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Acidente em Manique. “Quem nunca errou que cuspa para o ar”

Acidente em Manique. “Quem nunca errou que cuspa para o ar”

Rita Pereira Carvalho 23/05/2019 17:35

No passado sábado, uma menina de 11 anos morreu na sequência de um acidente. Ia na bagageira do carro. Em Manique – local do acidente – os moradores defendem a mãe da menina, que terá “um castigo para o resto da vida”. Rui Abrunhosa Gonçalves, psicólogo forense, explicou que “do ponto de vista específico, é verdade que já vai sofrer muito”.

Na rua da Ponte só se ouve o barulho dos carros, o resto é silêncio. Um silêncio triste. O sol bate nos restos dos vidros espalhados pelo chão e aquece a boneca de Mariana, colocada ao lado de uns postes verdes – é o sítio onde morreu, em Manique, Cascais. Na mesma rua, há papéis espalhados que não deixam esquecer o que se passou no sábado à noite, depois dos festejos do Benfica.

No cruzamento, há uma folha plastificada caída sobre a relva: uma mensagem do 6.ºF – a turma da Mariana. “Ninguém imagina o sofrimento daquela mãe, não há pior castigo do que este”, disse António Soares, que estava à frente do café a olhar para o sítio onde se deu o acidente.

No sábado, já passava da meia noite e António Soares estava no café que fica em frente ao supermercado dos pais de Mariana. Estavam a festejar o fim do campeonato nacional de futebol. “De repente ouvimos um barulho muito grande e viemos ver, quando ali chegámos já estava tudo como está agora e a menina estava morta”, conta com as lágrimas nos olhos.

A mãe de Mariana transportava oito pessoas no carro, incluindo duas crianças que seguiam na bagageira – Mariana com 11 anos e um rapaz com 13. “Eles vinham dali, estavam mesmo muito perto de casa”, diz António enquanto aponta desenhando o que se pode ver no mapa ao lado. O carro era obrigado a virar à direita para contornar o triângulo, já que em frente só podem ir os veículos pesados. “Estava de noite, a senhora foi em frente, quem nunca fez isso?”, diz uma das pessoas que passa junto ao cruzamento. A mãe da menina – que seguia com uma taxa de álcool de 0,5 g/l – ignorou o sinal de proibição e um carro que seguia à sua direita, embateu nas oito pessoas. O carro capotou e, a partir daí, já se sabe.

“Nessa tarde tinha estado a brincar com a menina”, diz um dos habitantes. Revoltado, o homem garante que é “uma família séria, são donos aqui do supermercado e nunca, nunca, aquela mãe ia fazer mal à filha”. E acrescentou: “Quem nunca errou, que cuspa para o ar e veja onde cai, é em cima deles”.

Há culpados? As análises e comentários a este caso são vários, mas existem várias formas de analisar acontecimentos: ou se olha para o resultado final e se tiram daí as conclusões, ou se analisam todos os passos até chegar a esse resultado. Nessa noite, houve mesmo quem quisesse fazer justiça pelas próprias mãos e tentou agredir quem seguia no carro com Mariana. Aliás, várias pessoas relatam que isso aconteceu pouco depois de o pai da menina de 11 anos – que seguia noutro carro – ter chegado ao local.

As redes sociais não perdoam e o julgamento através do clique aparece em momentos como este. Os comentários pejorativos a pedir a condenação da mãe de Mariana já são incontáveis. Há ainda quem coloque a hipótese de que a mulher poderá ser julgada por condução perigosa de veículo rodoviário – com pena até três anos de prisão – e ainda pelo crime de ofensa à integridade física – com pena semelhante. Ao i, Rui Abrunhosa Gonçalves, psicólogo forense, explicou o cenário de outra forma e considerou que “a culpa que esta pessoa sente já é muitíssimo elevada. Do ponto de vista específico, é verdade que já vai sofrer muito”.

“Mas temos de perceber todas as outras circunstâncias que rodeia este ato. Há aqui dois problemas graves. Em primeiro lugar, as crianças na mala do carro – aí é uma situação que não é minimamente aceitável – depois, a condução perigosa”, disse Rui Abrunhosa Gonçalves.

O psicólogo forense salienta o facto de ser necessário que a justiça atue, “provavelmente uma pena suspensa, que é o que se ajusta nestes casos”. Caso contrário, “vai criar aqui uma noção de que andar a conduzir com 0.5 de álcool não é grave, andar a conduzir com crianças na mala do carro também não é grave e também não será muito grave passar a proibição do trânsito”, conclui.

Além de tudo isto, o facto de ser mãe da menina, poderá, na opinião do psicólogo forense, “ser uma agravante, porque é uma criança sobre a qual ela tinha um dever ainda maior de proteção”.

 

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