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Os linces estão de volta à península Ibérica

Os linces estão de volta à península Ibérica

Dreamstime Beatriz Dias Coelho 20/05/2019 19:43

A espécie esteve perigosamente perto da extinção – “criticamente em perigo”, na gíria –, mas um projeto conjunto com Portugal e Espanha garantiu o renascimento do lince-ibérico. Hoje, a península Ibérica conta já com 686 exemplares da espécie, um número que deverá continuar a crescer com um novo projeto à vista.

O processo é, uma e outra vez, semelhante. O animal está dentro de uma caixa transportadora, envolta num pano para o manter isolado e calmo até ser libertado. Os técnicos pousam a caixa no local da soltura – algures no vale do Guadiana, no Alentejo –, levantam o pano, abrem a transportadora e põem fim ao mistério: de lá de dentro sai, cauteloso nuns casos, como uma flecha noutros, um Lynx pardinus – nome científico para o lince-ibérico. É isso que acontecerá na próxima quarta-feira, quando terá lugar, em local ainda não definido, a última soltura de lince-ibérico em território português – pelo menos nos próximos meses. Para a história ficarão a fêmea Jacarandá e o macho Katmandu, os primeiros dois exemplares da espécie a serem libertados em território português e que abriram a porta ao reflorescimento do lince-ibérico.

Depois de o projeto Life+Iberlince ter terminado, em dezembro do ano passado, Portugal e a vizinha Espanha aguardam agora “a análise da candidatura pela Unidade de Gestão LIFE, da Comissão Europeia”, ao programa Life+Iberlince 2, que “deverá ser divulgada em junho ou julho próximo”, adiantou ao i fonte do gabinete de comunicação do Ministério do Ambiente e da Transição Energética.

Até 2015, a espécie esteve “criticamente em perigo”, o nível máximo na escala de risco de extinção. O projeto Life+Iberlince, que arrancou em 2012, levou, contudo, à reversão da situação. “Exemplo do sucesso [do projeto] é a passagem da espécie de ‘criticamente em perigo’ para ‘em perigo’ a nível global, embora em Portugal ainda mantenha a classificação de ‘criticamente em perigo’”, assinala a mesma fonte para exemplificar o sucesso do projeto, com um balanço “francamente positivo quer em Portugal, quer em Espanha”. Para esse veredicto pesaram também os nascimentos em liberdade: entre os animais soltos, já nasceram 47 crias. Dessas, entretanto, algumas já se reproduziram.

Terminado o primeiro projeto, com o Life+Iberlince 2 pretende-se agora “consolidar os resultados do Iberlince 1, nomeadamente o estabelecimento de uma população viável e a diminuição dos riscos de mortalidade dos animais”, elucida o Ministério do Ambiente e da Transição Energética. O último censo da população realizou-se no ano passado: por montes e vales da península Ibérica correm agora 686 linces-ibéricos. Por cá passeiam 71 exemplares, um número que inclui já as libertações realizadas em 2019.

Atropelamento, a principal causa de morte

O atropelamento é a principal causa de morte para os linces em liberdade. Este ano, aliás, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) identificou mesmo um “ponto negro de atropelamentos para lince”, em Mértola, num comunicado divulgado depois de o macho Mistral ter sido encontrado sem vida na estrada nacional 122, a cerca de dez quilómetros de Mértola, perto da Herdade de Cela, em janeiro.

Não foi o primeiro a ser descoberto na zona com marcas de atropelamento. Um outro lince, Olmo, já tinha sido encontrado em maio de 2018. É que a estrada nacional 122, explica o ICNF no mesmo comunicado, é “um local onde ocorrem travessias recorrentes de animais selvagens, entre áreas de habitat natural adjacente, apresentando condições que propiciam o atropelamento”.

Para lá da identificação de Mértola como um local particularmente adverso, a verdade é que o perigo que os atropelamentos representam para a espécie já é reconhecido há alguns anos. Desde o fim de 2014 que o sinal triangular com a cabeça de um lince no centro está homologado. Colocado nas estradas do concelho de Mértola, o objetivo é levar os condutores a reduzirem a velocidade, alertando-os para a potencial passagem de linces nas estradas.

Ao atropelamento seguem-se a caça furtiva e as doenças desenvolvidas pela espécie na lista das causas de morte mais frequentes.

O projeto em Portugal

Por cá, a reintrodução do lince-ibérico arrancou em fevereiro de 2015, na área do vale do Guadiana, no concelho de Mértola.

Desde então nasceram em liberdade 16 crias. Para que tal fosse possível, o ICNF fez ao longo de vários anos diversos estudos para avaliar a área ideal para o crescimento da espécie, cuja principal presa é o coelho-bravo. Estudou-se a dimensão da população de coelho-bravo, as zonas de matagal e de árvores, os registos relativamente a armadilhas ilegais e avaliou-se ainda o risco de atropelamento, como dá conta a entidade na sua página dedicada ao lince-ibérico.

Em Mértola, os responsáveis à frente do projeto negociaram com vários proprietários de terrenos cuja abundância de coelho-bravo poderia vir satisfazer as necessidades alimentares do lince-ibérico, e assim foi eleito o local que veio a ser a casa da espécie.

Depois de, entre 2015 e 2017, terem sido libertados 27 linces, o projeto chegou a uma nova etapa: a reprodução na natureza, que arrancou a partir de 2016. Para que não percam o rasto aos animais, os técnicos responsáveis monitorizam-nos através de colares de GPS – cada um com uma cor diferente –, de seguimento rádio e GSM ou de foto-armadilhagem.

Da próxima vez que passar na região do vale do Guadiana, não se surpreenda se se cruzar com um lince-ibérico. Depois dos esforços reunidos para a recuperação da espécie, não é assim tão improvável ter um encontro imediato com a espécie.

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