23/9/19
 
 
Alfredo Barroso 13/05/2019
Alfredo Barroso
Cronista

opiniao@ionline.pt

Cuidado com a brutalização da política

Não me lembro dum período pré-eleitoral da nossa vida política e sindical tão tenso e conturbado como este que estamos a viver.

brutalização da vida política traduz-se na tendência para encarar o confronto, que deveria ser democrático, como uma luta sem tréguas que só poderá terminar com a rendição incondicional do adversário considerado como inimigo, ou mesmo com a sua aniquilação. Em tempo de paz, ela traduz-se, sobretudo, no recurso a uma violência verbal extrema, insultando e desqualificando os inimigos, tanto no plano político como no sindical. O inimigo principal é o Governo porque é de esquerda e o objectivo é fazê-lo vergar ou mesmo deitá-lo abaixo.

O fenómeno não é novo em Portugal. Já sucedeu no tempo dum Governo da AD (Aliança Democrática), com o episódio ridículo dum famoso ministro do “Interior” a inventar uma célebre “conspiração dos pregos” para tentar desacreditar uma greve geral convocada pela CGTP/Intersindical. Agora, porém, é ao contrário, com uma dirigente “sindical” filiada no PPD-PSD, Ana Rita Cavaco, bastonária da Ordem dos Enfermeiros, e um dirigente sindical filiado no PCP, o prof. Mário Nogueira, chefe da Fenprof, a darem o mote duma luta sem tréguas contra o Governo PS chefiado por António Costa e sustentado na Assembleia da República pelos dois partidos à esquerda do PS – BE e PCP-PEV –, que a inefável chefe do CDS-PP, Assunção Cristas, designou por “esquerdas encostadas”.

De facto, havia “esquerdas encostadas” adeptas da geringonça mas, entretanto, surgiram inesperadamente as “direitas abraçadas” – e “embaraçadas” – encostadas ao BE e ao PCP/PEV no lamentável “episódio dos professores”, constituindo um efémero “calhambeque” que acabou por se estampar na AR.

Deixando de lado, por agora, a irritante enfermeira Ana Rita Cavaco, interessa-me sobretudo passar ao papel três protagonistas do deplorável episódio pré-eleitoral, a saber: o fanático chefe da Fenprof, Mário Nogueira; a inefável chefe do CDS-PP, Assunção Cristas; e o patético chefe do PPD-PSD, Rui Rio.

O famoso prof. Mário Nogueira, chefe da Fenprof, afastado das salas de aulas há mais de duas décadas, continua a multiplicar atitudes e comportamentos que são extremamente agressivos, acentuando a sua total indiferença em relação aos mais que comprovados efeitos devastadores que inevitavelmente teria, nos Orçamentos do Estado dos futuros Governos, a aceitação integral das exigências sindicais dos professores sobre o tempo a recuperar: nove anos, seis meses e dois dias.

O que mais interessa a Mário Nogueira é derrotar completamente os seus inimigos políticos – digo inimigos e não adversários, notem bem! –, transformando a “sua” reivindicação sindical numa autêntica batalha campal que só poderá terminar com a rendição incondicional do inimigo ou com a sua aniquilação eleitoral.

Claro que, como o tempo não é de guerra em sentido próprio mas tão-só em sentido figurado, o prof. Mário Nogueira vai recorrendo sistematicamente à violência verbal e ao sobrolho carregado. Mas as suas ameaças quanto ao futuro da violenta luta que quer continuar a conduzir são totalmente inaceitáveis.

Quanto a Assunção Cristas, convém recordar que foi uma ministra amiga dos ricos, dos poderosos e dos senhorios – tornando-se, neste caso, o flagelo dos inquilinos mais pobres. Também proclamou, in illo tempore, não haver outro remédio para combater a seca a não ser rezar a Deus e pedir chuva, muita chuva. Além disso, confessou ter assinado sem a ler uma resolução crucial do seu Governo PPD-PSD/CDS-PP sobre o destino do BES e a criação do Novo Banco. Já como chefe do seu partido, mostra ser uma política medíocre, trauliteira, malcriada e regateira. Fala imenso pelos cotovelos, num tom ora agressivo ora monocórdico e sincopado, como se estivesse numa prova oral a debitar aquilo que empinou numa sebenta de Direito. E vai entrando, por vezes, em contradições que a desqualificam. Por outro lado, insiste constantemente no insulto ao primeiro-ministro, António Costa. Nos últimos tempos tem andado num corrupio atrás do seu único eurodeputado, Nuno Melo, a tentar mostrar que é tanto ou mais reaccionária – e beata – do que ele…

É indubitável que o CDS e o PPD apoiaram o BE e o PCP na tal reunião da comissão parlamentar de Educação em que os quatro partidos votaram de modo provocador e irresponsável – numa evidente tentativa para entalar e isolar o Governo PS – ao aprovarem a recuperação integral do tempo de serviço reclamada pelos professores e reivindicada pelo iracundo e fanático chefe da Fenprof, Mário Nogueira. Todavia, perante as críticas que alguma gente de direita lhe dirigiu, Assunção Cristas decidiu distanciar-se dessa votação, dizendo que, ao votar ao lado daqueles partidos, votou coisa bem diferente do que votaram os partidos à esquerda do PS, ou seja, votou, segundo ela, com a “reserva mental” derivada das “condicionalidades” que o CDS-PP desejava impor, mas “deixou cair”, na malfadada reunião da comissão parlamentar de Educação… Uma autêntica vergonha, em suma!

