25/6/19
 
 
Vítor Rainho 22/05/2019
Vítor Rainho

vitor.rainho@newsplex.pt

Um julgamento popular a uma mãe destroçada

O mundo é mesmo cruel, mas não consigo entender como é possível chegar tão longe. A lei natural da vida é os filhos enterrarem os pais, não o contrário. 

Foi uma das notícias mais duras que li nos últimos tempos e tentei imaginar como estaria a senhora em questão. Uma mãe que transportava uma filha no porta-bagagens, numa viagem muito curta, acabou por ser abalroada por outro carro, tendo a filha morrido e a outra criança que viajava ao seu lado sofrido apenas pequenos ferimentos. Depois falou-se que a senhora teria acusado uma taxa de alcoolemia de 0,5 g/l, o que corresponderá a duas cervejas no corpo de uma mulher que não seja muito encorpada.

O marido e pai da criança falou à comunicação social e pediu para não se julgar mais a mãe do que ela própria estaria a fazer. E, de facto, não faltaram verdadeiros julgamentos populares a quererem uma condenação exemplar para a infeliz mulher. O mundo é mesmo cruel, mas não consigo entender como é possível chegar tão longe. A lei natural da vida é os filhos enterrarem os pais, não o contrário. A mãe que fez aquilo que tanta gente faz - é certo que não se deve fazê-lo - numa viagem curta, facilitou e há de sofrer até aos últimos dias da sua vida por esse ato. A justiça condená-la é que não faz qualquer sentido. Investigue-se o acidente e entenda-se como tal foi possível. Da mesma forma que me parecia uma enormidade alguém querer condenar a pena de prisão quem fazia um aborto, quando este era ilegal no país, também acho que uma mãe que perde um filho num acidente de viação não merece sofrer ainda mais com a tragédia.

A história, ao que parece, está muito mal contada, pois as primeiras notícias davam conta de que a família estaria a comemorar a vitória do Benfica em Lisboa e que, no regresso a casa, terá tido o acidente fatal. A informação de que disponho nada tem a ver com essa versão e não há aqui nenhuma mãe alcoolizada com os festejos futebolísticos. Teve foi o azar do tamanho do mundo de, depois de ter bebido duas cervejas, ter tido o acidente. Por esse facto merece ainda um outro castigo que não seja o de ter perdido uma filha? No meio da tragédia, faço uma vénia ao pai da criança, que teve um comportamento irrepreensível neste mundo tão justiceiro.

 

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