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Taça - 1969. E a sombra das suas capas davam no chão e abriam em flor...

Taça - 1969. E a sombra das suas capas davam no chão e abriam em flor...

DR Afonso de Melo 22/05/2019 22:27

Há 50 anos, disputou-se a mais politizada das finais da Taça de Portugal. Em plena fase de crise académica, só Eusébio, o realista, destruiu o sonho dos estudantes. O Presidente da República assumiu a cobardia de não querer entregar a taça. A Académica vivia os momentos mais valentes da sua história.

 

Capas ao vento. O sol tomou conta do céu do Jamor. Havia o vermelho e o negro, como em Stendhal, e, como em Stendhal, o realismo e o romantismo. Há 50 anos o romantismo vestia de negro e o realismo vestia de vermelho.

“Um dos maiores comícios de sempre contra o regime”, escreveu Carlos Pinhão, homem de esquerda que fez o favor de tanto me ensinar. Tarjas nas bancadas: “Ensino para todos”; “Melhor ensino, menos polícias”; “Universidade livre”. A direção da Associação Académica de Coimbra não perdera a oportunidade de transformar a espetacular presença da Académica na final frente ao Benfica para dar visibilidade às suas reivindicações.

O topo sul do Estádio Nacional enchera-se de bandeiras negras. A sombra das capas dos estudantes davam no chão e abriam em flores, cantaria o Zeca Afonso.

Umas horas antes de a comitiva da Académica ter seguido de autocarro para o Jamor, Vítor Campos recebeu uma chamada telefónica. Era de Mafra, esse maldito penedo ao qual muitos chamaram Máfrica. Artur Jorge, que cumpria o serviço militar obrigatório, fora absolutamente proibido pelo comandante de sair da Escola Prática de Infantaria. Não iria jogar. Ambos concordam que, no caso de vitória da Académica, toda a equipa se dirija ao topo sul com o troféu e resgate, do meio da multidão, o presidente da AAC, Alberto Martins - o rapaz que tivera a coragem de, em abril, durante a inauguração do Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia, erguer a voz sobre o monocórdico discurso do Presidente da República, Américo Thomaz -, levando-o juntamente com os jogadores na volta de honra.

Isso não acontecerá.

Francisco Andrade era o treinador. Vinte e sete anos apenas. Substituíra no cargo João Maló, suspenso pela FPF por via de críticas públicas às arbitragens. Depois havia Viegas, na baliza. E Marques, Vieira Nunes, Rui Rodrigues e José Belo, na defesa. Fernando Peres, Vasco Gervásio e Vítor Campos, no meio. Mário Campos, Manuel António e Nene, o anjo negro, que trazia uma aura de morte em seu redor. E também Rocha, o macaense, e Serafim, que entrariam depois.

O Benfica, bem, o Benfica era soberbo: José Henrique; Zeca, Malta da Silva, Humberto Coelho e Adolfo; Coluna, Toni e Jaime Graça; Simões, Eusébio e Abel. Mais Torres e José Augusto para o que desse e viesse.

Deu e veio muito.

Sol e sombra

Francisco Andrade é uma figura fantástica que tive a sorte de conhecer. Ainda tinha jogado nessa época e agora, na ponte de comando, alarga o discurso: “Vocês têm o privilégio de dar voz a um país que não pode falar através do dom de jogar à bola que Deus vos deu”. Os jogadores entendem-no. Quantos deles foram, depois, doutores? Quase todos. Decidem entrar em campo com as capas caídas sobre os ombros, sem dobras, em sinal de luto.

Sol e sombra. 

Eusébio remata, Viegas defende e a cena repete-se, uma e outra vez. Há em Eusébio uma espécie de obsessão pelo golo violento, pelo pontapé fulminante. Mas o jogo é equilibrado e Manuel António também tem uma oportunidade desperdiçada.

Entra José Torres após o intervalo. Otto Glória pressente que as coisas se complicam. A nove minutos do fim, pressente que não escapará à derrota. Manuel António dá vantagem aos coimbrões e põe em êxtase um grupo de gente vestida de negro que se ergue como um bloco solidário e imbatível.

“Tenham medo, tenham muito medo”, pareciam anunciar no seu desfraldar de bandeiras. Afinal, nas meias-finais, a Académica eliminara o Sporting com uma facilidade digna de quem escorrega pelas escadas do Quebra Costas: 2-1 e 1-0.

Só que Eusébio não foge ao seu destino: quatro minutos mais tarde chuta de longe, num livre direto; Viegas não segura, Simões empata.

Vem o prolongamento.

Rima com sofrimento.

Eusébio: inevitável. Marca de cabeça, a Taça de Portugal é do Benfica.

Não havia Presidente da República para entregar o troféu. Faltou-lhe a coragem para enfrentar os jovens de negro que não desistiam da sua luta e invocavam o seu desejo de justiça.

O vermelho e o negro. Realidade e sonho.

Nada havia mais realista do que Eusébio, para quem o golo era a vida. Capas estendem-se sob o céu do fim da tarde. As sombras dão no chão e abrem em flor.

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