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Vira o tempo. Períodos quentes vão ser mais frequentes mas agora regressa o maio fresco

Vira o tempo. Períodos quentes vão ser mais frequentes mas agora regressa o maio fresco

João Porfírio Marta F. Reis 15/05/2019 15:35

Depois da subida abrupta das temperaturas, os termómetros tornam a baixar. Filipe Duarte Santos, especialista em alterações climáticas, explica que períodos com temperaturas acima da média serão cada vez mais comuns - não só no verão, mas nas restantes estações. No entanto, das projeções feitas para Portugal, acredita que a mais preocupante é a diminuição da precipitação.

 

O vento roda de leste para noroeste e a massa de ar quente que nos últimos dias trouxe um verão fora de época à península Ibérica dissipa-se - e com ela eventuais planos que ainda houvesse para idas à praia no final desta semana. As temperaturas vão descer a partir de quinta-feira para a casa dos 20 oC e poderão voltar alguns aguaceiros. 

Os dias 12 e 13 de maio foram “excecionalmente quentes” e, até agora, os mais quentes do ano, revelou ao i o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). Não houve tecnicamente uma onda de calor - teriam de ser cinco dias seguidos com as máximas diárias superiores em 5 oC aos valores médios registados nesta época nos 30 anos que servem de referência às lides da meteorologia -, mas nestes dois dias os termómetros estiveram mais de 10 oC acima do normal. Na maioria das estações aproximaram-se das máximas recorde para o mês de maio desde que há registos e, em Sines, o valor foi mesmo batido: no dia 12 (domingo), a temperatura chegou aos 35,2 oC quando, até aqui, o dia mais quente tinha tido 34,5 oC, em 2016. 

Em Alcácer do Sal, os termómetros subiram aos 38,1 oC (o recorde é de 38,9 oC em 2006) e na Amareleja aos 37 oC (no dia 13 de maio de 2015, a temperatura chegou aos 39,5 oC).

Se desta vez foi um desvio do anticiclone das ilhas Britânicas a baralhar as massas de ar para uma conjugação típica de verão, períodos quentes e ondas de calor mais frequentes serão um cenário cada vez mais comum - não só no verão como nas restantes estações do ano. É uma das projeções no panorama das alterações climáticas. Ao i, o IPMA assinala que esta é uma das tendências, a par da subida das temperaturas. “Desde meados dos anos 70, a temperatura média subiu em todas as regiões de Portugal, a uma taxa de cerca de 0,3 oC/década. De referir que dos dez anos mais quentes, sete ocorreram depois de 1990, sendo o ano de 1997 o mais quente e 2017 o segundo mais quente”. Aumentaram os dias quentes e muito quentes e diminuíram os dias com temperaturas baixas. As ondas de calor tornaram-se mais intensas e prolongadas.

Cinco dos dez anos mais secos aconteceram desde o ano 2000

Filipe Duarte Santos, especialista em alterações climáticas da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, sublinha que fenómenos como os que nos últimos dias afetaram a parte oeste e sul da península Ibérica, com períodos de temperaturas anormalmente altas para a época, são uma das manifestações das mudanças do clima. São fenómenos extremos que surgem em paralelo com o aquecimento global - a temperatura média global próxima do solo já aumentou 1 oC desde os valores pré-industriais. 

Se os impactos do stresse térmico para os ecossistemas e a saúde humana podem ser consideráveis, o especialista acredita que, antevendo o que poderá mudar nas próximas décadas, serão as mudanças na precipitação a trazer impactos mais visíveis a nível nacional.

Alguns modelos (ver ao lado) sugerem que a quantidade de precipitação anual pode vir a reduzir-se até 40% até ao final do século, mas os últimos anos são já ilustrativos. O IPMA refere um decréscimo da precipitação anual de 25 milímetros por década. “Os últimos 20 anos foram particularmente pouco chuvosos em Portugal continental. Cinco dos dez anos mais secos ocorreram depois de 2000, sendo 2005 o ano mais seco, 2007 o segundo mais seco e 2017 o terceiro mais seco”, indicou o gabinete de comunicação do instituto. 

Combinando a perda de chuva com o aumento das temperaturas, agravou-se o risco de seca. As últimas quatro décadas foram sucessivamente mais secas, sendo a de 2001/2010 a mais seca de que há registo. Se este ano começou com sinais preocupantes, a chuva de abril deu alguma folga. “A tendência para termos menos precipitação e mais seca é um cenário preocupante, tanto para a agricultura como para as florestas. Aumenta o risco de incêndio, mas tem reflexos noutros ecossistemas importantes, como o montado”, exemplifica Filipe Duarte Santos. “Temos hoje uma mortalidade das árvores mais elevada do que no passado. Estão em maior stresse hídrico e ficam sujeitas a mais doenças.”