Quanto a Rui Rio, presidente do PPD--PSD, afinal não é melhor, em matéria de usos e costumes políticos, do que a sempre agressiva e estouvada presidente do CDS-PP. De facto, constata-se que, quando Rui Rio perde a cabeça por ser apanhado em falso, a sua argumentação torna-se ridícula e o seu discurso patético. E, tal como o professor-mor da Fenprof, Mário Nogueira, o chefe do PPD-PSD também mostra ser político de pavio curto pronto a fazer explodir uma carga de trotil – em sentido figurado, está claro! – para se desenvencilhar duma asneira, criar uma cortina de fumo e, de caminho, dar cabo dos “peixes” que nadam contra a corrente…

Em suma, Assunção Cristas e Rui Rio são ambos adeptos da brutalização da política, recorrendo à violência verbal e ao insulto ad hominem contra António Costa, para encobrirem um recuo a todo o vapor – e com todo o pavor – na vexata quaestio dos professores. Ambos acusam o PM de eleitoralismo, mas é certo que foram os chefes do PPD-PSD e do CDS-PP que – sem dúvida a reboque do BE e do PCP – aprovaram, naquela reunião da comissão parlamentar, a proposta defendida pelos dois partidos à esquerda do PS e por Mário Nogueira, sem a inclusão das tais condicionantes que depois invocaram para fugirem a sete pés. O eleitoralismo esteve, todo ele, do lado do calhambeque, votando cegamente, com o óbvio propósito de entalar e isolar o Governo PS e procurar conquistar os votos dos professores.

Também considero bastante estranho que o BE e o PCP – sem embargo de terem votado em coerência com o que sempre defenderam – tenham “estranhado” que o PM António Costa tenha reagido como reagiu, em coerência com o que ele sempre defendeu e arriscando-se a perder muitos votos de professores.

Entretanto, o mito de Sá Carneiro perdura no PPD-PSD. Há muita gente à direita que nem sequer conhece a história. A começar pelo inefável presidente do PPD-PSD, Rui Rio, que resolveu fazer, há dias, um dos discursos políticos mais patéticos destes últimos tempos, invocando a “firmeza” e o “sentido de Estado” de Francisco Sá Carneiro, para comparar com António Costa. Esqueceu-se de que Sá Carneiro fez, caprichosamente e mais do que uma vez, autêntica chantagem política contra o seu próprio partido, ao ponto de lhe virar as costas e o abandonar à beira do Verão Quente de 1975, sendo substituído na liderança pelo velho resistente Emídio Guerreiro. Se isto foi “firmeza” e “sentido de Estado”, no pico da revolução, vou ali e já venho…

Por outro lado, convém não ignorar que, naquele mandato “intercalar” só de um ano (1979-1980) durante o qual Sá Carneiro foi primeiro-ministro, a política económica e financeira que impôs – ao arrepio, segundo se disse, da vontade do seu ministro das Finanças, Cavaco Silva – com o propósito claro de ganhar, ainda com mais votos, as eleições legislativas de 1980 (para um mandato de quatro anos e não só de um ano, como o “intercalar”) legou uma “pesada herança” ao seu sucessor à frente do PPD-PSD e do novo Governo da Aliança Democrática (PPD-PSD, CDS e PPM), Francisco Pinto Balsemão, após a sua trágica morte em Camarate.

Francisco Sá Carneiro tinha carisma – é incontestável – e era politicamente muito espevitado, mas a verdade é que já tinha mostrado que, afinal, era tão fujão e tão demagogo como os piores. É muito duro dizer isto, bem sei, mas Sá Carneiro nunca foi o santo que quiseram – e ainda querem – fazer dele…

Não me lembro dum período pré-eleitoral da nossa vida política e sindical tão tenso e conturbado como este que estamos a viver, à beira de eleições para o Parlamento Europeu e, a seguir, para a Assembleia da República. O ódio da direita a qualquer Governo de esquerda, por mais legítimo que este seja, é proverbial. Mas o apetite exagerado, bulímico, dos partidos à esquerda do PS para sacarem deste Governo tantas vezes mais do que ele poderá conceder também é problemático, porque se junta a fome (da direita) à vontade de comer (da esquerda radical).

Não tenho uma visão bucólica e inocente da vida política. Sou adepto do confronto democrático e do debate por vezes duro, mas leal e civilizado. Repugna-me o apelo constante aos consensos e pactos de regime, como se se pretendesse regressar aos tempos de Salazar e de Caetano, adeptos intransigentes da ditadura de um só partido, a União Nacional, e do seu travesti, a Acção Nacional Popular.

Apoio o actual Governo PS e a fórmula que PS, BE e PCP-PEV adoptaram para o viabilizar, mas o meu apoio não é incondicional. Neste momento, aliás, irrita- -me solenemente a política externa incompreensivelmente “pró-Trump” do inquilino do Palácio das Necessidades, ao interferir abusivamente na política interna de outro país, a Venezuela, reconhecendo o autoproclamado Presidente ilegítimo e fazendo apelos que jamais se atreveria a fazer em relação aos regimes brutais da Arábia Saudita, das Filipinas, da República Popular da China, da Turquia ou do Brasil, por exemplo. E há outras políticas deste Governo PS de que discordo.

Mas, atenção: sujeita como tem sido à brutalização do debate e das divergências, e ao puro arbítrio de vários sindicatos e de algumas ordens profissionais, como a dos enfermeiros e a dos médicos, a vida política democrática tende a deteriorar-se aos olhos da opinião pública. O que é, no mínimo, estranho num tempo em que o país tem vindo a recuperar, com este Governo, da arbitrariedade e do empobrecimento que lhe foram infligidos pela troika e pelo Governo PPD-PSD-CDS-PP. Cuidado, por isso, com a brutalização da vida política nacional e com o caos sindical!

 

Escreve sem adopção das regras

do acordo ortográfico de 1990

 

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