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Há portugueses sem dinheiro para ligar o aquecedor
A maior parte das pessoas em risco de pobreza estão nas zonas Norte e Centro

Há portugueses sem dinheiro para ligar o aquecedor

A maior parte das pessoas em risco de pobreza estão nas zonas Norte e Centro Bruno Simões Castanheira Joana Marques Alves 11/05/2019 16:25

Em 2018 existiam mais de 2,2 milhões de portugueses em risco de pobreza, segundo o INE. Algumas pessoas continuam sem conseguir comprar uma máquina de lavar roupa ou uma televisão a cores. No primeiro trimestre deste ano, um trabalhador recebeu, em média, 1068 euros brutos.

Dois milhões e duzentos e vinte e três mil: era este o número de pessoas em Portugal em risco de pobreza no ano passado, o que representa 21,6% da população portuguesa. Mas como vivem estas pessoas? As zonas do país com mais pessoas em risco de pobreza ou exclusão social são o Norte (814 mil pessoas) e Centro (514 mil), segundo os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). Estes números representam 22,8% da população do Norte e 23% do Centro. 

Quanto mais a sul, menos pessoas em risco de pobreza: na Área Metropolitana de Lisboa existem 474 mil nessa situação, o que representa 16,7% da população da zona. Segue-se o Alentejo, com 150 mil pessoas (21,1%), e o Algarve com 101 mil (22,9%). 

Em proporção, as Ilhas são as zonas com a taxa de risco de pobreza ou exclusão social mais altas: na Região Autónoma dos Açores existem 89 mil casos (36,4%), e na Madeira 81 mil (31,9%).

A taxa de pessoas em risco de pobreza aumentou ligeiramente em 2018 face ao ano anterior: em 2017, 17,3% da população portuguesa vivia nesta situação, uma diferença de 2,2 p.p. face a 2013, a meio do processo de ajustamento financeiro, depois de a troika ter entrado no país em 2011. Segundo os mesmos dados, antes de ser feita qualquer transferência social, 89,8% das pessoas com mais de 65 anos estavam nesta situação. Depois de serem pagas as pensões de velhice e sobrevivência ou outro tipo de transferências sociais, a percentagem desceu para 17,7%, uma percentagem superior ao cenário registado em 2013 (15,1%). 

Além disso, o instituto diz que, há dois anos, 19% da população entre os 0 e os 17 anos e 16,7% das pessoas com idades compreendidas entre os 18 e os 64 anos viviam em risco de pobreza. Registou-se uma diminuição de 6,6 p.p. e 2,2 p.p., respetivamente, em relação a 2013.

O INE revela ainda que há mais mulheres em situação de pobreza do que homens: os dados divulgados esta semana mostram que 16,6% da população masculina e 17,9% da população feminina vivem nesta situação. Este cenário é mais positivo do que em 2013, quando as percentagens chegaram aos 18,9% e 20%, respetivamente.

Portugueses sem dinheiro para comerem carne ou peixe 

É mais fácil fazer um perfil da pobreza em Portugal analisando situações concretas. E coisas tão simples como comer carne e peixe ou ter uma máquina de lavar roupa podem ser inatingíveis.

Dados do INE no que diz respeito a itens de privação material na população portuguesa mostram que, em 2018, 41,3% das pessoas não conseguiam pagar uma semana de férias fora de casa. Além disso, 34,7% da população não tem capacidade para assegurar o pagamento imediato de uma despesa sem recorrer a um empréstimo e 6,6% paga a renda, outros encargos ou despesas correntes com atraso.

Uma imagem que se associa muitas vezes ao risco de pobreza é a de uma casa gelada no inverno, sem aquecedores ligados. Infelizmente, esta é uma realidade em Portugal: no ano passado, 19,4% da população não tinha possibilidade de manter a casa aquecida.

Existem ainda aspetos mais específicos que ajudam a ter uma melhor noção de como se vive em Portugal: 5,9% da população não tem disponibilidade para ter automóvel, 2,4% não consegue ter uma refeição de carne, peixe ou o equivalente vegetariano pelo menos de dois em dois dias, 0,8% não consegue comprar uma máquina de lavar roupa, 0,3% não tem disponibilidade para ter um telefone e há ainda 0,2% da população que, hoje em dia, não consegue ter uma televisão a cores.

Quanto ganha um eletricista? 

Em 2018, a remuneração bruta total mensal por trabalhador foi, em média, de 1142 euros, um aumento de 2,9% face a 2017, altura em que este valor se situava nos 1110 euros, revela o INE. Este montante inclui os subsídios de Natal e de férias. Se retirarmos estes valores, a remuneração regular mensal desce para os 924 euros. 

Dados provisórios indicam que, no primeiro trimestre de 2019, a remuneração bruta total mensal por trabalhador foi, em média, de 1068 euros, o que corresponde a uma variação face ao trimestre homólogo de mais 2,5%. Em março deste ano, diz o INE, existiam mais de 3,6 milhões de trabalhadores em Portugal.

Mas em que setor trabalham estas pessoas e quanto recebem mensalmente? As áreas que têm mais trabalhadores em Portugal são as indústrias transformadoras (cerca de 691 mil funcionários) e o comércio por grosso e a retalho e a reparação de veículos automóveis e motociclos (cerca de 638 mil), com, em média, uma remuneração bruta total de 1038 euros e 1031 euros, respetivamente.

Seguem-se os setores das atividades de saúde humana e apoio social (cerca de 318 mil trabalhadores) e as atividades administrativas e serviços de apoio (cerca de 312 mil). No primeiro caso, a remuneração mensal ronda os 1017 euros e, no segundo, os 775 euros.

Outras das áreas com mais trabalhadores são a do alojamento, restauração e similares (287 mil) e a construção (cerca de 264 mil), com remunerações médias de 762 euros e 874 euros.

O INE revela ainda que existem cerca de 173 mil pessoas a desenvolver atividades de consultoria científica, técnica e similares (com um ordenado médio mensal de 1292 euros), cerca de 165 mil a trabalhar na área dos transportes e armazenagens (com uma remuneração de 1415 euros), mais de 141 mil na administração pública, defesa e segurança social obrigatória (com um salário de 1131 euros), mais de 134 mil na área da educação (cujo vencimento bruto é de 1117 euros) e ainda cerca de 108 mil a desenvolver atividades de informação e de comunicação (com um ordenado médio de 1798 euros).

Quanto aos setores com menos pessoas, contam-se cerca de 79 mil na área da agricultura, produção animal, caça, floresta e pesca (com uma remuneração mensal de 738 euros), cerca de 77 mil nas atividades financeiras e seguros (com os ordenados a rondarem os 2568 euros), mais de 42 mil nas atividades imobiliárias (o salário médio é de 977 euros) e mais de 35 mil no ramo das atividades artísticas, de espetáculos, desportivas e recreativas (cujo vencimento é, em média, de 1165 euros).

No fundo da lista estão os setores de captação, tratamento e distribuição de água, saneamento, gestão de resíduos e despoluição (com 27 mil trabalhadores e um salário médio de 1028 euros), o ramo da eletricidade, gás, vapor, água quente e fria e ar frio (mais de 11 mil funcionários e uma remuneração bruta de 2615 euros), as indústrias extrativas (com cerca de oito mil e um ordenado de 1362 euros) e as atividades dos organismos internacionais e outras instituições extraterritoriais (com pouco mais de 1000 trabalhadores e uma remuneração média de 1735 euros).

O INE inclui ainda uma categoria denominada “outras atividades de serviços” na qual inclui cerca de 83 mil trabalhadores com um vencimento bruto de 921 euros.

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