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Hotel Império. Macau como um presente distópico

Hotel Império. Macau como um presente distópico

DR Cláudia Sobral 09/05/2019 17:19

Depois de Cartas da Guerra, chega hoje às salas o novo filme de Ivo M. Ferreira. Rodado em Macau, onde viveu nos últimos dez anos, com Margarida Villa-Nova e o taiwanês Rhydian Vaughan como protagonistas.

Hotel Império é desses lugares que não existem - que já não existem. A existir, só nesta Macau distópica, em transformação, entre um passado reencontrado em recortes de jornais e o presente do jogo, dos casinos, das saunas e da prostituição de luxo, a Macau em parte real, em parte ficcionada por Ivo M. Ferreira. O realizador de Cartas de Guerra, que depois dessa adaptação ao cinema de Neste Viver Aqui Neste Papel Descripto, de António Lobo Antunes, regressa com a sua quarta longa-metragem de ficção, Hotel Império - a primeira que poderá descrever, ao fim de uma vida inteira entre Lisboa e a região administrativa chinesa, como não sendo nem de um lugar nem do outro, mas “como um filme de Macau”. 

Também ele é isso, diz ao i numa conversa em que importará regressar a O Homem da Bicicleta - Diário de Macau, a sua primeira curta-metragem, rodada entre 1994 e 1996 e estreada no ano seguinte, um filme-ensaio entre o documentário e a ficção em que, em correalização com António Pedro, acompanhava um velho percorrendo a cidade na sua bicicleta. “Há [em Hotel Império] coisas que vêm ainda dessa pulsão, desse olhar inicial, que ficaram sempre por dizer. Achei que era altura de filmar Macau, uma história sobre Macau, aproveitando também esta fase muito especial em que precisa de definir a sua identidade”.

Como ponto de partida para essa história sobre uma Macau que não surge como outra mas como a sua, agarrou Ivo M. Ferreira nos clichés que ao longo de todos esses anos lhe foram enchendo os ouvidos. Do jogo, da prostituição. “Quando pegamos em clichés arriscamo-nos a que o filme resulte num cliché, mas tive vontade de pegar nisso tudo e tentar perceber o que poderia fazer”.

E o que é Macau hoje, afinal? Aqui, em Hotel Império, será um lugar entre dois tempos, um passado de uma presença portuguesa a desvanecer-se, ruas tradicionais, apertadas e ruidosas, e o presente das torres futuristas, um lugar ao qual servirá bem o thriller pela sobrevivência desse lugar-metáfora.

“O nome do hotel [Hotel Império] é uma metáfora supersimples e direta com Macau e com um eventual saudosismo de um império melancólico. O lugar existe, em parte, como uma pensão, mas sem aquele néon nem aquele nome”, diz o realizador, que escreveu o argumento com Edgar Medina - tal como em Sul, a série cujos dois primeiros episódios se estreiam neste sábado no IndieLisboa, antes de em setembro chegar à RTP. “Se hoje não há um Hotel Império, um hotel com um dono português como aquele, já houve. A esse nível, é como que um congelamento do tempo - um congelamento do tempo num último reduto de um saudosismo, que não é meu de certeza, de um tempo colonial, nessa ideia de as pessoas não quererem largar um tempo, de não quererem assumir que as coisas mudaram, que aquela história acabou e que agora será outra”.

Como um filme de despedida

Um thriller a “reivindicar o fim de um império melancólico”, então, nesta história que é a de um hotel - que virá, além do resto, como metáfora para “a própria ideia de Macau como lugar onde as pessoas chegam, fazem check-in e check-out -, mas é também a de Maria, interpretada por Margarida Villa-Nova quase sempre em cantonês, por vezes em português e em mandarim ainda, no papel que ao i descreve como o mais desafiante da sua carreira em cinema. Uma descendente de portugueses para quem Portugal é um lugar abstrato, que à procura de uma novo lugar, de uma nova forma de viver, se cruzará, no casino flutuante em que canta fado, com Chu (o taiwanês-britânico Rhydian Vaughan).

A compor um elenco maioritariamente chinês, apenas mais dois portugueses: Tiago Aldeia e Cândido Ferreira. E pouco português se ouvirá falar ao longo da hora e meia pela qual se estende uma história que ao longo do processo de escrita foi conhecendo várias traduções e adaptações para as várias línguas em que se desdobra. Explica Ivo M. Ferreira que se tratou de um processo “exaustivo” - além de dispendioso. “Ainda não tinha dinheiro para fazer o filme e já tinha gasto imenso em traduções. E o argumento da rodagem em si tinha as páginas traduzidas em espelho, nas várias línguas, portanto até o argumento era complicado”.

Conta Ivo M. Ferreira que terá dito Norman Wang, parceiro habitual do realizador chinês Wong Kar Wai, a propósito deste filme que, depois de uma primeira exibição em Portugal durante o IndieLisboa, numa sessão especial, chega hoje às salas de cinema: “Parece um filme de despedida”. E completa o realizador, que não sabe agora quando regressará a Macau: “Hotel Império é de alguma forma um filme de síntese da minha passagem por Macau e dos filmes que fiz lá”. 

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