Com o tema da urgência climática na ordem do dia no Parlamento, o investigador defende que o país tem tido um percurso positivo na mitigação, promovendo a redução de emissões - Portugal foi o país da UE em que as emissões mais diminuíram em 2018 (-9%) -, mas devia apostar mais na adaptação aos novos cenários. A sustentabilidade da agricultura e o consumo de água que está a ser feito em algumas zonas do país sem reutilização de águas residuais serão alguns desafios a médio prazo, aponta. 

Quanto à proposta para que seja decretado estado de urgência climática em Portugal, Filipe Duarte Santos acredita que se vive, finalmente, um momento de consciencialização pública - e pressão política -, viragem em que a jovem sueca Greta Thunberg tem tido um papel central. “Estão a passar-se coisas que eu era incapaz de imaginar. Há uma criança com 16 anos que se tornou uma celebridade e que diz que a geração contemporânea, os adultos, não estão a dar a atenção devida a um problema que vai ter o maior impacto na geração dela. Tem razão. Há uma grande insensibilidade, sobretudo em países que estão a tomar atitudes incompreensíveis, nomeadamente os EUA e o seu Presidente”.

Projeções para Portugal

1. Mais dias de verão e noites tropicais: Nos últimos 25 anos têm vindo a aumentar as máximas e as mínimas médias. A tendência é para haver menor amplitude térmica, mais dias de verão e mais noites tropicais, conclui uma análise de vários modelos publicada pela Agência Portuguesa do Ambiente. Até ao final do século, as máximas no verão deverão subir entre 3 ºC na zona costeira e 7 ºC no interior, com aumento da frequência e intensidade das ondas de calor. Em 2017, a World Weather Attribution, um projeto que junta cientistas de Oxford, Holanda e Melbourne para estudar a ligação entre alterações climáticas e fenómenos extremos, concluiu que as probabilidades de ondas de calor como as que se viveram em junho de 2017, mês marcado pela tragédia de Pedrógão, são hoje dez vezes mais frequentes do que no início do século passado. “Se as emissões para a atmosfera continuarem a aumentar, verões como o de 2017 serão o normal na região do Mediterrâneo na segunda metade do século”, alertaram. Segundo uma análise do IPMA, há mais cinco a dez dias muito quentes (acima dos 35 ºC) por década desde os anos 70. Lisboa, por exemplo, ganhou o equivalente a seis semanas de verão nos últimos 40 anos, noticiou o “DN”. 

2 .  O perigo dos megaincêndios: O quinto relatório de avaliação do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, publicado em 2014, alertou para o risco de megaincêndios no sul da Europa. Uma análise da Universidade de Coimbra, publicada em 2014, concluiu que três quartos da área ardida anual em Portugal continental resulta de incêndios nos meses de julho e agosto. Os piores anos foram associados a anomalias na precipitação em março e também na temperatura, precipitação e humidade relativa na época pré-incêndio. Projeta-se um aumento da área ardida entre 9% e 29%, consoante o cenário de aquecimento global. Apesar da incerteza, os autores apontavam algumas tendências como o aumento do risco meteorológico de incêndio e de ocorrências maiores.

3. Chove menos mas a sério: A variação na precipitação é mais irregular mas, de acordo com a análise da APA, nas últimas décadas observou-se uma redução importante na precipitação no mês de março e também em fevereiro, ainda que menor. Prevê-se uma redução da precipitação durante a primavera, verão e outono. Um dos modelos, assinala a APA, estima que poderá verificar-se uma redução entre 20% e 40% da quantidade de precipitação anual até ao final do século, sobretudo no sul do país. Já no inverno tendem a aumentar os dias de chuva intensa, com a ameaça de mais inundações. 

4. Território cada vez mais seco: A tendência é para aumentarem os meses secos. Um estudo publicado em 2018 pelo Helmholtz Centre for Environmental Research prevê que, num cenário de aquecimento de 3 ºC até ao final do século, os meses de seca poderão prolongar-se, nalgumas regiões da península Ibérica, por mais de sete meses. 

5.  Zonas costeiras vulneráveis: As projeções apontam para uma subida do nível do mar de 40 cm a um metro até 2100. Carlos Antunes, Cristina Catita e Carolina Rocha, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, foram recentemente premiados pela Ordem dos Engenheiros por um projeto de cartografia do risco costeiro que apresenta os diferentes cenários para Portugal (www.snmportugal.pt). Estimam 903 km2 de área inundável em 2050 e 1146 km2 em 2100, sobretudo nos distritos de Lisboa, Aveiro e Faro. 

 

 

 

 

 

 

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