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Greve. Braço-de-ferro continua mas dona da Sagres afasta rutura de stock

Greve. Braço-de-ferro continua mas dona da Sagres afasta rutura de stock

Dreamstime Sónia Peres Pinto 09/05/2019 18:36

Paralisação está marcada até dia 12 de maio e ocorre quase na véspera do aumento da procura. Verão representa 60% das vendas. 

 

O braço-de-ferro entre os trabalhadores da cervejeira de Vialonga e a Sociedade Central de Cervejas, dona da Sagres, continua. A greve parcial nesta unidade de produção arrancou na segunda-feira e está a decorrer durante três períodos distintos de duas horas cada: das 00h00 às 02h00, das 05h00 às 07h00 e das 8h30 às 10h30. Mas, apesar de esta paralisação só ter data para terminar no dia 12 de maio, fonte da cervejeira garante ao i que não há risco de haver ruturas de stock. “A fábrica funciona 24 horas por dia e esta greve está a afetar apenas seis horas diárias. Além disso, não está a abranger todos os trabalhadores, apenas os que estão abrangidos pelo acordo de empresa”, refere. 

Este cenário não vai ao encontro do que tem vindo a ser descrito pelo Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura e das Indústrias de Alimentação, Bebidas e Tabacos de Portugal (SINTAB), que convocou esta paralisação. De acordo com a estrutura sindical, se não for possível chegar a um acordo, num prazo de dois meses começará a faltar cerveja no mercado. “Afigura-se aqui uma situação de impasse tremendo e vai começar a faltar a cervejinha no mercado. Eles podem ter muito stock por agora, mas em dois meses será muito difícil responder às solicitações do mercado, até porque estamos a caminhar para o verão, que é o período de maior consumo de cerveja”, disse Rui Matias.

Na lista das exigências estão aumentos salariais “dignos e justos” - aumento de 4%, num mínimo de 40 euros - que diminuam “a desigualdade salarial”, bem como a progressão na carreira e a subida de 1% no subsídio de turno. 

O sindicato revelou ainda que os trabalhadores pretendem uma revisão das avaliações, das promoções e das carreiras profissionais, já que sentem “um desagrado muito grande” a este nível: “O desenvolvimento profissional está completamente estagnado. Há cerca de 13 anos que o modelo de evolução profissional contemplou menos de 10% dos trabalhadores, num total de cerca de 350, ou seja, estamos a falar de 20 e poucos trabalhadores que tiveram algum desenvolvimento profissional neste período”, afirmou.

O SINTAB explicou, no entanto, que “após três rondas negociais com a administração da empresa, os trabalhadores verificaram que as propostas apresentadas ficam muito aquém das suas reivindicações”, o que os levou a “prosseguir com a luta em forma de demonstração de descontentamento e para levar a empresa a apresentar uma proposta mais realista, onde se verifique uma justa distribuição da riqueza”.

A cervejeira de Vialonga garante que esta greve tem um potencial máximo de aplicabilidade a cerca de 300 colaboradores desta unidade abrangidos pelo acordo de empresa, que representam cerca de 50% dos trabalhadores. “Neste momento, face à greve desencadeada de duas horas por turno de oito horas, as negociações estão pendentes, nunca se furtando a nossa cervejeira ao diálogo”, refere a empresa ao i.

A Central de Cervejas lembra ainda que em 2016 houve um aumento de 2% com um mínimo de 20 euros. No ano seguinte, a empresa aumentou os trabalhadores em 30 euros e, em 2018, assistiu-se a um novo aumento de 2%, num mínimo de 20 euros, e a um prémio individual de 1000 euros para todos os colaboradores abrangidos pelo acordo de empresa.

A estrutura sindical explicou que, “após três rondas negociais com a administração da empresa, os trabalhadores verificaram que as propostas apresentadas ficam muito aquém das suas reivindicações”, o que os levou a “prosseguir com a luta em forma de demonstração de descontentamento e para levar a empresa a apresentar uma proposta mais realista, onde se verifique uma justa distribuição da riqueza”.

A verdade é que esta paralisação ocorre numa altura em que nos aproximamos do calor e em que a cerveja é rainha. A opinião é unânime junto das cervejeiras contactadas pelo i: só os quatro meses de verão - de junho a setembro - representam cerca de 60% das vendas anuais destas bebidas. No entanto, as condições climatéricas, calor e pouco vento, são determinantes para uma boa época de vendas, pois a produção e distribuição de cerveja é uma das indústrias que mais sente o impacto das condições meteorológicas. Perde com o mau tempo, mas ganha com o calor.

Consumo sobe mas ainda longe do passado

Depois de vários anos de queda, o consumo voltou a subir em Portugal. De acordo com os indicadores AC Nielsen, o mercado cervejeiro nacional cresceu no primeiro trimestre 4,5% em volume e 9,6% em valor quando comparado com igual período do ano passado. 

Já no passado, o consumo de cerveja em Portugal cresceu 8% em 2018, mas está ainda 14% abaixo dos valores registados em 2008, ou seja, antes da crise, segundo os últimos dados dos Cervejeiros de Portugal, associação que reúne os produtores de cerveja. “Estes resultados refletem quer o aumento do nível de confiança económica dos consumidores, quer o incremento da atividade turística em Portugal no último ano”, diz a entidade.

A somar a estes números há que contar ainda com as exportações de cerveja que, no ano passado, rondaram os 200 milhões de litros, um crescimento de 12,6% face ao ano anterior. O que, segundo os Cervejeiros de Portugal, “ajuda a sustentar o equilíbrio da balança comercial nacional”, acrescentando que “as boas condições climatéricas do país, os eventos e também o turismo, que continua a crescer, são fatores que ajudam a sustentar estes valores”. 

Ainda assim, o consumo per capita de cerveja fixou-se nos 51 litros - uma quebra elevada quando comparado com os anos anteriores à crise, quando se fixava nos 57 litros, mas longe dos 46 litros consumidos em 2015. “Os resultados demonstram que este é um setor em permanente renovação, bem patente na proliferação de cada vez mais empresas cervejeiras e microcervejeiras a lançar novos tipos de cervejas. Produção de excelência, adequada ao consumo responsável em qualquer ocasião, alargando a base dos consumidores portugueses e posicionando a cerveja como a bebida de eleição n.o 1 dos portugueses”.

A culpa deve-se, em parte, à elevada carga fiscal, diz a associação. Para que o setor continue em ascensão, a indústria cervejeira quer um pacto com o Governo para o congelamento durante cinco anos do imposto especial de consumo (IEC) sobre a cerveja e compromete-se, com o Pacto pela Cerveja, a investir no setor produtivo nacional, com repercussões na criação de emprego e em toda a cadeia de valor.

De acordo com as contas dos Cervejeiros de Portugal, em cinco anos, a indústria poderá aumentar 20%, para 1,2 mil milhões de euros, o valor acrescentado bruto (VAB) na economia nacional, onde já é o 15.o, responsável por 80 mil postos de trabalho diretos e indiretos.

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