peso que foi ganhando para criar uma plataforma onde pudessem intervir uma nova geração de escritores do corno de África. Assim, em 2003, surge a revista Kwani - e agora, o quê? -, em Nairobi. Era a primeira revista literária regional a aparecer desde que Transitiony se tinha eclipsado. Entre as muitas interrogações que lançou, esta publicação questionava-se porque se contentam esses países em ter apenas um escritor - no caso, Ngugi Wa Thiong’o, o crónico candidato ao Nobel. Assim, a Kwani? tornou-se um viveiro para jovens prosadores, poetas e ensaístas, com vários, mais tarde, a vencerem também o prémio Caine.

Em 2011, Wainaina publica o livro de memórias One Day I Will Write About This Place, aclamado pela crítica no país e no estrangeiro. No entanto, os leitores notaram que, com todas as revelações ali contidas, a vida amorosa do escritor tinha ficado de fora, segundo ele porque, na altura, ainda não se sentia preparado para ir mais longe. Mas em 2014, depois de muito se debater sobre se devia assumir a sua orientação sexual publicamente, publicou online o “capítulo perdido” do seu livro de memórias. 

Neste ensaio, revela que soube desde os cinco anos que era gay, mas que lutou para o manter em segredo durante muito tempo. O gatilho que o fez decidir-se foi uma série de leis homofóbicas que os países na região estavam a aprovar, e no ensaio, dirigido à mãe, diz que foi só após a sua morte que começou a explorar a sua sexualidade. Conta que só aos 39 anos conseguiu referir-se a si mesmo como gay, e que só com a morte dos pais conseguiu finalmente assumir-se. Nesse ano, a revista Time nomeou-o uma das 100 pessoas mais influentes do mundo.

Wainaina, que, em 2016, no Dia Mundial de Luta Contra a Sida, anunciou no Twitter que era VIH positivo “e feliz”, dois anos antes explicava que a razão pela qual sentiu a necessidade de se assumir foi para preservar a sua dignidade.

Numa entrevista à Associated Press, o escritor repudiou as leis que criminalizam a homossexualidade na Nigéria e no Uganda, e não se esqueceu de líderes como Vladimir Putin, que vestem a capa da virilidade enquanto lançam propaganda dirigida aos jovens e cuja mensagem passa por criar um cerco de vigilância odiosa aos homossexuais e a tudo o que infrinja a norma.

Wainaina morre a dias de se conhecer a decisão de um tribunal queniano que poderá abolir as leis que criminalizam os comportamentos homossexuais no país. E é certo que, seguindo o conselho do escritor, devíamos acabar o texto com uma citação de Nelson Mandela com algum arco-íris ou renascimentos, mas o otimismo já cansa, e talvez Wainaina tenha sido suficientemente eloquente para nos livrar das frases motivacionais que servem de suplemento a um mundo com cada vez menos razões para se levantar da cama: “Essa coisa dos viajantes das nuvens parece-me muito bem para quem domina a arte das aterragens súbitas. A mim, calhou-me ter de viver, e não me anima apenas sonhar com o que a vida podia ser”. 

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