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Quinta do Mocho. O início e o fim de coisa nenhuma

Quinta do Mocho. O início e o fim de coisa nenhuma

Rita Pereira Carvalho 21/05/2019 19:56

Depois do incêndio de domingo à noite, há pessoas a viver no quartel dos Bombeiros de Sacavém. O número ainda não é conhecido, mas pelo menos 60 pessoas perderam as suas casas ou barracas onde guardavam animais. O que um dia foi uma casa, agora não é mais do que cinza. Umas choram, outras ganham força para ver o que perderam.

Aquilo que está sempre à vista, mas que todos ignoram, só se torna visível quando a desgraça bate à porta. Bateu no domingo ao final da tarde e nem pediu licença para entrar. Veio em forma de fogo e destruiu cerca de 30 casas e barracas na Quinta do Mocho. Em pouco mais de três horas, o incêndio marcou o fim e o início de coisa nenhuma na vida das cerca de 60 pessoas que perderam o pouco que tinham. “Antes do incêndio era pobre, não tinha muita coisa, depois do incêndio continuo pobre, o pouco que tinha a gente perdeu”, disse Ana Santos, uma das moradoras do bairro cujas instalações pertencem ao Ministério da Defesa. As casas agora destruídas faziam parte dos antigos paióis que depois foram ocupados clandestinamente.

Não cheira só a madeira queimada, cheira a animal queimado. É um cheiro que entra de tal forma na roupa, que mesmo saindo da Quinta do Mocho, ele não desaparece. É como a tristeza de Helena Pereira. Ficou sem casa. Só sobraram as paredes e a única coisa que não desapareceu foi o número 16, escrito a tinta ao lado porta da entrada pela Câmara Municipal de Loures, que há três anos numerou as casas. Helena entrou pela primeira vez em casa e as palavras faltaram. “Meu deus, tudo destruído, não sobrou nada, aqui tinha um armário com as latas de comida, ardeu tudo”, diz Helena, enquanto mostra o que sobrou daquilo que foi a sua casa durante cinco anos. Um dos seus sete filhos está com ela, os outros ficaram no quartel de Bombeiros Voluntários de Sacavém – onde estão todas as pessoas que perderam as suas habitações.

No domingo à tarde, Helena estava a lavar roupa num pequeno tanque, num espaço aberto atrás de sua casa, com vista para o sítio onde começou o incêndio. Estava distraída e não deu logo conta do que estava a acontecer: “Ouvi uma criança a gritar, mas nem liguei. Depois vi o fumo todo a vir e só tive tempo de fugir, não levei nada, só esta bolsa que tenho aqui”, aponta para uma mala pequena onde não se arrumam mais do que dois cartões.

Na cozinha, as únicas coisas que ficaram intactas foram duas panelas em cima do fogão – uma tinha sopa, outra tinha cachupa. “Vê, até a comida que tinha feito desapareceu, foi tudo, tudo embora”. Nesse momento, o filho grita pela mãe: encontrou umas calças que não ficaram destruídas pelo fogo. “Mãe, olha aqui, estas estão boas e têm o cinto, vou já pôr o cinto”, disse o menino que anda no quinto ano. Por estes dias não vai à escola, o que é também uma das preocupações da mãe, já que os livros agora se resumem a cinzas.

Mais do que aquilo que se vê

“Há muitas coisas que arderam que nunca mais vou voltar a ter, é a minha vida toda”, disse Horácio. Ao lado de sua casa, andava a ver o que podia aproveitar. Mas percebeu que era uma missão impossível. Para onde quer que se virasse, via porcos mortos. Mas o que está em causa é muito mais do que isso. “Em dois meses perdi duas coisas: a minha filha foi embora e agora a minha casa”, diz com as lágrimas nos olhos.

O resumo do que aconteceu é simples para Horácio, porque é a única coisa em que tem pensado. A mulher estava a trabalhar e tinha visitas em casa – o irmão que vive no Porto passou o fim de semana com ele. “Quando eles foram embora, começou o incêndio, depois a polícia e os Bombeiros já não nos deixaram voltar a casa. A casa ainda não estava a arder, eu podia ter vindo buscar as coisas”, conta.

O incêndio foi dominado três horas depois, mas a verdade é que os reacendimentos ainda eram visíveis 24 horas depois. Enquanto Horácio mostrava aos vizinhos o que tinha perdido, avista-se uma nuvem de fumo que inundou novamente os pulmões dos que ali estavam. Os bombeiros não abandonaram a Quinta do Mocho e, assim que as fagulhas voltaram ao ar, o fogo foi de imediato extinto pelos bombeiros.

A destilaria ilegal

O bairro tem vista para os grafitis desenhados nas paredes dos prédios da Quinta do Mocho – são paredes transformadas em telas de arte gigantes. A entrada não é acolhedora – tem sofás e carros abandonados. A primeira coisa que se encontra são as barracas que arderam. Manuel estava lá ontem, a tirar o pouco que restou daquilo a que chamava a sua “barraca-casa”. “Não vivia aqui, mas isto era praticamente uma casa. Vinha para aqui de manhã, fazia o almoço e às vezes dormia aqui, por causa dos assaltos, porque há gente que quer roubar as minhas coisas”, contava, à medida que mostrava os porcos e as galinhas mortos.

Manuel tem uma teoria: o incêndio começou na destilaria ilegal que fica a poucos metros da sua “barraca-casa”. Os instrumentos estão lá todos, em tamanho XL, porque apesar de ilegal, ali produzia-se grogue – uma bebida típica de Cabo Verde feita a partir da cana de açúcar. “Eu acho que foi ali que começou, aquilo é uma bomba”, dizia outro homem que estava só a ajudar o senhor Manuel a tirar as máquinas que outrora usava para trabalhar.

Manuel tem outra casa além daquela, ao contrário das pessoas que estão a dois quilómetros dali, nos Bombeiros Voluntários de Sacavém. O pavilhão dos bombeiros transformou-se no teto temporário – ainda sem previsão para terminar – das pessoas que fugiram das suas casas.

Ali, longe do cheiro a queimado, e 24 horas depois do início do incêndio, Ana Santos chora – não tem outra forma de exprimir o que sente. Ao seu lado está a mulher de Horácio, o homem que àquela hora ainda devia andar no telhado a ver o que podia aproveitar. Nenhuma das duas tinha voltado ao sítio que durante anos fora a sua casa. E a razão é simples: não têm passe para usar nos transportes e a pé ainda demoram cerca de meia hora.

Ali, a tristeza é disfarçada pelos miúdos que jogam futebol dentro do pavilhão – o mesmo que à noite vai servir de quarto –, e pelas brincadeiras que inventam. A filha de Horácio também está lá, com a mãe. Diverte-se a brincar nas escadas, com coisa nenhuma: “Já não tenho brinquedos”.

 

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